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quarta-feira, 30 de março de 2016

PT pós Dilma

Luciano Alvarenga

Com o fim do governo Dilma, que vai caindo na mesma velocidade em que o processo de impeachment avança na Câmara Federal, a grande questão que emerge é: e o PT? O que será de um PT sem Lula, sem Zé Dirceu, sem seus grandes quadros, sem seus intelectuais, sem prefeituras pra militância, sem a presidência da República e o poder sem fim que dela emana?
O primeiro PT que virá à tona é o PT ressentido, rancoroso, violento; o PT da negação. O PT que não aceita que é ainda pior que todos os outros partidos. Esse PT será o PT despeitado, jogará pedra em tudo e todos, uma espécie de velho messiânico louco, que ninguém mais ouve, e que mais grita quanto menos é escutado. Depois de ter chamado ao ódio “nós contra eles”, se verá, então, destituído, fraco, clamando no deserto, verdades, que o país inteiro, quero dizer, os sãos, sabem serem mentiras. Esse PT ressentido irá procurar cada erro, cada corrupção, cada nome suspeito, e dizer, “não era o que vocês queriam?”. Esse PT irá berrar a beira da estrada, enquanto a caravana passa.
Num segundo momento, depois de alguns meses, vem a raiva, uma raiva profunda. O PT e seus petistas, diante da perda consumada completamente, serão tomados pela raiva contra si mesmos. “Como pudemos jogar tudo fora; como pudemos estar tão perto da revolução e nos deixarmos corromper pelos milhões da Petrobrás”. Como isso e aquilo, e tudo na verdade pra explicarem pra si mesmos que na verdade o que fizeram e o que fariam sempre, e sempre farão é o que já está registrado na história. O ódio contra os outros dará lugar a raiva contra si mesmos. Nesse momento a perspectiva de poder é algo longínquo e fora de lugar.
Cansados de sentir raiva de si mesmos, esgotados de longuíssimos solilóquios, e já há muito tempo afastados do poder, a bruma da depressão irá baixar lentamente, mas pesada e densa. A realidade da perda do poder cede passo a constatação de que a perda maior ainda é a perda da credibilidade, a perda do estandarte moral, a perda de si mesmos como agentes de qualquer coisa. Um vazio profundo e inescrutável toma conta. Antigas verdades, reveladas mentiras e falsidades, esvaem-se. O buraco aumenta. A sensação de nada ocupa todo o espaço. Sem cartilha nem catequese, sobra a vida como ela é.
Depois de tudo isso, vem à aceitação, uns menos outros mais, uns abertamente, outros envergonhados, de que o que aconteceu é tudo verdade. De que o PT foi uma fé cega baseada em nada além de discursos, nada além da crença, montada num homem cheio de talentos, mas sem verdade. A aceitação de que a esquerda nada mais é que as forças anticivilizacionais, que emergem de tempos em tempos nos mais diferentes lugares, promovendo a barbárie e o caos.

Redimidos pela consciência, petistas de todas as cores irão lembrar disso com tranquilidade, enquanto novas levas obscurantistas irão iniciar sua pregação de um novo mundo possível contra a realidade da civilização. Luciano Alvarenga

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