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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Indivíduo contemporâneo e as dores da alma

Luciano Alvarenga
Em algum momento, pode ser na adolescência, na juventude ou, até mesmo na maturidade, as pessoas se dão conta de que estão vivendo, mas que sua vida não possui nenhum sentido profundo, transcendente, quando muito um sentido aparente.
Mergulhados numa cultura que nos desliga cada vez mais e sempre, daquilo que nos vincula ao passado,
às nossas raízes, a tradição, ou um saber espiritual milenar, nos apercebemos que somos como boias, levadas pra lá e pra cá, sem destino.
A percepção disso pode ser chamada de crise, de depressão, e vivida como alcoolismo, drogatização, consumo compulsivo, cuidado exagerado com o corpo, intervenção estética como tatuagens, percings, etc. Todos eles são tentativas de substituir o vazio; quando essa iniciativa aparente de criar sentido, perde sua força, seu significado, a sensação de vazio retorna; os sintomas da depressão emergem, tomam conta e, a realidade se transforma em algo cinzento, escuro, mórbido; e a pessoa está doente.
A civilização ocidental está doente. E a quantidade de gente drogatizada, deprimida, vagando pelas lojas, ou se lançando em tudo que possa lhe roubar em sua dignidade, evidencia a doença social que vive nossa civilização. No Brasil, o aumento de pessoas com depressão aumentou em quase mil por cento nos últimos dez anos.
A sensação do homem urbano ocidental é de vazio, a alta literatura produzida por alguns notáveis escritores, nenhum brasileiro, é um mapa do vazio do indivíduo contemporâneo. Desconhecendo a si mesmo, suas potencialidades, sua beleza, a realidade de que é um ser antes de tudo transcendente; que tem capacidades pra além de um objeto de uso do marketing, ou da ideologia, torna inevitável que o individue em um momento ou outro, se encontre consigo mesmo, e queira se descobrir no que realmente é.
Todo tipo de doença da alma, ou, doenças psi, são resultado do divórcio do homem com sua própria transcendência. A velocidade da vida diária, as obsessões com sucesso e dinheiro, prazer e felicidade material, expressam o individuo tentando preencher seus vazios interiores.  
Ocorre que sendo a própria cultura ocidental a expressão do vazio, do rasteiro, do ignóbil, de tudo que é rebaixado, o individuo que se apercebe da sua condição, e tenta dela se desvencilhar, procurando um caminho que o leve a compreender-se a si mesmo e suas possibilidades, defronta-se com uma barreira quase intransponível. Se a própria cultura onde o individuo está é a expressão daquilo que produz sua dor, como encontrar nessa cultura a “cura” pra si mesmo?
A velocidade com que a cultura tradicional brasileira, sua religiosidade, seu entendimento do que tem valor ou não, está sendo transtornada, atacada e desaparecendo do horizonte como referência do individuo, tem deixado as pessoas sem chão, perdidas, deslocadas e desorientadas; herdeiras do passado, mas impedidas de nele se sustentar subjetivamente, e ao mesmo tempo mergulhadas no novo, no digital, no cosmopolita, sem, contudo, dele fazerem parte; o resultado é um indivíduo exilado de si mesmo, exilado da própria possibilidade de sentido.
Quando o sentido pra nossas vidas está fora de nosso alcance, acabamos entregues ao imediato, ao simples, aquilo que não possui profundidade. Não é a toa que as novas gerações, mas, não apenas elas estão mais propensas a qualquer coisa que premie rapidamente; é por isso que elas preferem o simples ao complexo, o rápido ao que é lento, o prazer ao transcendente, à informação ao conhecimento, o entretenimento a contemplação.
O ser humano é da ordem do que é complexo e profundo, mas vive numa cultura que o rebaixa e o desumaniza. O desnível entre o que é, e como vive, está na raiz das dores da alma que sente.










Um comentário:

Anônimo disse...

Olá meu caro amigo!
Como farmacêutico tenho um dado interessante. A venda de antidepressivos no Brasil cresceu 18% em reais atingindo quase R$ 4 bi. (2016)

O vazio não é preenchido pelo fato de vivermos remoendo o passado e antecipando o futuro.Fazendo do hoje um dia qualquer, não aproveitando o PRESENTE.

Grande abraço
Daniel Shorusgol