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O longo caminho até o amor

Luciano Alvarenga

Perdoar é antes de tudo e de mais nada, perdoar-se a si mesmo. Perceber que somos frágeis, fracos, falhos, e os erros são parte do nosso caminho de maturidade e amor. Minha adolescência e juventude foram marcadas pela impulsividade e a certeza de que o mundo era um lugar a ser conquistado, por mim, claro. Sem perceber, ou percebendo apenas aquilo que me convinha e sustentava minhas decisões, me afastei de minha família mais e mais. Entrar na universidade, ir embora pra outra cidade e começar uma nova etapa em minha vida, longe da minha família, foi como um carimbo dizendo que eu estava certo, que quando mais longe melhor.
A distancia não foi fácil, descobri que as raízes que nos ligam às pessoas que nos criaram e nos amam, a cidade onde nascemos, as histórias, os amigos e colegas, os lugares conhecidos, cada esquina por onde passamos milhares de vezes sem nos darmos conta dela, o clima, ahhh, o clima, esse ao lado da geografia são certamente os mais difíceis e dolorosos de esquecer. Como nos disse Fernand Braudel em um livro clássico e maravilhoso, a geografia finca raízes em nossas almas. O tempo frio de Paraibuna, os nevoeiros da Serra do Mar que baixavam em determinadas épocas são parte significativa de minha infância, e marcam fortemente minhas lembranças, e ainda me emociono com elas. Os morros, que por falta de tamanho, percebi certa vez, que ao mencioná-los, sempre dizia montanhas de Paraibuna; ainda que Paraibuna não tenha montanhas, e parei de emprestar aos morros uma aura que não possuíam; ainda assim, continuei a gostar deles da mesma maneira, talvez mais. Morros e montanhas nos dão uma vívida sensação de liberdade. Quanto mais longe, mais as coisas nos são diferentes, exóticas e ai sim, vão se nos revelando; e tudo e qualquer lembrança, fato, acontecido, pode se revestir de um sentimento de amor, de ternura, de desejo de voltar, de se sentir abraçado, por tudo aquilo que você começa a perceber é parte constitutiva da sua alma e do que você é. Ainda hoje, não consigo não perceber que está frio, nublado, com aquela cara acinzentada, e quanta lembrança continua suscitando em minha alma, um simples dia nublado, meio friorento. Isso são raízes exteriores em nossa alma, nos ligando a tudo aquilo que nos tornou o que somos.
É isso que estou dizendo que lhe acontece quando você está longe dos seus e do seu lugar. Entendendo lugar como uma geografia, também amorosa. Claro, que tudo isso fui aprendendo devagar, e de diferentes formas ao longo dos anos desde que sai da casa de minha mãe. Os primeiros dias, os primeiros dois anos em Araraquara, que olhando hoje, não é assim tão diferente da minha Paraibuna, ao mesmo tempo que é completamente diferente, esses primeiros tempos na universidade foram como ter tido minhas entranhas contorcidas por uma ferramenta que não me soltava. Fui sequestrado durante anos, pela lembrança dos cafés da tarde na minha antiga casa, a casa de minha mãe. Todos os dias esperávamos eu, e minhas irmãs, a chegada da minha mãe do Fórum, local onde ela trabalhava; dezessete horas era a hora mais aguardada do dia, era o momento em que nos encontrávamos e conversávamos longamente, coisas do dia a dia, histórias, pessoas, fatos ocorridos, mas era todo dia e todo dia aguardado. Esse ritual diário, realizado tão espontaneamente e sem intenção alguma, estava de tal forma entranhado em mim, que durante mais de dois anos em Araraquara, não houve uma tarde sequer em que não chorasse todos os dias no mesmo horário a falta dele.
São essas coisas que a distancia evidencia, traz à tona, põe em primeiro plano e lhe obriga a olhar pra si mesmo, olhar pras pessoas que lhe são caras, olhar pro lugar amaldiçoado tantas e tantas vezes, e ver que ele é o berço da sua existência, e que sem ele você está condenado a vagar desenraizado pelo mundo.
O tempo e o sofrimento tem poderes milagrosos sobre nós. A juventude, exaltada desde sempre, nos arroga poderes que não temos, nos faz ver coisas que desaparecem na mesma velocidade em que tentamos alcançá-los; e junto com as promessas de onipotência emprestada pela juventude, lhe acompanha o sofrimento. É o sofrimento que se impõe e nos arranca a juventude lentamente, dolorosamente, à medida que notamos que o mundo é indócil aos nossos desejos.
Caminhar pela vida é antes de tudo amadurecer, mas ainda que não amadureça certamente o sofrimento lhe fará companhia. Amadurecer e sofrer é incontornavelmente ser abandonado pela juventude; ao sê-lo, começamos um longa jornada de volta a tudo aquilo que nos formou, nos baseou, e que renegamos. Nosso lugar, nossa família.

Perdoar é antes de tudo perdoar-se a si mesmo, aceitar os erros, os desencontros, as perdas, as decisões equivocadas, os sofrimentos impingidos, a perda de tempo, esse que jamais se recupera. Nessa caminhada, ou a jornada do herói, pra ficarmos em boa companhia de mitos e histórias, nos encontramos conosco mesmo, nos reencontramos com os nossos e nos aproximamos de entendermos o sentido do que somos e pra que somos. É assim que o mundo esperado e desejado se desfaz, se dilui e ocupa o pequeno lugar de sua importância; e o amor, o afeto, a companhia, a amizade, o sentido de pertença se engrandece e demanda seu lugar em nós.

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