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A fome de barbárie quer sentar-se à mesa

Luciano Alvarenga
Paira na atmosfera brasileira algo de sinistro, de noturno, uma fome de barbárie, um desejo de vazão de energias malignas que, aos poucos vai explodindo em eventos como os justiçamentos nas ruas, os linchamentos, como a morte daquela moça em Guarujá, acusada de praticar magia negra com crianças, os vasos lançados num estádio de futebol em Recife, o decepamento de um idoso em Severínia, interior de São Paulo, acusado de estuprar uma criança de três anos. Pra não dizer da morte de um garoto de onze anos pelos seu pai e madrasta.
Casos como estes são reveladores dessa atmosfera do mal, num sentido ontológico, do desejo de olhá-lo no olho, experimentá-lo vivamente. É como se matar, decepar, espancar, linchar e aterrorizar trouxesse para o plano do concreto, exterior, aquilo com o qual não se consegue mais viver, manter dentro, no interior. Ao mesmo tempo em que o Brasil experimentara uma melhora significativa de índices e padrões de vida, foi emergindo junto e, ao mesmo tempo, um ódio, um ressentimento que rasga a nação de alto a baixo, tendo nos linchamentos de rua sua expressão mais bárbara e cruel, mas também com seu congênere, menos plástico e macabro, que é a radicalização à esquerda e à direita dos discursos, das postagens, das falas e discussões que, mais do que esclarecer e aprofundar diferenças visa, sim, o massacre, a morte, a aniquilação do adversário, do interlocutor (isso tudo já vinha sendo feito nas eleições de 2010).
À direita e à esquerda vão se formando bandos, gangues, tribos de linchadores que, guiados pela adrenalina catártica da guerra verbal, vão ao mesmo tempo se purificando dos ressentimentos, ódios e humilhações sofridas, cultivados ao longo de anos de expectativas não realizadas e, vidas mal vivida. E, enquanto tudo isso se dá, casos como estes da jovem do Guarujá, serve mais ao apelo de imputar culpados (e a jornalista do SBT Raquel Sherazade já foi escolhida à esquerda como a mãe da tragédia), do que propriamente como apontamento de uma realidade que mostra os dentes afiados da violência potencial e concreta que pode assumir e, assume.
De dentro de redações, aquários, escritórios políticos, quartos ou, salas anônimas um exército de gente treinada investe numa guerra sem trincheira de ataques virtuais e, movimentos de combate em que acusações, xingamentos, ofensas, mentiras, cinismos e hipocrisias são lançados dia e noite sem parar na web e nas redes sociais, contra tudo e todos que sejam eleitos como inimigos; fornecendo a uma horda sem fim de replicadores, compartilhadores e curtidores munição, para que sem descanso, possam manter acesos os canhões e metralhadoras que destruam tudo o que estiver do outro lado da cerca.
Sendo o facebook a interface de um Brasil sofisticado e moderno, mas ao mesmo tempo guarida do arcaico e atrasado, percebe-se que os discursos pretensamente puros e alvejantes do lado moderno, mas radicais, planejados e pulverizados na rede, são resignificados pelo lado arcaico, de acordo com suas possibilidades de entendimento e, maneiras de realizá-lo.
Evangélicos e católicos, gays e heteros, bissexuais e transgêneros, mulheres e homens, mídia tradicional e novas mídias, interior e capital, brancos e negros, pobres e classe média, bígamos e polígamos, todos se juntam rapidamente aos seus pares, se lançando caninamente contra inimigos concretos e potenciais. Fazer parte de um grupo e lhe dedicar lealdade imediata e sem contestação é condição primeira pra não ser destruído, massacrado, vilipendiado antes de todos os outros. Esse é o primeiro e mais importante reflexo sociológico desses vinte anos da globalização entre nós; estamos profundamente divididos. Os discursos da divisão, da separação, da etnização, dos dentro e dos de fora, estão plantados e, já dão sua primeira florada.
O país miscigenado, sincrético, das misturas, dos encontros desencontrados de religiões, cores, sotaques e olhares cedem passo às realidades novidadeiras das divisões, separações e muros. Depois de 500 anos importando gentes e culturas, miscigenando nos trópicos suas prerrogativas e raízes, importamos agora e, por último, via globalização das desgraças, o ódio, que tem como filho primogênito, o fundamentalismo.
A questão agora é saber qual o tom, a cor, a religião e a densidade do nosso futuro fundamentalismo tropical. Luciano Alvarenga
  


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