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Escola e Família, defuntos e zumbis

Escola e Família, defuntos e zumbis
Pessoas comuns, homens, mulheres, senhoras e senhores, se entregaram rapidamente ao roubo e a pilhagem em Vitória, Espírito Santo; comportando-se como bandidos, tão logo ausentada a policia. Como pessoas comuns, honestas a principio, viram ladrões de um dia pra outro. A escola e a família estão na base disso.
A escola pública, pra ficarmos num bom exemplo, é a expressão cabal da falência múltipla da sociedade brasileira, pra não dizermos da falência, daquilo que em outros tempos já foi tratado como Civilização Brasileira.
O universo absolutamente caótico em que aquela escola se encontra, reúne em si, uma série de exemplos dessa falência civilizacional, mas tratemos apenas de um, o professor. O professor, aquele que é o centro da escola, e deveria ser o centro em torno do qual aquela escola se pensa, foi, não somente marginalizado (termo desgastado), e destituído do seu sentido, como vive ele, hoje, uma crise de sentido identitário, justamente por que desvestido do seu papel.
A escola transformou-se apenas no lugar onde crianças e adolescentes se reúnem, sem qualquer outro sentido. Incapaz de dar lugar a essas pessoas no mundo atual, a sociedade vê a escola como um centro de encarceramento, pra uma massa de gente sem lugar, nem função. Substituindo a família, tratada como uma anomalia e um resquício das sociedades tradicionais, os discursos ideológicos esvaziaram o papel dos pais como educadores primeiros e fundamentais, das crianças e adolescentes, e em seu lugar, tornaram a escola o lócus onde o sentido da vida, moderno e individual, deveria se constituir.
A escola, então, não é mais o lugar onde o aperfeiçoamento técnico cognitivo se faz, e onde o indivíduo traduz subjetivamente a educação moral transcendente dos pais; não, a escola é apenas um espaço de adestramento ideológico-técnico sem conteúdo moral, porque os pais deixaram de ser uma referência como formadores dos seus filhos.
O desmantelamento da família, a desautorização dos pais, entendidos como profissionalmente incapazes de formar seus filhos segundo os discursos acadêmicos profissionais, e preocupados demais com o mundo a sua volta e sua própria subsistência, tornaram todas as crianças e adolescentes órfãos do seu passado, legado pela família, e ao mesmo tempo, reféns do Estado, como tutor central da nova educação.
A escola em outros tempos era apenas um espaço de aprendizado técnico, que expressava em suas relações internas, aquilo que era entendido fora da escola como fundamental à formação e maturidade do indivíduo. Respeitar o professor era apenas a transferência no espaço da escola, do respeito que se possuía pelos pais. Estar na escola significava apenas acessar certo quantum de conhecimento, que deveria paralelamente, vir a se integrar ao indivíduo, naquilo, fundamental, já adquirido em casa.
Os pais eram o centro da educação em casa, e o professor era o centro do aprendizado na escola. Quando os pais foram esvaziados de sua função, desautorizados e silenciados pelos discursos ideológicos, consequentemente, os professores perderam ao mesmo tempo, e na mesma intensidade, a sua autoridade na escola. Assim como os pais nada mais representam que apenas vetores da subsistência material dos filhos, os professores nada mais representam, que apenas carcereiros de uma massa infanto-juvenil sem lugar, nem função.
A crise emocional gravíssima vivida pela massa do professorado brasileiro, especialmente nas grandes e médias cidades brasileiras, é a expressão psíquica de um ser destituído de seu papel e do que ele representa. Um professor em sala de aula é um individuo que precisa lidar ao mesmo tempo, com o fato de que nada representa, por que portador de um conhecimento que se torna obsoleto mais rápido do que pode ser assimilado pelos alunos, e, impedido de ser quem é; professor.
O tempo em sala de aula é um desgaste emocional, com pouquíssimos paralelos em outras profissões. Cada minuto com os alunos representa a capacidade ou não, do professor desvestir-se do que é, negar-se a si mesmo; de ter obrigatoriamente de representar “teatralmente” a morte de si mesmo. A escola é um espaço morto, porque morto o professor.

Sem autoridade simbólica e concreta, porque a referência da primeira autoridade são os pais, e estes nada mais podem contra o estado de coisas atual, e sem autoridade concreta, porque portador de um saber, seja obsoleto, seja ideológico e vazio; o fato é que professor e escola reúnem a um só tempo e lugar a falência de uma sociedade inteira. 

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