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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O Brasil vive sua desgraça

Luciano Alvarenga
O Brasil mergulha novamente no caos, depois de alguns anos em que se imaginou adentrando o mundo desenvolvido. A democracia igualitária, que segundo Tocqueville é o passo mais rápido até uma ditadura totalitária, nos foi vendida pelos agentes da redemocratização, como o caminho único pra vencer o subdesenvolvimento.
Pessoas mais velhas, e que estão nessa janela há muitas décadas, não compraram com rapidez o discurso da democracia. Quietos ficaram por questão de sobrevivência; mas agora assistem o coro de vozes descontentes com o regime que nos governa. A democracia igualitária brasileira é apenas um discurso, um discurso que norteou os rumos, mas que não alterou a substância da qual somos feitos.
De repente nos olhamos a nós mesmos e percebemos que somos uma mentira. O Brasil é um gigante de sombras, projetadas pelo sol de outras culturas, outras civilizações. O Brasil tem dono e a democracia foi apenas uma maneira, de incluir a massa do povo num sistema onde ela não tem voz nem vez. Uma vez que a cultura da qual a massa do povo faz parte, sempre foi outra, tradicional, interiorana e religiosa. A democracia moderna a nós vendidos, mal se ajeitou ao fato de que a própria modernidade jamais fincou raízes entre nós.
A modernidade é a superação da tradição, e a formação de uma cultura outra que a substitua; uma cultura assentada na razão, na ciência, no humanismo e no indivíduo, ou em uma palavra, no mundo material e mais nada. Ora, isso nunca se realizou por aqui. No entanto, a tradição e a religião a ela coligada, foi se desmanchando, se diluindo, liquefazendo no tempo mesmo em que a modernidade não se instalava. Isso se explica, por uma elite intelectual e econômica, muitas vezes também a religiosa, que jamais teve como intenção realizar, nem uma coisa nem outra. Essas elites quiseram um país pra si mesmas, nem tradicional nem moderno.
O caos em que nos vemos é a última expressão de um país que se desmanchou. Sem uma elite intelectual que nos pense, sem um povo que se entenda de maneira uniforme, estamos à deriva de narrativas da mídia vinculada a interesses específicos, que promovem o caos quanto mais se interessa em “compreendê-lo”. A enorme insegurança em que estamos seja econômica, emocional, psíquica ou religiosa, expressa uma nação sem destino, sem rumo. Aqueles que comandam o país, em qualquer sentido de comando, em qualquer nível de poder, laico ou religioso, simplesmente nada comandam, porque não possuem profundidade de saber, nem conhecimento espiritual, nem lapidação moral e o caráter elevado de que a nação precisa nesse momento. E a ausência mesma desses líderes elevados moralmente, aqui num sentido religioso e filosófico, é fruto da nação, da sua cultura. Como diz o sagrado texto, “é pelos frutos que se conhece a árvore”.
O que estamos vivendo ou, aquilo que não estamos vivendo, é fruto do que não somos. Isso porque somos uma cultura de baixo nível, rasteira, inimiga de tudo que é superior, elevado, nobre, seja espiritualmente, seja materialmente. É claro que tivemos momentos, décadas até, em que o espírito superior vicejou entre nós, mas ao mesmo tempo em que surgiu, foi duramente combatido, pisoteado, humilhado e jogado fora. Tudo que expressou alta cultura no Brasil foi destruído e apagado da lembrança.
Estarmos como estamos, subjugados pelo que tem de mais rasteiro, obrigados a sermos guiados por grupos delinquentes e marginais, expressa apenas o que somos. A democracia acelerou o processo de corrosão da nação, porque permitiu à assunção dos piores tipos encontrados na sociedade; a política na democracia transformou-se no mais perfeito organismo de alpinismo social dos mais degradados entre nós.
O mau caratismo, o banditismo e iniquidade foram elevados a critério de seleção dos “melhores”. Não há lugar no país em que essas características não sejam alçadas como referência na escolha de quem sobe, ou quem assume o poder. Sendo esses os pré-requisitos indispensáveis a quem queira um lugar ao sol, a vida cotidiana da nação, de cima a baixo, virou uma arena em que os piores concorrem entre si, da onde o pior, o mais larápio, o mais iníquo, o mais cínico, pérfido, fingido, mau, é premiado como exemplo de sucesso e destaque; e esses tem seu lugar.
O caos em que estamos com a própria população saqueando lojas e estabelecimentos comerciais, na ausência da policia; lembrando ainda o caso de tal MC Beijinho, que de dentro da uma viatura é elevado ao sucesso com aplausos da mídia e da right society artística, evidencia, sem contra argumento, que a imoralidade e o banditismo são a própria argamassa que nos conforma.
Imaginar que um ou outro, desses que se apresentam, como salvadores da nação possam dar conta do estado de coisas em que estamos, é ingênuo, e desesperado. Mesmo aquilo que de melhor emergiu entre nós, nos manifestos de rua dos últimos anos, já apodreceu afundados na alta suficiência, na vaidade de imaginar poderem condensar em si mesmos um país inteiro.

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