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Os neo-insatisfeitos de hoje, por José Roberto de Toledo


SEG, 20/04/2015 - 15:01
ATUALIZADO EM 20/04/2015 - 15:01
Por José Roberto de Toledo



Do Estado de S. Paulo

Há uma pergunta que o Ibope costuma fazer antes de qualquer outra em suas pesquisas: "Como você se sente com relação à vida que vem levando?". É para aproximar o entrevistador do entrevistado. Só depois dela, eles começam a falar sobre o que o instituto realmente quer saber. A pergunta quebra­gelo é essa porque seu resultado variava pouco ao longo dos anos. Era quase um "Como vai você?". A resposta era protocolar. Não é mais.

Em dezembro do ano passado, mesmo após todo o acirramento provocado pela campanha presidencial, só 21% dos brasileiros se diziam insatisfeitos com a própria vida­ estavam dentro da taxa histórica. Este ano, a insatisfação teve um crescimento inusual. Foi a 35% em março e continuou no mesmo patamar em abril: 32%. Esse aumento é tão importante para explicar a perda de popularidade de Dilma Rousseff quanto o escândalo da Lava Jato.

Quem mais ficou insatisfeito de dezembro para cá foram pessoas de menor escolaridade e que ganham menos. Ou seja, os mais pobres. Mas não quaisquer pobres. Eles se concentram no coração da força de trabalho: têm de 25 a 45 anos. Também há insatisfação entre os demais brasileiros, mas ela cresceu menos.

O perfil dos neo­insatisfeitos sugere que eles estão sofrendo o efeito da desaceleração da economia. O aumento do custo de vida, puxado pelo reajuste dos preços da gasolina e da eletricidade, não é mais compensado por ganhos na renda. Para agravar o quadro, a oferta de trabalho tampouco é como era. Se ele perde o emprego, não é fácil conseguir outro, ou arrumar um bico.

Essa insatisfação tem motivos reais, objetivos, palpáveis. Não é fruto apenas de campanha da oposição ou de críticas dos meios de comunicação. Dilma fez uma correção de rota que pegou em cheio o seu eleitorado. Só ele poderia se decepcionar com quem ajudou a reeleger. É diferente de quem compôs a maioria dos que foram às ruas em 15 de março e, em menor número, no 12 de abril.

Por isso, quando inéditos 75% dizem ao Ibope que o Brasil está no rumo errado, há que se distinguir os motivos que levam uns e outros a fazer esse diagnóstico. Se indagados sobre qual o rumo certo, certamente não convergiriam todos para a mesma direção.

Novamente, quando se disseca as respostas dadas ao Ibope, percebe­se que quem mais mudou de opinião sobre os rumos do País do ano passado para cá foram os mais pobres, os menos escolarizados e os moradores do Nordeste. Ou seja, basicamente o perfil de quem votou, majoritariamente, em Dilma em 2014. Hoje, 79% de quem ganha de 1 a 2 salários mínimos acha que o rumo está errado, praticamente a mesma taxa de quem ganha mais de 5 salários.

No Sudeste, 80% acham que o Brasil está indo para o lado errado, mas já eram 58% em agosto de 2014. A principal mudança ocorreu no Nordeste (de 35% para 67%) e no Norte/Centro ­Oeste (de 40% para 76%). O impacto foi maior no interior do que nas metrópoles: 76% de quem mora longe dos grandes centros diz que o rumo do País está errado, contra 72% dos moradores das capitais.

O que garante que essa opinião é mesmo do indivíduo e não reflexo da influência de terceiros? Porque o público, para surpresa dos políticos, não é tolo. Ele sabe a diferença. Na opinião pessoal de 75%, o rumo do Brasil está errado, mas a taxa sobe a 82% quando o entrevistado diz que vê, lê ou ouve falar que o rumo do País não está certo. Ou seja, há pelo menos 7% que sabem o que a mídia e a maioria pensam, mas não concordam.

A maioria é pragmática e se move pelo bolso. Para ela, a vida piorou, mas não está insuportável. Levantamento do Ibope DTM nas redes sociais mostra que FHC tem razão: o impeachment está longe do ponto de fervura na opinião pública. Dilma precisa do ajuste fiscal no longo prazo, mas suas medidas vão produzir mais retração antes de reaquecerem a economia. Timing é tudo.

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