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O queijo e os vermes

Luciano Alvarenga

O Brasil é hoje o maior consumidor de crack do mundo; o segundo maior consumidor de cocaína das Américas; o maior entreposto de tráfico internacional de entorpecentes do planeta. Essas marcas, alcançamos em apenas trinta anos; os mesmos trinta anos da democracia social-liberal de esquerda do PSDB/PT/MDB. Essa “nova” realidade é uma tragédia em si, mas não é a única.
No lastro produzido pelo discurso esquerdizante de que bastam liberdade e distribuição de dinheiro do Estado pra que se consiga fundar um país novo, outra realidade se desenvolveu entre nós. A dos profissionais que transitam entre a legalidade e a ilegalidade, entre o honesto e o corrupto, entre o certo e o errado. E são esses profissionais, hábeis na “arte” de corromperem e serem ‘honestos’, os que mais se dão bem; isto é, ganham dinheiro, fama e reconhecimento social.
Em praticamente todas as áreas de ação das profissões liberais, médicos, advogados, arquitetos, contadores, jornalistas e mais todos os outros, foi se desenvolvendo ao longo dessas últimas décadas, as mesmas décadas em que a corrosão do caráter, da moral e da docência carcomeu a alma nacional, uma extensa e borrada área de atuação pra aqueles profissionais, onde obter vantagens da destruição do caráter nacional transformou-se em qualidade número um no mercado de trabalho desses profissionais.
A formação profissional recebida nos bancos universitários, defasada e aquém do necessário em tempos de revolução tecnológica 4.0, é absolutamente prescindível pra atuar no campo borrado entre o legal e o ilegal.
Agindo numa sociedade onde o Estado é muito maior que o país que ele representa, em que a burocracia é agente esterilizante da iniciativa individual, onde a legislação, seja qual for, incida em que campo for, é tão esdruxulamente exorbitante, tornando vazio o princípio jurídico de que o réu não pode alegar em sua defesa o desconhecimento da lei, criou-se uma ceara fecunda pra atuação daqueles profissionais, especializados na arte de converter embaraço em laço, dificuldade em solução, ética em estética, ocasião difícil em negócio fácil.
De médicos que inventam cirurgias, procedimentos e implantes desnecessários, até arquitetos que negociam sua porcentagem com lojas, empresas e fornecedores à custa dos seus inocentes clientes, até advogados que articulam entre si ganhos e prejuízos negociados entre partes opostas às costas dos clientes que eles representam, o fato é que outra cultura desenvolveu-se entre nós. Não apenas o crime organizado age ao arrepio da lei, e envolvem agentes públicos, hierarquias inteiras do legislativo e judiciário, promovendo o rápido enriquecimento de quem a essas trocas se entrega, mas a própria sociedade, uma vez largada ao desmanche moral geral, promovido, aliás, pelos discursos políticos liberais e de esquerda, passou a agir de acordo com o mesmo princípio norteador do crime organizado.
Ser honesto é coisa de otário; profissional honesto está engessado e impedido da necessária flexibilidade exigida pra existir com sucesso na sociedade em desmanche atual. O campo formal da sociedade brasileira deixou de ser a algum tempo, o lugar das trocas simbólicas, da reprodução dos valores, da educação eficiente e onde nos espelhávamos na realização de um país melhor. É na in-formalidade de relações tóxica, na corrupção, no submundo, na baixa cultura do ganho e do dinheiro conseguido passando pra trás o incauto, que a vida social e profissional hoje se alastra. É a mexicanização do país.
Podíamos ganhar dinheiro empreendendo, mas como a cultura nacional estatizante e a burocracia cancerosa não nos permitem, o dinheiro está sendo feito, ganho nos interstícios da sociedade, naquele lugar onde o legal não alcança e o ilegal é apenas uma questão de interpretação. Onde o honesto e bem feito cede lugar à oportunidade e esperteza.
Profissionais sérios e, pobres, de longas carreiras construídas sobre valores e princípios, assistem abismados e boquiabertos as novas gerações, nascidas e preparadas para ser o que se tornaram; enriquecerem nos escombros daqueles valores e princípios.


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