Redes Sociais conectam ideias e visões de mundo

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Por que virei à direita*

Luciano Alvarenga
As pessoas me conheceram em Rio Preto por meios dos meus textos, palestras, aulas e minha participação na imprensa local. Meus alunos e colegas professores tiveram a oportunidade de me conhecer proximamente, e me conheceram em função de minhas ideias, da minha leitura do mundo e da sociedade, leitura essa quase sempre de esquerda.
Mas o mundo de minha formação infanto-juvenil foi um mundo conservador, e de forte acento religioso. Entrei em contato com as ideias da esquerda e com o mundo da literatura universal, no inicio da minha adolescência. Esse contato me influenciou fortemente e, certamente está na raiz de minha escolha em fazer Ciências Sociais na Unesp de Araraquara.
Ainda que eleitor da esquerda, ainda que movido pela cosmovisão da esquerda, nunca fui um militante da esquerda. Orientado pelo norte representado pela esquerda, via nessa corrente uma maneira coerente de transformação social. Acreditei nisso até deixar de estar convencido por ela. Num dado momento, a esquerda me pareceu cronicamente insuficiente como leitura de mundo. E quem me ajudou nesse entendimento, foi a literatura universal.
Mais maduro, mais vivido, mais sofrido e cheio de experiências, passei a me dar conta de que o mundo não pode estar dividido, apenas, entre os que tem riquezas e os que não a possuem. Que a vida social e política são insuficientemente representadas por essa polarização econômica; que a vida é mais que estar materialmente integrado.
Que o mundo das pessoas reais, sua vida cotidiana, não é expressa entre brancos e negros, gays e heteros, homem e mulher, gente de esquerda e gente de direita, ricos exploradores e trabalhadores explorados, bandidos vitimas e policiais bandidos, entre tantas outras polarizações artificialmente criadas pela esquerda. A vida real de todo o dia é muita mais complexa, cheia de nuances que não podem ser contempladas por esses binômios empobrecedores. Afeto, espiritualidade, transcendências, pra ficar apenas nos mais importantes, são elementos sumamente maiores e mais profundos que desigualdade de renda, e, certamente vão à alma das pessoas numa profundidade que a esquerda desconhece, e por isso seu imenso preconceito com o Brasil religioso e cristão.
Dei-me conta, talvez por que boa parte desses anos em que meditava, pensava e escrevia, tenha se dado no momento mesmo em que a esquerda estava (está) no poder, que ali não podia mais permanecer. Assistir um país com a complexidade do Brasil, com toda sua história, caminhos e descaminhos ser traduzido pela esquerda no poder, em binômios pobres, polarizações chulas, manipulações vocabulares, descaradas mentiras sobre o presente e o passado, tenha sido fundamental pro meu rompimento com essa corrente e meu retorno ao meu berço fundamental, o Brasil conservador.
A esquerda oferece uma leitura empobrecida do mundo, pra que esse mundo empobrecido possa ser explicado por seu pobre cabedal teórico. A esquerda não tem compromisso com qualquer transformação positiva da sociedade, seu norte é a conquista do Estado pra revolucionar a sociedade e sua cultura, fazendo o país, um corpo hospedeiro, transformar-se pelo avesso até que a sociedade seja uma expressão da esquerda e sua forma distorcida de estar no mundo.
O Brasil pra esquerda não é um valor, é apenas o corpo parasitado por ela, que deve hospedá-la enquanto ela suga energias e riquezas desse mesmo país, até o momento que tudo tenha se completado, e o Brasil não seja mais a expressão de si mesmo, de seu povo, de sua cultura, de sua história que se desenrola, mas o resultado planejado de um esquematismo ideológico e doutrinário, que entrega ao final do seu percurso, um monstruoso Frankenstein político, sem alma nem identidade.
A esquerda é uma doença, que transforma qualquer sociedade num corpo febril, atormentada por ela, vivendo pesadelos e fantasiando coisas inexistentes. A esquerda transforma valores em puerilidades, vê divisões odientas onde emergem complexidades e riquezas que com o tempo podem aflorar em uns pais melhor.
Me reconcilio com esse imenso Brasil conservador e interiorano, generoso, e capaz de a todos incluir sem distinção, sem apartamentos artificiais. Àqueles que sempre me leram, me ouviram, espero ter feito compreender melhor, ainda que pouco, o caminho que me fez virar à direita.
Àqueles que como eu, se veem nessa caminhada pra fora da esquerda, adianto; existe uma ampla e rica literatura conservadora que certamente lhes servirão de guia nessa caminhada. Mais, não se surpreendam com a infinita e sofisticada leitura que intelectuais conservadores e de direita fazem; você, assim como eu, irá se perguntar, “como pude ficar na esquerda tanto tempo”.
* Escrevo esse texto, animado pelo fato de que devo uma explicação aos meus alunos, ex-alunos, amigos, leitores, ouvintes e seguidores, que acompanharam ao longo desses últimos anos, a conversão de um professor com ideias de esquerda, num ator político conservador.

Nenhum comentário: