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Que horas ela volta? Ou, a burrice da esquerda

 Luciano Alvarenga


Acabei de assistir “Que horas ela volta”, filme nacional da diretora Anna Muylaert. Têm bons momentos, Regina Casé interpreta com grandeza o papel que lhe deram; alguns lances, insinuações, pequenos meneios são alguns dos melhores momentos do filme. Afora esses poucos momentos, nada. O cinema brasileiro não consegue romper com o cacoete de ser político; o cinema nacional quer fazer sociologia, e por isso é fraco, ruim.
Esse filme não convence quem ama a arte das telonas, por que prefere fazer panfletagem a fazer arte. Peca pelas mesmas deficiências de “O som ao redor”, do diretor Kleber Mendonça Filho, a necessidade de ser político. Quem leu o livro “Os sentidos do Lulismo”, do sociólogo e porta voz da presidência da República no governo Lula, André Singer, tem a impressão que está assistindo uma resenha do livro no cinema. O livro é bom, é uma tese, uma perspectiva, está em debate na academia, com muitos intelectuais que discordam do André Singer. Mas o filme é ruim, por que cinema é lugar de arte, não de política.
O filme foi realizado pra ser uma apoteose do governo da esquerda no Brasil, mas deu com os burros n’água, isso por que o filme chega às telas no momento mesmo em que enfrentamos uma baita crise econômica e política, que resultam diretamente dos desmedidos e loucuras do governo que o filme pretende laurear.  Se o filme termina com a atriz principal, mandando sua filha viajar até o nordeste pra buscar seu neto, “eu pago, e você vai de avião”, o que vemos agora é que nem as rodoviárias estão cheias.
O filme é chato e manjado, são aqueles velhos diálogos entre patrão e empregados, entre os que mandam e os que obedecem, e que estão presentes nos filmes nacionais desde os anos 1960. Nada novo. Assista um filme Argentino, “Un cuento Chino”, que não está entre os mais brilhantes dessa última década e meia, e você verá a diferença abissal entre o cinema panfleto brasileiro e o argentino.
Com raras exceções e momentos, o cinema brasileiro nunca foi grande coisa. As novelas globais conseguiram ir muito mais longe, e ser muito mais interessantes enquanto produto, do que o cinema. O cinema nacional não consegue fazer arte, é a neurose da política. Não é a toa que diretores como Fernando Meirelles, “Jardineiro Fiel” e “Ensaio sobre a cegueira”, conseguem fazer cinema muito melhor fora do que aqui.
É engraçado ver a tropa de choque da esquerda, escrevendo obsessivamente na grande imprensa, onde ela está alocada há décadas, que o “filme é bom”, “é um marco”, “rasga a hipocrisia da classe média preconceituosa” e que tais, quando na verdade o que se vê é a incapacidade da esquerda de lidar com o que o país é. Alguém, num artigo no UOL, assistindo o filme na Alemanha, se dizia envergonhada de partilhar seu país com os alemães; até que de repente um alemão vira, citado pela própria brasileira indignada, e diz: “se eu tivesse dinheiro pra pagar, certamente teria uma empregada”.  Estou rindo agora.
A esquerda brasileira não consegue lidar com o que o país é; ao mesmo tempo em incensa o povo, dando a ele características que ele não possui, degrada e espezinha a classe média querendo dar a ela defeitos, que ela também não possui. Ou se possui, são tão naturais quanto os defeitos e virtudes do povo como um todo.
A pobreza da esquerda brasileira não se mostra penas no cinema, dê uma olhada no vazio da produção intelectual e literária. O negócio é assistir Verdades Secretas. Luciano Alvarenga 


Comentários

stephanie.b.soares@hotmail.com disse…
Boa noite, Sr. Luciano! Tenho tentado entrar em contato com o senhor, mas não consigo fazê-lo, então, sinceramente, espero que leias este comentário e me responda. Sou estudante de Direito na Escola Superior Dom Helder Câmara, em Belo Horizonte, Minas Gerais, e tenho interesse em realizar uma entrevista com o senhor para o artigo científico em que venho trabalhando para a matéria Filosofia do Direito. Vi uma reportagem com citações do senhor ( http://www.gazetainterior.com.br/index.php/vida-virtual-pode-trazer-problema-real/ ) e gostaria de compartilhar ideias para enriquecer meu trabalho. Caso o senhor tenha interesse, gentileza entrar em contato comigo por Mensagem Direta no Twitter (meu usuário é tety_soares e já estou te seguindo) para que troquemos nossos respectivos e-mails e possamos conversar através de meio de comunicação adequado. Aguardo. Atenciosamente, Stéphanie

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