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domingo, 26 de abril de 2015

Barbearias de Rio Preto ganham status de pub

Domingo, 26.04.15 às 00:13 / Atualizado em 26.04.15 às 00:13

Diario da Região

Harlen Félix e Graziela Delalibera
Marcelo Lourenço
Barbeiro Marcelo Lourenço, da Dom Lourenço
O empresário André Secafim, 28 anos, sempre cultivou uma generosa barba no rosto, mas nunca frequentou uma barbearia para cuidar dela. Isso até conhecer, há menos de um ano, o misto de barbearia e pub de rock que se tornou o novo reduto da ala masculina em Rio Preto. Hoje, há pelo menos quatro barbearias neste estilo em funcionamento na cidade: Route 66, Cristal, Rock Clube e Dom Lourenço.
"Eu fazia a barba em casa mesmo. Até que um dia passei em frente da barbearia e entrei por curiosidade", diz Secafim, que hoje bate cartão na Dom Lourenço, na Vila Anchieta. Bem diferente do ambiente dos salões de beleza lotados de mulheres e modernizando o conceito das tradicionais barbearias do início do século passado, esses novos espaços conquistam homens na faixa dos 20 aos 40 anos, que encontraram um novo lugar para trocar ideias com os amigos, apreciar cervejas artesanais e importadas e, claro, curtir o bom e velho rock. 
Ou seja, fazer a barba ou cortar o cabelo é mero detalhe. Sócio de Secafim, Leis de Oliveira Gonçalves, 30, nunca teve barba nem corta o cabelo na Dom Lourenço, mas frequenta a barbearia semanalmente. "Venho para tomar cerveja e conversar com os amigos. Gosto de saborear cervejas diferentes e o lugar é ideal para isso", comenta.
Para o cabeleireiro e barbeiro Marcelo Lourenço, que deixou um salão de beleza para montar a Dom Loureço, um conjunto de fatores colabora na criação de um vínculo de amizade entre os frequentadores. "O ambiente retrô remete ao tempo dos nossos avós. Soma-se a isso o rock clássico, a cerveja e o espaço para socialização", destaca ele, que tem como xodó uma cadeira de barbeiro de 105 anos.

Hudson e Thiago Lima, da barbearia Rock ClubeOs irmãos e sócios Hudson e Thiago Lima, da barbearia Rock Clube: ambiente e figurinos retrô e uma proposta que combina barba bem feita e diversão
Experiências emocionais
Pioneiros neste segmento em Rio Preto, os irmãos Thiago e Hudson Lima, que comandam a Rock Clube, no bairro Boa Vista, são filhos de um barbeiro e de uma cabeleireira, trabalhando há mais de dez anos no ramo. Apaixonados por boteco e por rock, eles trocaram o salão repleto de mulheres para encarar o desafio de conquistar os homens no mercado da beleza. E o resultado foi pra lá de positivo: "No primeiro dia, não veio ninguém. 
No segundo, veio um cliente, e hoje temos agenda cheia todos os dias", conta Thiago. Segundo ele, a essência da Rock Clube é a mesma das antigas barbearias: um espaço que os homens frequentavam para fazer a barba ou cortar o cabelo, ler o jornal, tomar um café e colocar a conversa em dia. Com cerca de 40 rótulos de cervejas nacionais e importadas, a Rock Clube oferece aos frequentadores fliperama, mesa de sinuca, jogo de dardos e espaço bar. 
Vestidos à caráter, com roupa social e suspensórios, os irmãos atendem a clientelas em cadeiras de barbeiro das décadas de 1930, 40 e 50, uma delas, que acabou de ser restaurada, em madeira. "Muitos chegam duas ou três horas antes de serem atendidos para poder curtir o ambiente da barbearia. É um espaço que conseguimos agregar nossas duas paixões: boteco e rock", enfatiza Thiago. E a exclusividade não custa caro. 
Os preços dos serviços são os mesmos praticados por um salão médio da cidade. O estudante Olivaldi Azevedo, 21, que frequenta a Rock Clube, nem faz ideia de como seja uma barbearia antiga. Mas, hoje, não troca a novidade pelo salão em que cortava o cabelo. "Adoro pub de rock e encontrei aqui um motivo a mais para sair de casa", diz ele. Conforme o publicitário e consultor de marketing Edson das Flores Gatto, a dinâmica do consumo é baseada hoje nas experiências emocionais do consumidor. 
Ou seja, ninguém consome pela necessidade de ter, mas de ser ou pertencer a algo que o deixa feliz. "Isso explica a explosão dos mercados de nicho. As pessoas buscam não apenas o produto ou o serviço, mas experiências emocionais positivas ligadas aquilo." Para despertar os aspectos sensoriais, são criados ambientes que impactam os canais auditivo, sinestésico e visual. "Todo o contexto faz com que o cliente envolva-se com a empresa e passe a adotar aquele estilo", explica o publicitário.

Antonio de Souza Freire e Floriano Benites GasquesAntonio de Souza Freire (à esquerda), dono do salão, e Floriano Benites Gasques, funcionário: tradição mantida há 57 anos
Barbeiros à moda antiga resistem no Centro
Aqui, a água fresca, o café coado quentinho na garrafa, o jornal do dia disponível para leitura e o talento dos barbeiros são o suficiente para deixar qualquer cliente satisfeito, inclusive os mais exigentes. Há 57 anos na rua Bernardino de Campos, região central de Rio Preto, o Salão Souza Cabeleireiros faz barba e cabelo de gerações, com Antonio de Souza Freire, 84 anos, no comando. Um misto de passado e presente num mesmo endereço.
"Comecei moço e já estou velho, graças a Deus com bastante saúde para continuar trabalhando", fala Souza, enquanto com destreza faz a barba do aposentado Carlos Lourenço, 63 anos, cliente há 27. A profissão foi passada de pai para filho: Souza cresceu observando o trabalho do pai, o barbeiro Juvenal de Souza Freire. "Meu pai cortava cabelo muito bem. Naquela época, não tinha curso, não tinha escola, aprendia na raça." Em seu salão, Souza diz que o dono é o freguês: "Eles é que mandam na gente". 
E olha que a freguesia é grande e inclui até gente de fora da cidade, que entra pela primeira vez no salão por acaso e depois não consegue abrir mão de uma barba bem feita ou de um cabelo bem cortado pelas mãos de seus profissionais. 
Da cadeira, o cliente Lourenço conta que passa pelo ritual da barba e do cabelo uma vez por mês. "Quando venho cortar o cabelo, aproveito para fazer a barba. Fica muito mais caprichada, bem feita. Os outros dias do mês eu mesmo faço em casa", fala o aposentado, que cultiva o bigode. 
Na cadeira bem ao lado, quem trabalha é o funcionário Floriano Benites Gasques, 77. Na sexta-feira de manhã, quando o Diário esteve no salão, Benites fazia a barba do bancário aposentado Jesus Ludovico dos Santos, 55, que passa toda semana por lá. O barbeiro começou na profissão em José Bonifácio e logo firmou-se no Salão Souza, onde está há 53 anos. Enquanto ele usa a navalha, Santos fica tranquilo na cadeira. 
À certa altura, parece até que pega no sono. "Tem gente aqui que acaba relaxando. Um freguês que é viajante, é sentar na cadeira que ele dorme. Até ganhou o apelido de Roncador", brinca Souza. O salão também é procurado por jovens, mas esses gostam mais de fazer a barba bem desenhada, em vez de tirá-la por completo, segundo Benites. 
O cliente Ludovico conta que tem a barba muito farta, e por isso desde novo prefere fazer com profissional. Uma vez por semana ele recorre à navalha. Para ser bom na profissão, não tem muito segredo. Pelo lema de Souza, é preciso amor e dedicação. "Tem gente que faz a barba e não é caprichoso, aí quando começa a fazer com barbeiro não para mais."

José Rodrigues MartinsAos sábados, José Rodrigues Martins, 72 anos, pega sua motoneta para atender a clientela em domicílio, na maioria idosos, pessoas acamadas ou que não tem tempo de ir a um salão durante a semana
Barbeiro leva salão na moto
O Salão Souza tem uma terceira cadeira, onde trabalha o “caçula” da turma, o barbeiro José Rodrigues Martins, 72, funcionário há 21 anos. Além de dar expediente na rua Bernardino de Campos durante a semana, aos sábados, Martins tem outra ocupação. Com sua motoneta, ele se transforma em barbearia e salão de cabeleireiro móveis, atendendo em domicílio, trabalho que faz há cerca de dez anos. 
A maioria da clientela é composta por idosos. O barbeiro é também  requisitado para prestar seus serviços a pessoas acamadas e àquelas que não têm tempo de ir ao salão durante a semana. Ele conta que já passou pela experiência de barbear gente morta. Certa vez, a família de um antigo cliente acamado que acabara de morrer foi procurálo no salão. 
Profissional que é, Souza atendeu prontamente ao chamado, apesar de um certo receio inicial. Hoje, quem vê o barbeiro cruzando o trânsito intenso de Rio Preto com sua motoneta mal sabe que foi em cima de uma bicicleta que ele começou a atender sua clientela em domicílio. Tem um detalhe, porém, que Martins não abre mão, mesmo com o progresso: a placa na traseira do veículo, onde faz sua propaganda: “Corta-se cabelo e barba de idosos em domicílio”.

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