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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nossas Verdades não tão Secretas

Luciano Alvarenga



Verdades Secretas, a melhor novela em anos na TV Globo, termina nessa sexta feira, dia 25 de setembro. É uma aula de sociologia contemporânea, mais especificamente, uma aula sobre a Modernidade Líquida. Todo o enredo, os personagens, o viés que assume aqui e ali, são todos expressões mais ou menos contundentes daquilo que perfaz a modernidade no seu estágio líquido, pra ficarmos nas expressões do sociólogo polonês Zigmunt Bauman.
A novela é o retrato da decadência da sociedade urbana contemporânea nos grandes centros cosmopolitas, globais. Todos os personagens são expressão, há seu tempo e a partir dos seus peculiares interesses, da decadência moral geral. Nenhum valor, nenhuma tradição, nenhum princípio pode ser reivindicado como norma, limite ou impedimento aos desejos e escolhas dos personagens. Todos são guiados pela força de se dar bem a qualquer custo e, ao custo de todos.
O sociólogo alemão Ulrich Beck, afirma que o cosmopolitismo da sociedade globalizada dá origem a outro nível de problemas e crises (ambientais, terroristas, poluição) que suplanta as crises locais da 1º modernidade, assentadas em valores tradicionais e familiares, e injetam nessas localidades, agora globais, novos grupos de problemas, ligados as revoluções tecnocráticas e científicas e, portanto, culturais. Verdades Secretas é o desligamento do indivíduo de qualquer raiz local e familiar e, seu lançamento na aldeia global desenraizada e desconectada de qualquer tradição. Esse indivíduo desconectado de qualquer tradição lançado num mundo hi tech, está mergulhado naquilo que Beck chama de Modernidade Reflexiva. Isto é, tudo o que fazemos e somos resulta não mais do passado e da herança da cultura, mas daquilo que escolhemos e decidimos a cada passo do caminho, a cada página que escrevemos em nossa biografia.  
“Angel”, a personagem central da trama em Verdades Secretas, vai do cisne branco ao negro, pra ficarmos numa alusão ao filme, “O Cisne Negro” e, a peça de balé clássico “O Lago dos Cisnes”. Angel encarna o tipo social interiorano, tradicional e conservador que, chega à cidade cosmopolita e global, São Paulo, e se vê lançada pelas contingências num universo de códigos e condutas fluídas e desmoralizadas, em que à medida que mais e mais de vê reconhecida, mais e mais se distancia das raízes de onde saiu. A modernidade líquida, em Verdades Secretas, é o abandono de qualquer passado, qualquer moral ou regra social que impeça o indivíduo de fluir, deslizar suavemente pela vida sem peias, sem peso.
Angel completa a passagem de “Cisne Branco” ao “Cisne Negro”, quando assume num dado momento, já nas últimas semanas da novela, que o marido da mãe na verdade é “seu” homem. Quando despida do remorso, da culpa e do medo, se coloca em cena como a mulher, que poderosa e dona dos signos ali valorizados, beleza e juventude, está em condições de empurrar sua mãe, “pobre”, “velha” e “burra”, para um nível abaixo de onde, ela, Angel, está. Ainda que o custo moral disso seja significativo, é condição sine qua non pra realizar seu desejo de posse e poder, que é o que significa estar com o “Alex”, o dono do mundo na novela. A mãe passa de uma referência moral e de amor (raízes da Angel), no inicio da novela, pra uma qualquer que precisa ser desalojada do lugar que está usurpando dela, Angel, jovem e linda. Numa linha, de mãe a coisa nenhuma.
Todos os personagens, sem exceção, ainda que uns mais outros menos estão, em algum grau, negociando escrúpulos e posições de poder e posse uns em relação aos outros. Todos abrem mão de alguma porção de valor, senão de todo o valor, pra poder realizar seus sonhos e desejos de ascensão e felicidade.
A novela coloca como nenhuma outra até agora, muito menos o cinema nacional, a completa desconstrução de valores, caríssimos pra nossa sociabilidade, e a destruição da cultura tradicional, que se fez acompanhar pela ascensão do liberalismo cultural (o indivíduo como senhor de tudo) e a política de justiça social da esquerda (não há moral na pobreza) que se espraiou fortemente entre nós desde os anos 1980.
O resultado na novela e em toda parte, de cima a baixo nos estratos sociais, é a cultura da corrupção como ferramenta na conquista de espaços sociais reconhecidos, e, o ressentimento geral daqueles que não se entregam a cultura da canalhice inescrupulosa da modernidade líquida, mas se veem exilados morais num mundo amoralizado. Luciano Alvarenga






Um comentário:

Lucas Santos disse...

Excelente texto, Luciano. Aqui é o Lucas, que viu seu vídeo sobre "O que fazer depois da faculdade" e depois disso meteu as caras e foi dar aula rs

Eu acredito que tanto esquerda quanto direita, enquanto se estapeiam, não percebem que cavam cada vez mais fundo o rio por onde escorre essa nossa modernidade liquida: o Liberalismo. A direita, ao endossar o neoLiberalismo (o liberalismo liberado de seus poucos compromissos morais), ajuda a criar uma lógica perversa na economia que se espraia para outras esferas da vida. A esquerda, por sua vez, ao endossar o Liberalismo cultural (tudo pode, tudo é arte) libera todos os comportamentos, que se tornam perversos e reforçam e causam a perversão vinda da esfera econômica. Neoliberalismo e 1968 nascem no mesmo dia. A perversão econômica e a comportamental nascem juntas. O filósofo Dufour em "A Cidade Perversa" sustenta que a pós-modernidade é a vitória do Liberalismo sobre o Kantismo. Aquele nos estaria levando a um mundo sadeano, um mundo perverso e pornográfico. Recomendo a leitura desse livro, meu caro conterrâneo. Um abraço! (ps: não tem mais seu programa de TV?).