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Cirurgias plásticas: uma questão de identidade

Luciano Alvarenga



Pessoas querendo melhorar a si mesmas com intervenções médicas e outras, não são uma novidade. Mas as cirurgias plásticas, hoje, são sem dúvida um sintoma a indicar com contundência as dores, angústias, necessidades e anseios do homem e da mulher contemporâneos.
Pra Psicanálise e pra Sociologia a “epidemia” dessas cirurgias, que hoje não se restringem mais as pessoas mais velhas, mas também e principalmente entre adolescentes, quando não crianças, aponta o profundo estado de desvalia psíquica e identitária do homem e da mulher urbanos.
A transformação do corpo num ideal de felicidade, o corpo como expressão de si num sentido antológico, resulta do profundo processo de deterioração e desconstrução das culturas tradicionais e religiosas, levada a cabo na modernidade líquida. A contracultura e, a iconoclastia que a ela se associou, tornou tudo e qualquer coisa do passado, da tradição, uma quinquilharia que precisava ser destruída e repugnada em nome do novo a ser construído e da liberdade a ser conquistada.
A retirada de cena do elemento religioso e tradicional como manancial de cultura, e o esgotamento da rebeldia como elemento de afirmação identitária, tendo em vista que nada mais há contra o que se rebelar, e o fato hoje bastante evidente, especialmente nas sociedades industriais avançadas, de que o buraco legado pela religião e a tradição não foi preenchido por outra cosmovisão, deixou ao indivíduo a responsabilidade de construir e forjar sozinho a própria identidade.
A impossibilidade prática, mas também o fato de que a construção da identidade é sempre um elemento social e socialmente constituído, deixou o homem e a mulher contemporâneos exilados de si mesmos, à medida que não conseguem instituir uma identidade suficientemente profunda e que dê conta de responder questões milenares sobre destino, razão e porquês de estarmos no mundo.
Na impossibilidade de se rebelar contra o mundo e no fracasso de se escrever uma epopeia calcada na própria biografia, o indivíduo se lança contra o próprio corpo, como fronteira última na tentativa desesperada de fundar uma narrativa que lhe dê sustentação emocional, espiritual e cognitiva.
Cirurgias plásticas, tatuagens, pircengs, alargadores, cabelos de todo o tipo e cor, são em última instância o indivíduo em sua luta solitária em busca de um sentido indentitário ou, alguma coisa que tenha uma durabilidade maior do que a moda que ele adere a cada nova estação.

Tudo isso trata, evidentemente, de uma sociedade em esfacelamento, mergulhada na decadência de sua própria cultura, com o indivíduo solto e agarrado numa madeira, tentando sobreviver em alto mar. Luciano Alvarenga

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