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Treze Razões e o Baleia Azul

Por Luciano Alvarenga

 

O jogo baleia azul, emergiu dos subterrâneos da vida emocional adolescente para o debate público, quase ao mesmo tempo em que a série Thirteen Reasons Why, (Por Treze Razões), explodiu como sucesso no Netflix.

De repente, os adolescentes são colocados ao centro da cena pública mais de maneira a nos escandalizar, por estarem metidos em jogos que não deveriam estar ou, sobre as razões suicidas de quem na verdade nenhum motivo tem pra suicidar-se.

A doença emocional da qual estão acometidos os adolescentes, não lhes são uma exclusividade, mas certamente o sintoma de uma doença maior e mais extensiva e, que acomete também os adultos, e, a sociedade contemporânea.

De alguma maneira as pessoas sentem que algo está errado, que a vida está sem sentido, e elas não conseguem dar conta de entender ou perceber de alguma forma, o que está fora do lugar. O mal estar a qual estão sujeitas, não conseguem atinar sua origem.

Giorgio Agamben, afirma que a sociedade contemporânea está marcada por um tipo de vida que ele descreve, na esteira de Aristóteles, como Vida Nua. A vida nua é aquela onde o centro da existência está inscrito no corpo; e nas preocupações com esse corpo no seu sentido biológico. A vida se resume, a partir desse ponto, a gestão daquilo que possibilita a vida saudável do corpo, o retardamento da velhice, a ampliação dos prazeres que esse corpo possibilita, o afastamento bioquímico de qualquer moléstia, emocional ou física e, assim por diante.

Em oposição, ainda nos temos de Agamben, a Vida Qualificada, ou seja, aquela onde encontramos significado para o existir, no fazer, no trabalho, na ação criativa, emocional, onde inscrevemos nosso significado a partir daquilo que expressamos concretamente como nosso ser, está completamente exilada da possibilidade de se expressar no mundo contemporâneo.

Dentro dessa perspectiva, as pessoas tem expressado seu mal estar a partir de duas condutas, não conscientes nem possíveis de serem racionalizadas pelo indivíduo; de um lado, a explosão exterior da violência, seja doméstica, no espaço público, nas condutas diárias de convivência, os assédios de todos os tipos; de outro, a explosão interior ao corpo, na condição de distimias, depressões, e doenças psicossomáticas.

Como pano de fundo, onde esse mal estar na vida contemporânea é sentido, uma vida urbana fria, distante, desumanizada, vivida em guetos, ou afaveladas, hiper tecnologizada, (des) orientada por uma avalanche de informações permanentes, que criam a sensação crescente de desconexão, ao mesmo tempo em que a vida nos parece um risco permanente.

Depressões e suicídios deixaram, a muito tempo, de serem problemas individuais, e entraram pra condição de fenômenos sociais que descrevem ou, ao menos indicam, uma distopia na ordem do viver civilizado.

Guerras, genocídios, confrontos armados como no Rio de Janeiro, assaltos e drogatização, saíram da condição de espetáculos assustadores e bárbaros, e estão inscritos na ordem do viver cotidiano e normatizado da vida diária. A violência para com o outro, ou contra si mesmo, está assimilado como parte integrante dessa nova forma de existir.

A violência pública é sentida como um problema de ordem pública e parte da vida urbana, e contra a qual se pode apenas conviver; e, o mal estar individual, é agora tratado como coisa pessoal e, talvez de ordem familiar, nada significando pra qualquer outro.

Na incapacidade de podermos verbalizar, ou expressar como pensamento consciente, nossas dores, explodimos violentamente contra o outro no espaço público, ou, implodimos nós mesmos em nossas doenças psicossomáticas ou depressivas.


É nesse aspecto que a psicanálise, ou clinicas correlatas, num mundo deformado e laboratório de todo tipo de engenharia social, ascende como possibilidade real das pessoas encontrarem a si mesmas, darem vazão a suas dores e sofrimentos, e encontrarem forças, e sentido pro existir. Luciano Alvarenga

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