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A nação em colapso

Luciano Alvarenga

A crise - instalada no país e que vem se desenrolando desde 2013, e, ganhando novos contornos a cada rodada de fatos, revelações, debates e indignação - é mais profunda do que esse momento de incerteza econômica ou política podem sugerir.
Em linhas gerais, trata-se do completo esgotamento da geração política de esquerda e intelectual-militante forjadas na ditadura e transição democrática; o esfacelamento da elite intelectual de esquerda e suas teorias sócio-construtivistas-marxistas-leninistas-cotistas-assistencialistas é que respondem, depois de 20 anos no poder político, pelo estado de coisas em que estamos. E que estado de coisas é esse?
O completo colapso das instituições que sustentam a democracia no Brasil.
O congresso ilhado e envolvido apenas consigo mesmo, tornou-se um grande balcão de negócios. O executivo federal alimenta a maior base de apoio partidário do mundo democrático (chamado generosamente de presidencialismo de coalizão; traduzindo: o assalto à coisa pública é fraternamente dividido entre todos os assaltantes); com isso acabou com a oposição (vide o caso estarrecedor de que o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos (PSDB) é ministro do governo Federal do PT) Alguém ainda duvida da parceria PT/PSDB?
O sistema educacional federal e estadual(is) está completamente sucateado, as escolas foram transformadas em grandes sistemas de encarceramento infanto-juvenil, o emburrecimento é feito em escala industrial. O sistema prisional está dominado pela que pode ser a maior facção criminosa da América Latina, PCC, que comanda todo o sistema dentro dos presídios e nas ruas, chegando ao absurdo de que até os governos estaduais precisam negociar com eles (segundo pesquisas, o PCC já domina inúmeros presídios de países do cone Sul).
A justiça está paralisada pela lentidão, pela burocracia, pela falta de pessoal e, pela casta de juízes, desembargadores e outros que ganham milhões para deixar tudo como está. A saúde pública é ruim, os médicos são mal formados e ganham insuficientemente e, estão concentrados em áreas mais desenvolvidas, no mais o sistema está sendo rapidamente privatizado. O sistema de transporte público no país é dominado por meia dúzia de mega empresários que sangram os cofres públicos, em parceria com políticos municipais, enquanto a população é transportada como gado pelas cidades brasileiras.
O sistema tributário brasileiro pune o pobre e a classe média fazendo deles os grandes pagadores de impostos da nação, enquanto os ricos e milionários pagam menos quanto mais ricos ficam. Citei apenas algumas e principais instituições e áreas da vida pública no Brasil, existem mais e em situação tão grave quanto. Esse é o pano de fundo de tudo o que esta acontecendo e, pelo clima tenso e de ressentimento espalhado pelo país.
Enfim, as instituições no Brasil estão em colapso, é falência múltipla de órgãos, para usar um jargão médico.
Ora, o que isso significa para além do óbvio. Significa que podemos caminhar dentro do contexto de protesto civil democrático em andamento, para uma crise institucional de contornos imprevisíveis. E por quê?
Depois de doze anos de paralisia dos movimentos sociais e sindicais, resultado da política de cooptação do governo petista que transformou lideranças sociais em apadrinhados políticos, associado ao mega presidencialismo de coalizão que mais e mais desvitaliza o sistema democrático com a inanição forçada da oposição, o que temos agora é a violenta emergência de todas as demandas sociais reprimidas e que fermentava no caldeirão da falência institucional do país. De repente, do povo que trabalha à classe média, o descontentamento é generalizado.
Rancores, ressentimentos, raivas e ódios cultivados ao longo de mais de vinte anos de uma política sociocultural e econômica no governo federal, por uma geração política que desde a redemocratização se vendeu como a vanguarda esclarecida iluminista do país, hoje está no poder a custa de um autoritário discurso de mudança social que nada muda, do clientelismo eleitoral via cartão de débito das esmolas federais, e pelo fato de que se alternam no poder (PT/PSDB) os iguais, mas que se acusam de diferentes.
Mas como mudar tudo o que se pede nas ruas se as instituições onde é possível que isso seja feito estão em colapso? Como mudar se as coisas estão como estão justamente por que é fruto de uma escolha política feita nestes últimos vinte anos pelo PSDB e pelo PT? As coisas não estão ruins por que nada foi feito, estão ruins por que foi decidido que assim seria.
O colapso vivido no país é fruto de uma direção política que visou apenas a manutenção e fortalecimento do poder de um grupo (os que lutaram contra a ditadura), mas que vinte e cinco anos depois de estarem no poder (ao fim do mandato de Dilma), e, riquíssimos, entregarão a nação com todas as suas instituições democráticas em colapso.

A retirada urgente dessa geração do poder, implica que a sociedade civil estimule e ajude seus melhores nomes a ocuparem os espaços de poder que serão desocupados. Ou retiramos as maçãs podres que governam, ou o apodrecimento será da nação inteira. 

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