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Eu também não sou Charlie

Luciano Alvarenga


Nem fundamentalista.
Liberdade de expressão virou um mantra ou, uma muleta que serve a tudo e a qualquer coisa. A liberdade de expressão é a senha a liberar qualquer um a dizer, escrever e publicar o que bem queira sobre o que queira e da maneira que quiser. Liberdade de expressão tem sido, “eu não posso ser censurado”. Daí se conclui que não há responsáveis, não há bom senso, não há limites dentro dos quais se possa operar definindo direitos e deveres.
Mais de uma dezena de pessoas foram mortas em Paris em função do que eles, jornalistas, imaginam ser liberdade de expressão. A morte dessas pessoas foi é claro, uma obscenidade, uma tragédia. Mas essa é uma tragédia realizada não contra a liberdade de expressão. Fosse assim, o Le Monde Diplomatique ou o Le Figaro teriam sido atacados também, e não foram.
De qualquer forma, liberdade de expressão tem consequências. Quem diz o que quer há de arcar com as consequências do que disse. O ataque não foi contra o Charlie Hebdo pelo que o jornal imaginava fazer em termos de liberdade de expressão. Foi, sim, contra a iconoclastia travestida de liberdade de expressão. Como está fartamente registrado, o jornal tinha como viés preponderante atacar, deslegitimar, ofender, banalizar a religião mulçumana como assim já se conseguiu banalizar o catolicismo na Europa.
Charlie Hebdo, como tantos outros mundo afora, a muito não são veículos de uma cultura, de um entendimento de mundo, de uma utopia ou conjunto de valores que valha a pena defender e ampliar, seja liberal, conservadora ou qualquer outra; Charlie Hebdo é apenas o achincalhe, a desmoralização de tudo e qualquer coisa, trombeta que anuncia a descrença, o niilismo, o vazio e o sem sentido. É fato, entretanto, que não faz isso a partir do mundo onde está inserido e voltado pra esse mundo, a sociedade moderna e seus descaminhos, faz isso destruindo o imaginário de crenças e tradições do outro, daquele que ainda acredita em algo.
Liberdade de expressão nada significa se imersa em uma sociedade que não defende valor nenhum.
Imaginar que da ideia de que dizer tudo e qualquer coisa contra tudo e qualquer um, possa sair algo que seja bom, que seja frutífero, que seja construtivo é desconhecer os descaminhos de nossa história recente.
Descrentes de tudo aquilo que já animou seus ânimos em tempos outros, as belas e agradáveis promessas dos anos 1960, amor, sexo, drogas e Rock and roll, boa parte dos jornalistas do Charlie, alguns com mais de 70 anos, dedicavam-se com seus desenhos destruir tudo o resto. Está claro a quem queira enxergar que a contra cultura dos anos 60 esgotou-se, perdeu a vitalidade e, nada mais significa.
A iconoclastia, essa velha senhora, que nos tempos de sua mocidade pôde significar não adorar imagens; mais recentemente, a crítica de padrões, culturas e comportamentos sociais de tipo tradicional, hoje se resume a destruição de qualquer símbolo religioso, mítico e tradicional, especialmente aqueles ligados as religiões monoteístas. Em poucas palavras, até recentemente a cultura iconoclasta podia ser uma crítica a uma sociedade engessada, hoje, é apenas a destruição de qualquer crença ou possibilidade societária que não seja a individuo-niilista. Charles Hebdo era isso.
Liberdade de expressão para niilistas é apenas o credo da desgraça. 

Ver mais com essa mesma abordagem
http://www.viomundo.com.br/politica/tariq-ali.html

Comentários

Mauro Bartolomeu disse…
Vai me desculpar, meu velho, mas culpabilizar a vítima não dá pra levar a sério. No mais, a liberdade só pode ser a liberdade para a transgressão; se fosse só para nos mantermos em fila indiana, não precisaríamos de liberdade nenhuma, não acha? Abç!

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