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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A creche chegou à faculdade

Luciano Alvarenga


Depois de pelo menos duas décadas, as crianças que cresceram nas creches chegaram à faculdade. É a geração creche. Formados a distancia do aconchego do lar, ou de qualquer coisa que receba este nome, foram educados e socializados nestas instituições, certamente tão cheia de problemas como qualquer outra. Socialização primária, isto é, aquilo que antes era feito em casa com pais, irmãos e tios e avós, agora é feito na creche. A escola era a socialização secundária, agora é a primária, a secundária e todas as outras.
Creche é o espaço onde a sociedade coloca seus filhos que dificilmente podem ficar em outro lugar. Creche é o primeiro nome de uma vida cheia de afazeres, agendas, atividades, opções, horários, escolhas, programas (pedagógicos, mas depois técnicos, políticos, ecológicos, econômicos, funcionais, metas, serviços, obrigações, registros, autorizações, documentos, liberações, tributos, impostos, repetição), institucionalização. Tenho a impressão que as creches mais que preparar para qualquer coisa que seja, é a escola doutrinando nossos filhos pras verdades da Nova Ordem Mundial.
Tudo é aquilo que o marketing de profissões disse, nos anos 1990, que você poderia fazer desde que quisesse. O que se vê agora é que entre ter tudo e escolher apenas o que é possível, muita gente continua olhando a vitrine sem saber o que escolher; quando ainda é possível ter aquilo que foi escolhido. As creches foram as primeiras a dizer e a mostrar que a vida é um mar de escolhas possíveis. A escola primária vem em seguida, enchendo as bocas e as cabeças de ritalina dizendo que o possível não é uma opção. Depois o ginásio, ou seja lá que nome tenham dado agora a essa fase, adestrando em conhecimentos inúteis, politicamente corretos, e sobre coisas que nem mesmo os professores compreendem bem.
Antes mesmo que sejam jovens, a molecada já está suficientemente cheia de vontades, desejos, ânsias de todos os tipos, meio milhão de escolhas, ou escolha nenhuma, mas completamente paralisada diante delas. Quem tem muita escolha quase não tem nenhuma. E a melhor maneira de sempre poder continuar escolhendo é nunca fazer nenhuma escolha. Quem escolhe sai da fase de decidir e passa a ação. As escolas ensinam muitas coisas, menos a agir. Ao contrário, a escola é uma máquina de produzir apáticos, desinteressados, gente que nada quer, mas que pensa que sabe tudo, tudo sobre o mundo politicamente correto e as verdades recentes do partido.
Hoje temos gerações inteiras correndo, trabalhando muito, fazendo dezenas de coisas e não conseguindo se decidir por nenhuma delas. Começam algo tão empolgados, interessados, e vivos, e em pouco tempo se atormentam com tudo aquilo que estão perdendo por não estarem fazendo outra coisa e, param. E param e estão parados, felizes com todas as escolhas que podem fazer e angustiados por não conseguirem fazer nenhuma ou, em dúvida (mortal) em relação a que fizeram.
As creches encheram as crianças de possibilidades, mas não lhes ensinaram nada sobre nenhuma delas. As creches são o mundo de coisas possíveis a crianças que do mundo nada sabem. Em casa, antigamente chamado lar, era comum o mundo ser apresentado à criança filtrado pela família, e como ela, a família, via e se relacionava com ele. Agora, o mundo da casa, e da vida de quem é da casa, logo é entendido pelas crianças como ruim e, para isso basta elas verem como os adultos que a cercam lidam com ele. Não é por outro motivo que as crianças saem da infância e da creche querendo tudo, e tão logo entram na adolescência, passam a não querer mais nada.

É por isso que a faculdade perdeu um pouco do seu sentido e força; sendo ela momento de aprofundamento de decisões já tomadas, passou a ser lócus de mais e mais indecisões. Da adolescência pra frente é o mundo das decisões, e a geração creche, sobre isso, nada entende, ou entende pouco, ou não entende exatamente o que fazer com o que está entendendo. 

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