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O Brasil dos ressentidos

Luciano Alvarenga
O ressentimento, a amargura e a inveja tomam conta de um número cada vez maior de pessoas. Depois de uma década e meia de um discurso ininterrupto sobre felicidade e, realização profissional como perspectiva de conquista material, o resultado é uma legião sem tamanho de gente infeliz.
As redes sociais viraram o palco principal onde estas gentes todas destilam seus rancores, ressentimentos e atiram contra todos aqueles que possam ser alvos de seus ataques. Vivendo uma vida marcada pela defasagem entre o que se quer e o que se tem ou; ainda, entre a expectativa e a realidade, o resultado é um sentimento difuso de desilusão, mágoa, tristeza e raiva que precisa ser destilado contra quem se imagina ser culpado, ou, estar vivendo a vida que imagino deveria estar vivendo.
É nesse sentido, que a classe política transformou-se na latrina onde todos defecam seus piores sentimentos. Evidentemente que os políticos são ruins mesmo, tais quais dizemos que são, com as exceções de praxe, mas essa é apenas uma parte da verdade. A outra parte é que os políticos são aquilo mesmo que é a massa de onde saíram.
É extraordinário que a classe política possa ser tão ruim, que haja um sentimento generalizado na população contra ela, que o desejo seja que tudo mudasse, mas nada muda. É incrível. Como pode que todos queiram que os políticos sejam outros e, eles continuam os mesmos? A explicação é que a crise não é da política, a crise é da sociedade brasileira; a crise é da cultura nacional, da falta de ética e moralidade que campeia todos os extratos da população de alto a baixo, ricos e pobres, letrados e ignorantes, religiosos e ateus; a grande mídia e a mídia pequena, a impressa e a virtual.
Existe um pacto tácito, silencioso e medíocre entre todos, no sentido de apenas afirmar a podridão da política. A política é a Sodoma e Gomorra, o lugar onde se encerra todo o mau, toda sujeira, tudo o que é asqueroso e vil. Existe um ardil psíquico nessa acusação de mão única contra a política, é a dificuldade, a imaturidade, a incultura, a apatia e a incapacidade de se reconhecer que, é a sociedade brasileira, no seu presente, que está numa profunda crise de valores, de um norte que a guie.
O roubo, a falta de ética, a malversação com dinheiro público e privado, a malandragem, o caixa dois nas empresas, a sonegação de impostos, a falta de compromisso com o próprio trabalho, o desleixo e o descompromisso (as obras da Copa são a expressão em grande escala do jeitinho irresponsável da nação com seus compromissos), a falta de respeito pelo outro nas ruas, expostas todos os dias no uso ilegítimo de vagas nos estacionamentos, dos carros parados sobre calçadas, filas, o barulho ensurdecedor de carros de som, o encantamento com o ilícito praticado por amigos e familiares e, comemorados nas festinhas íntimas, o sem número de pequenas corrupções, os produtos roubados em bares e lojas, contas em padarias e cafés que não se pagam, enfim. A lista é imensa.
Estamos mergulhados numa crise de valores e de sentido que afunda a todos. Apontar a política como o mau que precisa ser combatido é apenas adiar a verdade de que somos o solo fértil, a cultura malandra, ociosa, preguiçosa, covarde e ressentida de onde saem os políticos que amamos odiar.

Cada povo tem os governantes que merece; nunca imaginei que fosse concordar com isso, mas é uma franca verdade. Luciano Alvarenga

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