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“As minorias não podem pautar as maiorias”*

Luciano Alvarenga

A grande onda progressista, liberal e libertina dos anos 1960 está refluindo e, rapidamente. A atmosfera já é outra. Mais pesada, mais densa, mais séria, mais conservadora. Os ventos que sopram não são mais uma brisa leve e refrescante numa tarde de calor, os ventos agora são turbulentos e fortes.
Depois de cinquenta anos de uma agenda cultural aberta e flexível, de mudanças significativas entre homens e mulheres, amor e sexo, fiéis e religiosos, adultos e jovens, filhos e seus pais, professores e alunos, o que teremos agora é o rearranjo de todos estes duplos segundo novas direções.
A verdade é que todas as mudanças operadas no seio da sociedade nestas décadas, ao invés de corrigir os graves erros e desvios da sociedade anterior, criaram novos. Se antes era autoritária na política, nos hábitos e costumes, democratizou-se ao ponto de vulgarizar-se, ao ponto de que ninguém responde por nada nem ninguém. Se antes era impeditiva, adultocêntrica, agora é permissiva às raias do absurdo, adultocente. Se antes era marcada pela cultura erudita acessada por poucos, agora vivemos a mediocridade vivida por todos.
A sociedade que antes se guiava por regras, padrões e condutas claras sobre certo e errado, bom e ruim, honesto e desonesto, ético e antiético, permitido ou não permitido, hoje caminha desvairada, errática, sem referência de nenhum tipo e, incapaz de decidir o que quer que seja, exatamente por que destituída de consciência e maturidade sobre bom e justo, ético ou não. Sem referência maior e absoluta, o indivíduo virou referência de si mesmo.
De repente todos podemos tudo, mas ao mesmo tempo estamos profundamente marcados pela incerteza crônica sobre o que significa tudo poder e, quais suas consequências. Se antes poucas eram as escolhas possíveis, ou mesmo escolha nenhuma, agora vivemos embriagados com tantas escolhas possíveis e, completamente cegos sobre seus desdobramentos.
O fato concreto é que meio século, pelo menos, de uma cultura de rompimento, de dessacralização e relativismo de tudo, o que se vê agora é o esgarçamento do discurso politicamente correto, o enfraquecimento dos movimentos de minorias, entre eles gays, indígenas, quilombolas, feministas e todos os outros.
A cultura de “destrua tudo o que está ai” chegou ao seu limite; somado ao fato de que não entregou aos mortais de todos os quadrantes e, idades, o mundo ideal da felicidade, prazer e contentamento que havia prometido quando aportou nestas praias cinquenta anos atrás.
O que temos e, este é o problema profundo que nos defrontamos, são adultos adolescentes (geração que nasceu nas décadas de 1970 e 1980) e, incapazes de dirigir a própria vida, quanto mais à de seus filhos. Professores sem nenhuma autoridade, posto que tão infantis quanto seus alunos. Crianças tiranas e, que mandam em todos a sua volta. Consumidores carentes que se deixam tratar e enganar pelo carinhoso mundo da publicidade eletrônica. Jovens, tendo que disputar o palco da vida com adultos que não conseguem sair de cena e, encarar a vida com a altivez e a tristeza que lhe é peculiar. A vida mesma transformada numa obrigação de risos, alegria e felicidade, ainda que ao custo de todo tipo de estimulante, antidepressivos ou, qualquer coisa que faça desligar o sujeito de suas consequências.
Enfim, é contra tudo isso que emerge outro tempo, mais duro, mais sério, menos colorido e mais conservador. Mas talvez com mais sentido, mais coerência, com mais riqueza e profundidade. Os tempos hedonistas da superficialidade sem compromisso chegam ao fim.
Numa última linha. Essas mudanças, no Brasil, podem ocorrer concomitantemente com uma guerra civil já em andamento e, que pode desembocar num Estado de tipo autoritário, seja de direita ou, esquerda. Quando as demandas das ruas não encontram ressonância no Estado e, em sua capacidade de atendê-las, o resultado é o Estado impedir que as demandas continuem sendo feitas. Luciano Alvarenga

*Dom Henrique Soares, bispo auxiliar de Aracaju-SE




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