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domingo, 6 de novembro de 2016

O desespero do individuo contemporâneo

Por Luciano Alvarenga


Adolescentes e jovens (com problemas genéticos e congênitos) na América do Norte, estão processando seus pais e médicos por não terem sido abortados. No mesmo EUA, adultos em geral, especialmente intelectuais e movimentos de esquerda, discutem o direito ao aborto pós-natal: até que mês de vida é exequível o aborto. Na Califórnia, homens e mulheres fazem transformações cirúrgicas, amputação, tatuagens, implantes por se julgarem tigres, jacarés etc. No Brasil, homens e mulheres transformam o próprio corpo, por meio de cirurgias e manipulação química, pra ajustarem seu corpo que não estaria em conformação com sua mente feminina ou masculina.
Esses casos todos são expressão de uma única coisa fundamental, o indivíduo afundado na cultura global cosmopolita: desenraizado, desculturalizado, desconectado dos dois mananciais, historicamente legados pelo passado mais longínquo, como referência identitária ao ser humano: a tradição e a religião.
Destituído na cultura global de referências identitárias, o indivíduo na modernidade líquida, torna-se autor de si mesmo (Bauman). Sem passado onde se espelhar, nem futuro, que deixou de ser uma possibilidade, dada a falência das utopias como norte da existência, o individuo se transforma em autor da própria biografia, não mais num sentido superficial ou profissional, mas existencial. Liberto do passado, e sem as amarras do futuro utópico, o individuo contemporâneo se vê a si mesmo, como o lócus onde atua e inscreve seus desejos, angústias, esperanças, e onde deposita seus anseios de equilíbrio e proteção (Birman).
Mergulhado na cultura liberal cosmopolita, onde papéis, gênero, transcendência e destino nada mais são que constructos culturais alienantes, o indivíduo atual está mergulhado na liberdade sem fim de ser e inventar a si mesmo, sem amarras, e absolutamente inseguro do que isso significa e onde irá desaguar. Exposto todo tempo e permanentemente, a torrentes discursivas e comportamentos novos que correm o mundo como as novas verdades a serem abraçadas, homens e mulheres contemporâneos, correm de um lado a outro, e firmam sua fé nessas novas verdades, e ajustam seu corpo, sua mente e sua existência, a qualquer coisa que prometa um fim seguro pra um destino insuportavelmente incerto.
A tradição e a religião sempre foram o solo seguro e “imutável”, de onde o individuo tirava sua identidade e onde inscrevia seu desejo de pertença. Limitado pela tradição e pela religião, com liberdade limitada dentro da qual deveria atuar e viver, o indivíduo sabia ser herdeiro de alguma coisa que ainda que não compreendesse plenamente, o guiava pela vida, e tornava o cotidiano um lugar seguro com destino certo e parada garantida. Sem "liberdade", mas seguro.
Tradição e religião, mais que um conjunto de valores previamente organizados com fins estipulados e controlados, era na verdade o resultado de todos os passados, de todas as gerações, de toda a história da vida humana, e de como esse passado foi transformado, alterado, melhorado, vivido de tal forma, que nos chegava não como uma algema impossível de se livrar, mas como um mapa, um GPS, legado pelas gerações anteriores pra melhor nos guiarmos pela vida. O indivíduo recebia de antemão, ainda na sua tenra infância, um lugar, um papel, um destino. Os tormentos, as agruras, os sofrimentos da existência estavam previamente pagos pelas gerações anteriores, cabendo ao individuo apenas a crença e aceitação do legado que estava recebendo. Era como andar por uma estrada anteriormente percorrida, conhecida e, portanto, previsível.
Não é o caso do indivíduo contemporâneo, que solto de qualquer passado, de qualquer tradição, livre pra andar, também é responsável pela construção do próprio caminho e das suas consequências. O passado era a soma de todos os legados, saberes, conhecimentos; o presente, agora, é apenas o indivíduo sozinho, solitário, desamarrado e solto, procurando saber quem é, e o que quer de si e da vida.
Abortos pós-natal, indivíduos que se creem o direito de terem sido abortados, desalinhamento de gênero entre mente e corpo, são apenas expressões ainda tímidas, dos indivíduos globais contemporâneos em busca de sentido pra uma vida sem sentido nenhum. A quantidade não desprezível de gentes, que entregues a tessitura da própria existência e identidade, depois de transformarem o próprio corpo no ateliê de sua existência, entram agora em conflito consigo mesmos, arrependidos que estão dos resultados que conseguiram, é uma evidência do fato de que o individuo é incapaz de ser autor de si mesmo.
Gentes que uma vez jacarés ou tigres, ou homens que agora mulheres, em contato real com o que fizeram a si mesmos, desesperam-se contra médicos, psicólogos e outréns, fazendo uma caminhada aflitiva no sistema jurídico, que ontem reivindicavam como anteparo aos seus desejos de ser o que bem entendem, afluem pra programas de TV e nas redes sociais, denunciando o que fizeram consigo mesmos, e desesperados pra encontrar culpados, num mundo onde a culpa não é mais alternativa.
O mundo contemporâneo via tecnologias médicas e químicas, deu ao indivíduo a crença de que podia ele mesmo recriar-se a si mesmo, inventar-se como resultado de sua mente em busca de sentido. Não pode. O que temos é o aumento sem parar de novos meios de inventar-se a si mesmos (Black Mirror/Netflix), e o indivíduo diluído na modernidade líquida, se transformando de todas as formas em todas as direções, cada vez mais longe daquilo que o iluminismo e a razão, prometiam como possibilidade: um mundo sem Deus, sem tradição, sem religião, mas feliz e completo.
Acabar com o passado e a tradição foi apenas o começo, de um indivíduo dando o primeiro passo de uma longa e desesperada caminhada em busca de si mesmo, sem nenhuma expectativa plausível de encontrar; enquanto não se der conta de que é no passado, no conhecimento legado pelas mais longínquas gerações anteriores e seus ensinamentos, que pode encontrar consolo e paz.

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