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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Democracia: trinta anos depois

Luciano Alvarenga


Trinta anos de democracia no Brasil, sendo 20 com a esquerda no poder(incluo PSDB e PT no mesmo diapasão). Com uma geração inteira nascida e formada dentro dessa realidade política, certamente é passada a hora de iniciarmos uma profunda análise do que vem nos acontecendo nessas décadas, e, as consequências das escolhas feitas nesse tempo todo.
O primeiro ponto a destacar é o fato de que a democracia brasileira está profundamente ancorada na ideia de justiça social e, isso tem consequências, nem todas boas; com justiça social significando, principalmente, igualdade de renda. A democracia desde sempre, 1985, é e precisa ser a negação permanente e constante da ditadura militar. Isso porque os atores que assumem o poder na democracia foram todos eles protagonistas na luta contra a ditadura. A questão que se faz agora é, qual a qualidade da democracia que construímos?
A qualidade da democracia não pode ser apenas medida pela quantidade de pleitos eleitorais existentes, mas pelo tônus político e virtuosidade que essa democracia cria na sociedade. A qualidade educacional, de sua literatura, os índices de violência, a produção cientifica, a qualidade de seus pensadores, intelectuais e cientistas sociais e, a profundidade de seu pensamento como norteadores da alta cultura, o acesso e participação de sua juventude numa cultura global de alto nível, produção artística, tudo isso é democracia de qualidade ou, a falta dela.
A obsessão da esquerda ao assumir o poder com a ideia de justiça social, traduzida por distribuição de renda, tornou a democracia brasileira monotemática, simplória e, portanto, pobre. Isso porque distribuição de renda não significou nem ao menos um processo de ciclo virtuoso. Não se tentou em nenhum momento esboçar um plano de elevação de cultura, de seriedade e compromisso com valores mais duradouros e sólidos, como caráter, disciplina, benevolência, virtudes morais. Ao contrário, democracia é para esquerda, consumo.
Fazer as classes populares entrarem num shopping e comprarem uma televisão e um computador foi elevado a objetivo máximo da nação e comemorado como salto civilizacional. Ainda que tal acesso não possa ser desconsiderado, certamente não pode ser elevado como fundamental. Com programas federias de moradia (uma tragédia do ponto de vista urbanístico); programa de intercâmbio estudantil-universitário desconectado da realidade escolar da nação, e, portanto, com pouquíssimo resultado prático; economia assentada na mono exportação e redução de impostos aleatórios com o consequente estresse de vias urbanas com carros comprados a prazo e, ciclovias esquizofrênicas na principal capital do país; programas sociais como o Bolsa Família, que ainda que tenha uma função social importante, deixam de tê-la à medida em que sua existência não se conecta com nada pra além dele mesmo; a corrosão da família e sua transformação num agregado disfuncional sem nenhuma razão moral,  vão revelando todos eles e, eles ao mesmo tempo, o imenso buraco em que nos encontramos. Ou melhor dizendo, são a evidencia da paquidérmica democracia nacional.
Evidentemente não é possível falar desses trinta anos de democracia sem mencionar o fato de que a justiça social que se quer fazer, não é uma justiça que visa uma mudança de patamar cultural, econômico, político e educacional da nação; a mudança que ser quer foi feita ou, pelo menos é o que se fez até agora, a golpe de mudanças jurídicas e das leis. A esquerda empreendeu, ao lado de todo tipo de minoria que a ela se ajuntou, uma luta sem quartel no sentido de mudar o país aprovando leis e mais leis, tíquetes, incentivos, bolsas e direitos, que se somam a si mesmos e a novos direitos que não se sabe onde irá chegar. Aliás, depois de trinta anos não chegamos a lugar nenhum. Nossa democracia esta recheada de boas intenções e discursos sem nenhum valor prático.
Continuamos a 8º economia do mundo como éramos em 1985, continuamos uma das piores nações em educação do mundo como éramos quando findou a ditadura; passamos de 20 mil homicídio por ano em 1985, pra mais de 56 mil hoje. Somos primário-exportadores hoje como éramos na década de 1970. Por outro lado, ao contrário de hoje, tínhamos escritores, literatos, filósofos, pensadores de envergadura mundial (Oliveira Vianna, Caio Prado Jr, Gilberto Freire, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, entre tantos outros), hoje não temos nada.
À medida mesma que o pensamento de esquerda se tornou hegemônico no país, e ao mesmo tempo em que a esquerda assumiu o poder político o que se viu foi a consolidação da mediocridade intelectual em toda parte, a vitimização social como regra geral, a corrupção das classes de poder como meio de vida, a banalização da violência e da morte, a elevação ao centro da vida nacional de uma sub cultura pasteurizada, empobrecida e torpe, e a Idea hoje prevalecente que não existe alta cultura, nem critério de nenhum tipo que possa diferenciar o bom do ruim, o feio do bonito, o bem feito do mal feito, o esforço do esforço nenhum.

Trinta anos de democracia nos levaram pra bem longe da ditadura militar, mas muito mais longe ainda de uma nação no sentido civilizado da palavra. Luciano Alvarenga



Frei Betto: “O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais”

Postado em 19 de maio de 2015 às 3:07 pm

CULT Quando percebeu que o PT abandonou seu projeto inicial?
FREI BETTO Isso desaparece na campanha de 2002, quando o PT faz a opção de assegurar a governabilidade pelo mercado e pelo Congresso – daí as alianças e a “Carta aos Brasileiros”, que na verdade é a “carta aos banqueiros”. Ali, o PT abandona sua matéria-prima, que são os movimentos sociais pelos quais deveria ter assegurado a governabilidade, como fez Evo Morales na Bolívia, que não tinha apoio no congresso, se apoiou nos movimentos sociais e, através deles, conseguiu mudar o perfil do congresso. Hoje, ele tem apoio dos dois, é o presidente mais consolidado de toda essa safra progressista.
O PT optou pelo mercado e pelo Congresso. Agora, está refém dos dois e pagando um preço muito alto. Tanto que chamou um homem do mercado para ver se melhora a economia e entregou a parte política para o PMDB.
CULT Se você já havia se decepcionado desde a “Carta aos Brasileiros”, por que participou do programa Fome Zero, do governo Lula?
FREI BETTO Achei que a “Carta aos Brasileiros” fosse uma coisa tática, que, uma vez eleito, o PT faria reformas estruturais, tributária, agrária, algum tipo de reforma. Estava altamente entusiasmado. Sempre fui convidado para trabalhar em administração, mas nunca quis trabalhar nem para a iniciativa privada nem para governos. Gosto dessa vida cigana, solta.
Quando Lula foi eleito e me convidou para o Fome Zero, achei que trabalhar com os mais pobres entre os pobres – os famintos – se enquadrava em minha perspectiva pastoral e tive todo apoio de meus superiores dominicanos e até de Roma.
Fiquei dois anos e, de repente, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Bolsa Família. Tive então a certeza de que essa opção contrariava a tudo aquilo que o PT vinha pregando desde a fundação. O Fome Zero era um programa emancipador, o Bolsa Família é compensatório.
O Fome Zero ia mexer na estrutura do país e por isso foi boicotado pelos prefeitos. Era coordenado por comitês gestores municipais, não passava pelos prefeitos, não havia como usar os recursos para fazer jogo eleitoreiro, então os prefeitos se rebelaram, pressionaram a Casa Civil, que pressionou Lula. No fim, Lula cedeu e eu caí fora.
CULT Você chegou a escrever que o PT faz “populismo cosmético”.
FREI BETTO O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais – o contrário do que fez a Europa no começo do século 20, que primeiro deu acesso a educação, moradia, transporte e saúde, para então as pessoas chegarem aos bens pessoais. Aqui, não. Você vai a uma favela e as pessoas têm TV a cores, fogão, geladeira, microondas (graças à desoneração da linha branca), celular, computador e até um carrinho no pé do morro, mas estão morando na favela, não têm saneamento, educação de qualidade. É um governo que fez a inclusão econômica na base do consumismo e não fez inclusão política. As pessoas estavam consumindo, o dinheiro rolando e a inflação sob controle, mas não se criou sustentabilidade para isso. Agora a farra acabou, está na hora de pagar a conta e chama-se o Joaquim Levy [ministro da Fazenda].

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