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Tempo de plantar e tempo de colher

Luciano Alvarenga

A vida é implacável. Muito da saudade que as pessoas têm de sua infância está associada, saibam essas pessoas ou não, a irresponsabilidade que marca esse momento da vida. De uma maneira ou outra, a infância flui sem que sejamos responsáveis pelas coisas a nossa volta. Mas isso acaba, e acaba logo. A adolescência marca essa fronteira em direção às consequências do que fazemos.
Há o tempo de plantar, amar, viver e o tempo de colher, chorar e morrer. Essa é uma verdade bíblica, mas que damos muito pouca atenção. Deixamos a vida fluir como se ela fosse um rio que inevitavelmente deságua no mar. A vida não é um rio. Nossa vida não corre por um leito já feito, desenhado e previsível. A vida é consequência das escolhas que fazemos, dos caminhos que escolhemos, das pessoas que deixamos entrar e sair de nossa vida.  
Nos tempos de plantar, plantar é necessário. Nos tempos de amar, ame. Quem não planta, não colhe, quem não ama, não pode ser amado. Quem não deu os passos rumo a uma vida madura, adulta e autônoma, terá que suportar o peso de viver com aqueles outros, que também não fizeram. Nossas vidas familiares são cheias desses exemplos; pessoas que vivem a vida como se ainda estivessem em algum lugar da infância, irresponsáveis por si mesmos.
Mas se a infância protege a criança de sua irresponsabilidade, a vida adulta não protege o irresponsável das consequências de suas escolhas, ou de suas escolhas nenhuma. Quem não estuda no tempo de estudar, não se dedica a maturidade no tempo de maturar, não toma sua vida pela mão; arcará com as consequências disso. Na vida não há ensaio.
À medida que o tempo passa, mais e mais vamos nos dando conta do tempo perdido, da decisão não tomada, das escolhas erradas, dos medos que paralisaram, da preguiça que virou modo de vida. À medida que o tempo escorre pelos dias e horas, percebemos a vida que se perdeu; os talentos, os nossos, que desperdiçamos em coisa nenhuma; os outros, que como nós, andam pela estrada da vida, mas que seguiram seu caminho de melhor maneira, fizeram o que a vida espera de nós. E quanto mais o tempo passa e, mais olhamos os que estão a nossa volta, mais percebemos o nada em que nossa vida se transformou.
 Atitudes que não são tomadas, decisões postergadas ad infinitum, cobrarão seu preço. As coisas e consequências vão se avolumando e se amontoando em nossas vidas diárias, atravancando tudo, impedindo que essa mesma vida diária siga seu curso. De repente você percebe que uma coisa muito boa poderia acontecer agora, uma chance que mudaria sua vida, lhe escapa porque depende de alguma coisa que você deveria ter feito a não sei quanto tempo atrás, e não fez.
A partir de um dado momento na vida, tudo começa a depender de alguma coisa que você deveria ter feito antes. Esse momento marca a vida daqueles que deslancham, estão bem consigo e com a vida em si, e aqueles em que a vida se transformou num emaranhado de coisas inúteis, sentimentos erráticos, ideias desconexas, grandes jogadas que não levam a lugar algum, e uma profunda sensação de vida perdida, de ressentimento e ódio consigo mesmo, que quase sempre vai desaguar, não num reconhecimento do sujeito do que fez com a própria vida, mas contra o mundo e especialmente aqueles que estão mais perto. Se fôssemos falar em política, a esquerda é esse ressentimento contra o mundo, alguém é culpado por eu não estar onde quero, geralmente os ricos, as elites, coisas assim.
A maioria das pessoas não irá reconhecer, que a vida que tem hoje é fruto de suas próprias decisões, ou decisão nenhuma, que ela mesma cavou a sepultura onde está enfiada; mais fácil é culpar o mundo, os pais, a família, a escola pública.

Não meu amigo, nossa vida é resultado do que fazemos com ela. E na vida, quando nada acontece, alguma coisa sempre acaba acontecendo, geralmente ruim.





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