Redes Sociais conectam ideias e visões de mundo

segunda-feira, 2 de março de 2015

Quando o óbvio não convence

Luciano Alvarenga
Adicionar legenda

Muita gente boa deixou o PT desde 1995, quando José Dirceu assumiu a presidência do partido e iniciou uma guinada ideológica de 180 graus. Em linhas gerais a guinada tratou do seguinte; o partido abandonava a partir daquele momento todas as suas teses de transformação social, defendidas desde sua fundação. A Carta ao povo Brasileiro em 2002 era o documento oficiante do novo projeto.
Chegar ao poder antes de morrer era fundamental pra uma geração, de militantes, que viveu a vida na luta política. Forjados na luta contra a ditadura militar, assumiram o poder desde que ela saiu de cena. E por que assumiram o poder, escreveram a história, segundo sua ótica e interesse, do que havia se passado naqueles anos 1964/85. “A história é escrita pelos vencedores”. George Orwell.
Essa ótica não fez concessões, a ditadura militar foi um retrocesso de qualquer lado que se olhe. É interessante observar que a ditadura Vargas, não menos ditadura que os militares, nunca recebeu palavra de sanção das lideranças políticas petistas. Interessante observar que o Brasil era um gigantesco país absoltamente insignificante na ordem econômica mundial em 1930, e em 1985 era a 8º economia do mundo. Essa transformação, que se deu num período assolado mais por ditadura que democracia, não é mencionada pela esquerda pós-ditadura.
Quem nasceu entre os anos 1950 e 1960 nas cidades brasileiras, sabe muito bem o que significou esse período pra suas vidas; são filhos de gente que era pobre quando crianças (1930-40), mas que deram vidas de classe média pra seus filhos (1950-60). Aliás, é no período acima mencionado (1930-70) que o Brasil constrói uma forte e significativa classe média. Isso é historia, não é ideologia.
Ocorre que a partir da redemocratização, não era possível assumir o poder sem a demonização do período anterior, cheio de erros e crimes é verdade. Mas muito longe de ter sido uma tragédia sem retorno nem esperança. O fato é que pouco sabemos do período militar, por que toda a literatura historiográfica, com exceções escondidas e não publicadas para o grande público, apenas e tão somente renega, rebaixa e avilta tudo e qualquer coisa referente ao período militar.
A maioria de nós que nascemos entre os anos 1960/1970 nas cidades, portanto, dentro da atuação cultural e militante de esquerda em seu momento mais fervente, temos muita dificuldade de vermos qualquer problema no pensamento de esquerda, mais ainda, que ele possa estar a serviço de outra coisa que não o catecismo de transformação social que esse pensamento pregou durante toda a vida infantil e juvenil de quem o viu na ditadura militar. Essa é questão hoje.
Depois de décadas de lavagem cerebral de esquerda, a ideia de que tudo não passa de opressão de classe, de que a vida está dividida entre pobres redentores e ricos maquiavélicos, gays esclarecidos e heteros ignorantes, brancos sádicos e negros masoquistas, ateus iluminados e religiosos em trevas, mais uma infinidade de vida diária que foi convertida em campo de batalha ideológica (é o caso do Estatuto da Criança e do Adolescente - que se transformou num salvo conduto pra qualquer comportamento alheio a autoridade -, a Cartilha Gay nas escolas, essa não passou, socioconstrutivismo no sistema escolar, isto é, çapo é correto), o que temos é uma incapacidade crônica de separar o que é importante, fundamental pra vida, o trigo, do que é mentira, manipulação ideológica, empulhação linguística, joio; e, que resulta em muita gente culta e esclarecida incapaz de enxergar o que está em andamento no país; defendendo um governo apenas e tão somente por que não consegue acreditar em outro parâmetro de pensamento social e político que não seja o de esquerda.
A única coisa que salva o pais de uma tragédia maior ainda é o fato de que a esquerda - e a esquerda brasileira nunca recebeu atenção maior de seus pares nos grandes centros - não conseguiu converter a massa do povo ao seu pensamento. Isso porquê sendo o nosso povo de uma cultura mais rural que urbana, mais religiosa que moderna, mais comunitária que individualista, ficou impermeável ao discurso de confronto raivoso do PT. O povo nos salvou do PT.
E se ele vota em massa nesse partido hoje, o faz mais seja pelas benesses que milhões de famílias recebe desse partido, associada ao crédito farto despendido pra consumo (já acabou, aliás), do que propriamente pelo fato de ser o PT; partido esse que nada além disso foi capaz de fazer, vide a imensa crise econômica e política que o país vai mergulhando. Ou, os resultados humilhantes do país nos testes internacionais de educação, depois de quase 16 anos do PT, não dizem nada?
Portanto, o melancólico fim desse ciclo no poder não apenas do PT, mas da esquerda em geral, e do PSDB em particular, não se enagene, o PSDB é da mesma trupe do PT, evidencia que a geração política que assumiu o poder no país no pós-ditadura, não avançou uma casa no jogo da civilização mundial. Afinal, em 1985 éramos a 8º economia do mundo, e trinta anos depois continuamos no mesmo lugar.






Nenhum comentário: