Pular para o conteúdo principal

Economia: como o PT afundou o país

Depreciação interna à vista?, por Bresser-Pereira
DOM, 24/05/2015 - 12:42


Da Folha

Depreciação interna à vista?

Além de não ter tido sucesso em fazer as empresas voltarem a investir, o governo perdeu a confiança devido à política fiscal

Em 2008, os economistas liberais perderam a batalha ideológica ao levarem a economia mundial a uma grande depressão. Agora são os economistas desenvolvimentistas brasileiros que a perderam devido aos erros cometidos pelo governo do PT. O custo a ser pago pode ser alto.

Foram dois os erros fundamentais: nos oito anos do governo Lula, a taxa de câmbio se apreciou de forma brutal. A preços de hoje, caiu de R$ 5,20 para R$ 2 por dólar, quando a taxa de câmbio "de equilíbrio industrial", que torna competitivas as empresas competentes do país, deve estar em torno de R$ 3,30 por dólar.

Essa apreciação, ao mesmo tempo que os salários cresciam um pouco acima da produtividade, atingiu a indústria de maneira violenta.

A presidente Dilma assumiu o governo enfrentando uma tarefa impossível: depreciar em mais de 50% a moeda! Naturalmente não o logrou (o real depreciou-se só 20%) e, em consequência, a indústria não reagiu. Diante disso, o governo decidiu compensar a indústria com uma política industrial agressiva, baseada em desonerações fiscais, que levou o país ao deficit primário.

Mais uma vez, o governo não teve sucesso. Indústrias e empresas de serviços sofisticados não se tornaram competitivas devido à depreciação cambial. Política industrial é algo que todos os países precisam adotar, mas jamais para compensar uma taxa de câmbio apreciada.

Além de não ter sido bem-sucedido em fazer as empresas voltarem a investir, o governo perdeu confiança. Não devido à política cambial, mas devido à política fiscal. No Brasil, as pessoas não admitem mais irresponsabilidade fiscal.

Diante desse quadro de perda de confiança, a presidente Dilma decidiu, corajosamente, adotar um ajuste fiscal rígido para recuperá-la. Mas, aproveitando-se da fraqueza do governo, o Banco Central adotou uma política absurda de elevação de juros, e a Câmara aprovou a lei da terceirização, cujo objetivo é a precarização do trabalho.

Está acontecendo no Brasil algo que ocorreu na zona do euro --isso porque lá a depreciação dos euros nacionais é impossível de ocorrer e porque aqui não houve apoio político para fazê-la. Em vez de fazermos a depreciação normal, fazemos a depreciação interna, cujos custos são infinitamente maiores.

A depreciação normal implica custos para todas as classes: para os que recebem salários, pensões, juros, aluguéis e dividendos. Todos passam a receber um pouco menos em termos reais. Já a depreciação interna é, por definição, a baixa dos salários obtida por meio da recessão e do desemprego. Tem alto custo para os assalariados e nenhum para os pensionistas e rentistas.

Dado que a depreciação é inevitável, temos, assim, uma troca absurda --de depreciação normal por depreciação interna, esta baseada numa política fiscal inevitável, numa política de taxa de juros irracional (porque desnecessária e contraditória com o ajuste fiscal) e numa política de precarização salarial.

As elites rentistas sempre foram a favor dessa troca, mas agora também as elites industriais começam a apoiá-la, ainda que saibam que é irracional. Para elas uma taxa de câmbio flutuando em torno de R$ 3,30 lhes devolve a perspectiva de lucro e as leva a investir. Como parece impossível uma política cambial responsável, começam a se contentar com a depreciação interna.

Evidentemente é possível para o Brasil voltar a ter uma taxa de câmbio competitiva. Para que isso ocorra é preciso que, 1) suas elites se convençam da sua necessidade; 2) o governo tire a política cambial do Banco Central e crie um Conselho Cambial Nacional; e 3) seja neutralizada a doença holandesa por meio de um imposto variável sobre as exportações de commodities.

Mas não bastaria agora o Banco Central deixasse de rolar os "swaps" e voltasse a vender dólares para tornar a taxa de câmbio competitiva? Isso é a coisa imediata a fazer, mas não basta. É preciso que o governo neutralize a tendência à sobreapreciação cíclica e crônica (de longo prazo) da taxa de câmbio, que já se reapreciou depois da crise e que deverá se apreciar ainda mais.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 80, é professor emérito de economia, teoria política e teoria social da FGV. Foi ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia (governo FHC)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ter pinto é crime

Luciano Alvarenga
Uma coisa é o movimento feminista, outra, são as mulheres. Feministas gostam de política, ou pelo menos de terem contra o que levantar suas bandeiras de ódio; mulheres gostam de homens e de uma vida alem da política. O movimento feminista foi desde o princípio, pelo menos aquilo que se pode chamar assim, nos anos 1950, não em direção as mulheres, mas contra os homens. O homem sempre foi o alvo do movimento; não se trata de libertar a mulher seja do que for que se imagine ela precise ser liberta, mas de constranger o masculino de tal forma que o movimento feminista, não as mulheres, tenha mais e mais poder. Aliás, o movimento feminista não está nem ai com as mulheres, basta ver o absoluto silêncio desse movimento em relação à presença de um jogador de vôlei masculino (há quem acredite que lhe terem amputado o pênis e convertê-lo numa vagina, o tornou mulher, kkkkk) num time feminino, sem que isso cause o menor constrangimento político no movimento feminista (aqui é mais…

Folha de São Paulo continua perdendo assinantes

"Por Claudio C.B.
O artigo de César Benjamin acabou tendo uma utilidade! foi a gota d’água para cancelarmos a assinatura da Folha em nossa casa, que já perdurava por cerca de 40 anos!"
na integra http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/12/01/quando-se-perde-o-pulso-dos-leitores/

Eu cancelei minha assinatura em 2007, quando descobri que a Folha não havia dado uma linha sobre a criação do primeiro Instituto Internacional de Neurociências de Natal pelo cientista brasileiro e candidato ao Nobel de Ciência Miguel Nicolelis. Se o principal jornal do pais não fala nada sobre um fato que reuniu os 80 principais cientistas do mundo naquele cidade, então ela não é o maior jornal do país. L.A

O queijo e os vermes

Luciano Alvarenga
O Brasil é hoje o maior consumidor de crack do mundo; o segundo maior consumidor de cocaína das Américas; o maior entreposto de tráfico internacional de entorpecentes do planeta. Essas marcas, alcançamos em apenas trinta anos; os mesmos trinta anos da democracia social-liberal de esquerda do PSDB/PT/MDB. Essa “nova” realidade é uma tragédia em si, mas não é a única. No lastro produzido pelo discurso esquerdizante de que bastam liberdade e distribuição de dinheiro do Estado pra que se consiga fundar um país novo, outra realidade se desenvolveu entre nós. A dos profissionais que transitam entre a legalidade e a ilegalidade, entre o honesto e o corrupto, entre o certo e o errado. E são esses profissionais, hábeis na “arte” de corromperem e serem ‘honestos’, os que mais se dão bem; isto é, ganham dinheiro, fama e reconhecimento social. Em praticamente todas as áreas de ação das profissões liberais, médicos, advogados, arquitetos, contadores, jornalistas e mais todos os outr…