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terça-feira, 10 de junho de 2014

Democracia Oca

Luciano Alvarenga
A “lei da palmada”, que ao invés de resolver o problema do espancamento de crianças, desobriga os pais de reivindicarem autoridade sobre os filhos; a transformação de tudo que constrange em bullying (tudo que não é elogio); assédio moral – que pode ser desde uma ofensa objetiva praticada pelo chefe até um subjetivo pito por algo insistentemente mal feito; a aprovação automática nas escolas; a correção de provas pelos professores que não pode ser feita com caneta vermelha, pois pode ofender o aluno (essa não pegou); o discurso de que todos somos especiais – uma falácia; a glamorização cinematográfica, musical e artística da delinquência e do delinquente; a lei do sucesso: “acredite e será”; culto às vítimas: negros, pobres, mulheres, gays; a judicialização de tudo e, o golpe financeiro do processo por danos morais e materiais; o tabu em torno da correção, do castigo e da punição de crianças, jovens e adolescentes; o desaparecimento da ideia de aluno e aprendiz; a ideia de que todos temos direito, mas sem deveres; incapacidade crônica de distinguir preço e valor; a etnização dos problemas sociais, quando o mundo é cada vez mais miscigenado; mais um sem número de coisas que se transformaram em rotina, vai sedimentando uma cultura no país de gente fraca, mal caráter, maliciosa, interesseira, preguiçosa, ressentida e sem compromisso.
Nunca o golpe da sorte foi tão cultivado e desejado; se não de uma vez, quase sempre aos poucos e a cada dia.
O mundo ideal se transportou das teorias, de uma certa Ciência Social (praticada na pedagogia, psicologia, sociologia e serviço social), para a realidade e, o resultado é o que estamos presenciando, pelo menos aqueles que conseguimos ver o que se passa a nossa volta e, no universo de trabalho onde estamos inseridos: a qualidade profissional deficitária dos formados, daqueles que prestam serviços, das exigências cada vez menores nas provas e testes, na quantidade mínima de vocabulário dos jovens, no desrespeito generalizado que tomou conta das relações no ambiente das cidades onde vivemos, no descaso com velhos e pessoas especiais, o desaparecimento do bom e do bem feito em nome do bonito e barato, a ostentação material em substituição ao caráter, o poder transformado em corrupção, o cinismo social que tudo permite e pratica, tudo isso evidencia o esfacelamento da cultura do respeito, do ético e moral. Esfacelamento feito, promovido e transformado em lei, como quintessência de uma sociedade melhor e mais justa.
Teorias sociais travestidas em leis de “melhor comportamento” que, nestes últimos vinte anos, foram, numa elaboração de engenharia política, inoculadas nas veias da sociedade como expressão de maturidade social e democrática, é na realidade o contrário disso. Trata-se de um processo de acelerada corrosão dos valores sociais, antes expressados em disciplina, respeito, maturidade, compromisso, hierarquia de poder e valores, superação e recompensa e, que hoje são acusados como autoritário e desigual.
Toda a engenharia de novos comportamentos, construída nestas últimas duas décadas no Brasil, é em resumo e, em definitivo o empobrecimento da democracia, se não seu aviltamento, sua transformação na aceitação de tudo e de qualquer coisa como se o diferente pudesse ter algum valor apenas por que é diferente.
Perdeu-se a ideia de que valor está calcado naquilo que representa enquanto valor em si aceito por todos e por todos consubstanciados; é resultado do que fez, faz, transforma e, é reconhecido pela sociedade pela qualidade, sua história, profundidade e capacidade de gerar sinergia social que, diz o que é valor ou, apenas algo passageiro ou, sem importância.
Os defensores, do atual entendimento de democracia, veem valor na diferença, como se ela sem nada fazer, produzir, gerar ou significar em termos de valor social, ainda sim tenha que ser aceita e reconhecida; mais, entendida como a própria definição de democracia, descartando qualquer outra.
Foi assim que a democracia no Brasil transformou-se e se reduziu em alpinismo social descarado, melhoria material de bens de valor duvidoso, e acesso a bens de consumo descartáveis. Que a quantidade de gente enxertada nessa pobre definição de democracia é algo espantoso, não há dúvida. O outro lado disso, entretanto, é que a democracia entre nós é oca. Luciano Alvarenga 







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