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A bomba que inaugura o Brasil novo

Artigo publicado no GAzeta do Povo, maior jornal do Paraná, em Curitiba.


http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/a-bomba-que-inaugura-o-brasil-novo-49o1r7p9kjvttpfr3nry1zs4e



A bomba que inaugura o Brasil novo
O atentado à bomba, impetrado por um sírio e um palestino em São Paulo, contra manifestantes em passeata na avenida paulista, demarca o inicio de um novo tempo, provavelmente de um novo Brasil.
O Brasil globalizou-se sem ter se globalizado. Em outros termos, nos globalizamos antes de todos os outros, e não nos demos conta disso. Autores como Gilberto Freire e, em alguma medida Darcy Ribeiro, nos ensinaram sobre a capacidade plástica do Brasil e dos brasileiros, de incorporarem na brasilidade toda e qualquer cultura. O que no mundo era uma quimera, no Brasil sempre foi realidade.
Miscigenados na cor e na alma, desconhecíamos ódios, diásporas étnicas, rivalidades religiosas. Éramos o que o mundo precisava ser.
O atentado em São Paulo coloca uma cunha no Brasil de antes, em relação ao Brasil que vai nascendo agora. Não pensemos que esse atentado é coisa isolada, algo da cabeça tresloucada de dois imigrantes desesperados por um lugar pra chamar de seu. Nada mais errado, nada mais ingênuo. Trata-se, ao contrário, da inserção nacional, como território, das lutas, das disputas, das loucuras que rodam o mundo e, que agora, tem em solo nacional mais uma fronteira de conquista.
O atentado é o sinal dado, a partir do centro mais importante da América Latina, de que é chegado o momento. O atentado, mais simbólico do que fato, ganhou o mundo, deixando ciente a todos e a tudo que precisavam saber dele. O território nacional não é mais visto como espaço de esperança e futuro, como o fora pra gerações de imigrantes de tempos outros; é agora, campo de batalha a ser ocupado e dominado a partir de uma lógica que nos escapa enquanto país. O atentado é um sinal para o mundo muçulmano, de que a bandeira está fincada.
A política sul-sul implantada pelo presidente Lula, antecipava o destino que nos aguardava. Arrastava-nos da condição ocidental e, de país, que mal ou bem tentava se atrelar aos melhores destinos desse hemisfério, e nos jogava como aliado de um mundo completamente estranho e do qual nada compartilhamos.
De um país que cantava em verso e prosa sua miscigenação, passamos nas últimas décadas sendo convencidos de que na verdade é tudo ódio e divisão dissimulados. Se somos divididos, como nos fizeram crer, prontos estamos para partilhar em território pátrio, as divisões do mundo todo.
A gravidade do que está em andamento, é o fato de que uma força política nacional, a esquerda, não desenvolve um plano de transformação nacional a partir do que somos; mas empenha-se num projeto de nos recriar numa reengenharia social, que mistura tudo e todas as coisas existentes no mundo, e que possam contribuir pra destruição do que somos.
Naquilo em que o Brasil sempre foi global, sua plasticidade étnico-religiosa e capacidade de existir, apesar da nossa condição periférica, nada tem valor para aqueles que nos querem inserir no mundo global, dentro dessa nova perspectiva – a de ser território residente pro que tem de pior no mundo.
Se o que está sendo dito faz sentido, o que está se iniciando agora, é o Brasil como fronteira de uma nova ordem mundial em instalação, e o fim de qualquer projeto, bom ou não, de nação.
O atentado em São Paulo é o aviso, pros pares mundialmente posicionados, mas também pra nós brasileiros, de que não se trata mais de acolhida e vida nova entre nós; mas de que são os arquitetos de um novo tempo, em que o que somos não tem a menor importância. Luciano Alvarenga




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