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Quando tudo está invertido

Luciano Alvarenga


A maioria das pessoas está perdida, poucos ainda são capazes de firmar um juízo de valor sem medo de serem recriminados, geralmente por aqueles que se consideram progressistas e de cabeça aberta. Diante dos maiores absurdos, de fatos que o bom senso indica claramente que posição tomar, o que vemos é as pessoas saírem em defesa de fatos e gentes que jamais deveriam estar a ser defendidas.
O caso último, não o mais importante, foi a condenação a morte, na Indonésia, de um traficante internacional de drogas pesadas, Marco Archer (53 anos). De repente, a defesa de sua vida tornou-se o único fato relevante, e histórias e lendas a seu respeito emergiram nas mídias eletrônicas como a dizer “olha como ele é uma pessoa normal como você”. De repente não se tratava mais de um traficante, mas de alguém que necessita de nossa compaixão e dor por estar vivendo um momento difícil, e que o lugar mais apropriado pra ele se recuperar e voltar a viver sua vida, com alguma normalidade, seria em seu país de origem, Brasil. Resulta disso, que o crime perdeu a consistência fundamental que embasa todo o caso e, o criminoso foi relativizado, “pro bem”, em sua condição.
De repente muitas pessoas, esclarecidas inclusive, passaram a questionar as leis daquele país, não no sentido de que precisam ser reformadas apontando com isso melhores tempos futuros, mas ao contrário, no sentido de libertar o brasileiro traficante das garras da justiça daquele país. Por sorte, ou justiça, isso não foi possível. E o recado pra qualquer brasileiro que queira entrar com cocaína na Indonésia é, “se for pego, vai morrer”.
A ideia profundamente infiltrada na psique nacional, nestas últimas décadas, de que desigualdade de renda nossos problemas maiores são, fazendo que inclusive a própria democracia seja resumida a consumo, tornou refém tudo e qualquer coisa. As pessoas podem ser idiotizadas pelo tipo de educação que recebem, pela cultura empobrecida que praticam e continuam sendo incentivadas, nada disso importa pro staus quo político dominante; o que interessa é que elas agora consomem. Os direitos humanos no Brasil, pra ficarmos em um exemplo, é apenas e tão somente a defesa dos menos aquinhoados, ainda que sejam em muitos casos, na verdade quase sempre apenas nesses casos, como cansados de saber estamos, bandidos, ladrões, assaltantes, violentadores, gente que torna a vida, também, e principalmente dos pobres, um inferno.
A impressão que toma conta de uma quantidade maior de pessoas - geralmente honestas e de bem, em sentido moral, e, que procuram levar uma vida a mais certa possível, no sentido de pagar seus impostos e estar quite com a justiça – é a de que toda a estrutura do Estado está voltada pra atender o desajustado, o desviante, o bandido, o criminoso contumaz. Basta dizer, por exemplo, que se um bandido tentar sequestrá-lo, mas por sorte você consiga dissuadi-lo com umas facadas, ainda que ele não morra, o que você verá é o Samu vindo socorrê-lo, tratando dele em hospital público e, você sendo acusado de tentativa de homicídio e ferimentos graves com arma branca. Ele estará andando pela cidade tão logo os pontos das facadas sarem, mas você arrastará por alguns meses um processo, se não acabar preso.
Um viés desse princípio está entranhado na cultura escolar; há algumas décadas que a punição, o limite, a disciplina, o aprendizado sistemático desapareceu por completo do sistema escolar. O aluno está proibido, pelas diretrizes da Educação nacional, de ser reprovado. Ideia estapafúrdia, estúpida até, aclamada por gerações inteiras de pedagogos, psicólogos e outréns. Claro que os filhos desses profissionais estudam em escolas particulares onde o sistema educativo anda em outros trilhos. Sobra aos filhos dos pobres estudarem numa escola onde aprender é apenas atividade espontânea; não é por outro motivo que os professores aprovam com entusiasmo quando uma criança escreve “çapo” dessa maneira; o que importa é que ela conseguiu comunicar, o quê exatamente eu não consigo saber. Não é preciso ser muito inteligente pra perceber que esta criança estará fadada a jamais sair do mundo restrito e ignorante onde se encontra.
A questão moral no país desapareceu por completo. Tudo se resume ao fato de que 1% dos mais ricos detém a maior parte da renda nacional. Se ele matou, estuprou, ou está preso, nada disso importa, diante do fato de que não teve as chances dadas aos mais ricos. Tudo se justifica se cometido por um bandido pobre. Eis aí a dificuldade da sociedade em geral de aceitar o parricídio cometido por Suzanne Von Richthofen, era rica. Fosse pobre, certamente teríamos visto uma carreira de profissionais das ciências humanas, explicando a biografia do parricida como maneira de atenuar seu crime.
Ora, o que pobres ou não, honestos ou bandidos já sabem é que no Brasil é moralmente aceitável cometer crimes. “Sou bandido dado minhas condições matérias lamentáveis”. Tudo isso, claro, justificado por um quantidade imensa de intelectuais e figuras de mídia progressistas que, amparados em teorias das ciências humanas, tem explicação pra quase tudo. A primeira que me vem à mente é a de que o estuprador foi em geral abusado quando criança. Isto é, seu crime no presente está redimido pelo crime que lhe cometeram no passado, ou seja, ele não é um criminoso, é uma vítima. Esse é apenas um exemplo.
Ideias progressistas - estas que tomaram conta quase que completamente do país todo e acima esbocei - fecundaram um solo fértil de melhoria material, mas de miséria espiritual, cultural e moral.
Bandidos entre nós valem mais do que qualquer um que queira ganhar a vida honestamente, pelo menos do ponto de vista dos intelectuais progressistas e de quem forja leis e governa. Luciano Alvarenga

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