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domingo, 24 de abril de 2016

Não queremos a esquerda e, não temos outra coisa pra querer

Luciano Alvarenga


O ocidente e o mundo se redesenham a partir de novos movimentos de força geopolítica, de novos movimentos culturais e religiosos, do fortalecimento de antigas forças civilizacionais aparentemente extintas, comunismo, ou de novas referências religiosos antiquíssimas, paganismo pré-cristão, e o Brasil, como uma madeira solta no mar, vai pra lá e pra cá, sem rumo, sem destino.
A crise que o Brasil vive é uma crise civilizacional. O Brasil, infelizmente, é um país irrelevante no contexto internacional. Incapaz de produzir um corpo teórico sobre si e sobre o mundo se resume a reproduzir aqui, ideias, ideologias e modismos intelectuais importados sem nenhuma aderência na nação, na sociedade. Nossa esquerda é a maior evidencia disso.
Com o esfacelamento político da esquerda, mas não da cultura de esquerda, essa segue firme e forte, abre-se um vácuo de referência política que não pode ser preenchido, simplesmente por que inexiste um candidato a ocupar esse vácuo. Liberais e conservadores, especialmente os liberais, incapazes de investir em ideias, nomes, pesquisas, centros de estudo, novos intelectuais que pudessem fornecer ao país uma nova matriz de pensamento, liberal, que viesse a servir como referência nesse momento de crise, e pudesse ocupar o espaço da esquerda, vê agora a falta que faz ao país o investimento em Ciências Sociais. Vê como não é possível tirar do nada uma alternativa de poder.
A esquerda, como todos sabemos, ocupa todos os espaços de pensamento, pesquisa, mídias, televisão, diretores de novelas, escolas, universidades, igrejas, centros de estudo, cátedras universitárias, editoras, etc. Isso explica o enorme sucesso e a esplendorosa expansão da cultura de esquerda no país nesses últimos quarenta anos. O poder político representado pela Presidência da República é apenas um degrau de todo o poder da esquerda na sociedade brasileira. Perder a presidência pode ser apenas conjuntural, momentâneo, o que não significa dizer uma mudança de rumo nos destinos do país, que de acordo com o atual quadro de forças, seguirá sendo de esquerda ainda que a presidência não esteja mais nas mãos do PT.
Aqui, desnuda-se a mediocridade da elite brasileira, que assistiu a esquerda tornar-se quase hegemônica, sem oferecer nenhuma resistência nem política nem ideológica. Impressiona o nanismo do pensamento liberal no Brasil. O pensamento/teoria da esquerda brasileira, absolutamente medíocre, dado a irrelevância da esquerda brasileira pros grandes centros de poder mundial, consegue se manter ativo e altivo, não pelas suas qualidades inerentes, posto que não possui nenhuma, mas por que não há concorrência alguma que lhe possa fazer sombra.
Isso também explica as razões do renascimento religioso urbano-periferia nas últimas décadas. Sem referencia cultural, pensamento e teoria outra que não à esquerda, e se negando a aderir ao tipo liberticida de cultura urbana promovida pelos movimentos de esquerda, o povo de maneira geral e abrangente refugiou-se nas igrejas, especialmente as evangélicas, ainda que não tão somente. A aderência do povo ao pensamento cristão, certamente é parte da cultura brasileira e não é de agora, mas nessas últimas décadas ele foi potencializado como ponto de fuga, pra uma ampla massa da população urbana que se recusou a aderir à cultura promovida pelos movimentos de esquerda.
Não é por outra razão que nesses últimos 15 anos de prevalência de um partido nitidamente de esquerda no Palácio do Planalto, foi possível pelo apoio eleitoral do povo, estimulado por uma ampla rede assistencial de tamanho sem paralelo no ocidente, com características nitidamente coronelescas; mas ao mesmo tempo não houve a aquiescência desse mesmo povo com a cultura da esquerda, vide questões como aborto ainda serem amplamente rejeitadas no país.
Por incrível que pareça quem mais aderiu à cultura de esquerda foi a classe média, que ainda que rejeite a política econômica e social do PT, absorveu fortemente as transformações culturais trazidas pela esquerda. Nesse sentido, temos uma sociedade que se divide de maneira desigual entre os que se negam aderir à cultura da esquerda, povo, ainda que aprove a política assistencial dessa mesma esquerda; e, por outro lado, aqueles, classe média, que se negam a política assistencial e econômica da esquerda, ainda que absorvam as mudanças culturais e transformações comportamentais subjacentes.
De tudo isso, a única coisa que continua frágil e nanica é o pensamento liberal. O que explica como o Estado brasileiro conseguiu agigantar-se sem encontrar resistências que lhe pusessem freios. O que temos como consequência, hoje, é uma sociedade ao mesmo tempo aturdida e cansada pela quantidade de impostos que é obrigada a pagar, mas profundamente mergulhada numa cultura que vê no Estado o grande fiador das mudanças, das melhorias e dos avanços.  
Sabemos nós, que o Estado brasileiro não tem condições de fazer avançar a sociedade brasileira pra além do ponto onde estamos. Um Estado atrofiado, desperdiçador e incompetente, dirigido pela esquerda e seu pensamento de mais e mais Estado, com aumento sem limites de novos impostos, dentro de uma economia estagnada, só pode degenerar no quadro desolador em que nos encontramos. Somos a segunda pior educação do planeta, somos o maior consumidor de drogas da América Latina, somos a maior taxa de homicídios do mundo, e 75% da população nacional é analfabeta funcional.
Se isso não é resultado de como a esquerda vê o mundo e de como ela entende a gerencia da sociedade, então nada mais é. Diga-se, por seu lado, que a esquerda afundar o país no lodaçal em que estamos é resultado, também, e direto da completa ausência, nas últimas décadas, das elites na criação, fomento e financiamento do pensamento liberal e de projetos outros de país.
Por fim, nossa crise é a crise do pensamento estatista da esquerda, conjugado com ausência de uma alternativa a isso. Rejeitamos a receita da esquerda pra sociedade, mas não possuímos outra. Isso somos nós hoje.

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