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sábado, 15 de março de 2014

A Democracia brasileira se encontra com sua violência

Luciano Alvarenga
As violências todas praticadas nas manifestações de rua, bem como pelos justiceiros, bandos de jovens que fazem “justiça” com as próprias mãos, são um lado importante e, resultado, de como foi o processo de consciência social e política desenvolvida nos últimos 30 anos no Brasil. Soma-se a isso aquilo que no Brasil vai ganhando forma nesta última década e meia, o “homem-massa”, tipo social caracterizado pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset como medíocre, mimado, infantil, ignorante de suas atribuições políticas e, resultado do desenvolvimento da sociedade de mercado de massas.[1] Assunto impossível de se tratar neste texto por questão de espaço, mas que deixo registrado.
Movimento gay, movimento negro, movimento dos sem terra, sem teto, quilombolas, feministas, meninos e meninos de rua (ECA) e, mais um sem número de movimentos surgidos no país desde a redemocratização, fragmentou o país em fractais impossíveis de serem conciliados dentro do escopo da frágil democracia brasileira.[2]
O que nascia, década de 1980, os movimentos sociais, como parte e amadurecimento da democracia no Brasil, com o passar do tempo foi se traduzindo em movimentos fechados, autorreferentes, ensimesmados e, preocupado apenas com sua própria reprodução e atendimento de suas demandas. Num só tempo, liderança e movimento em prol de uma causa, o Brasil, deixaram de ser um todo em nome de transformações sociais necessárias e, passaram a ser apenas liderança de uma causa, a sua.
Ao invés de defenderem a escola pública, sua melhoria e, capacidade de ser republicana, o movimento negro aferrou-se na defesa das cotas universitárias, desconsiderando a realidade chocante de que a maioria dos jovens negros e, também todos os outros jovens pobres, não terminam o segundo grau e, quando o conseguem em sua minoria, são analfabetos funcionais.[3] Em nome da vitória do movimento Negro, uma minoria, suas lideranças comprometeram o futuro de milhões de jovens pobres, a maioria.
Bancada evangélica, bancada ruralista, bancada gay, bancada da educação privada e, tantas outras representações no Congresso Nacional é a evidência institucional de que o Congresso e, a luta política no Brasil, tornou-se coisa de grupos minoritários que tentam, por lei, impor seus interesses sobre todos os outros. O país enquanto nação, enquanto projeto de todos, enquanto uma possibilidade civilizacional, como inspiraram e acreditaram tantos intelectuais e, políticos brasileiros em tempos outros, Celso Furtado, Caio Prado Jr., Florestam Fernandes, Gilberto Freire, Mário de Andrade, Raymundo Faoro, Oliveira Vianna; recoloco, o Brasil como projeto de nação se perdeu numa luta amesquinhada de grupos que, se impõem uns aos outros pensando sua causa como a única e, a única que interessa.
As lutas sociais e, seus representantes, que deveriam nutrir e, ser a seiva política que alimenta a democracia, foi rapidamente se tornando veneno e intoxicando o clima político nacional. A ideia de que as mudanças poderiam ser feitas aprovando leis, umas após as outras, veio se evidenciando como inócuas, por que nada mudaram a não ser a realidade direta de alguns poucos afetados.
A legitimidade de movimentos como o negro e gay que, inicialmente estavam entendidos dentro de um amplo leque de demandas sérias e honestas, foi aos poucos perdendo apoio social na medida em que passaram a serem impostas como verdades inquestionáveis. Foi o caso, por exemplo, do kit gay nas escolas. O que anteriormente era um debate e a necessidade de se superar preconceitos, proposta pelo movimento GLBT e, aceita em certa medida pela população, passou a ser num segundo momento doutrinação e, cartilha sobre a realidade sexual de uma absoluta minoria e, imposto a todos os outros, não gays.
Foram atitudes como estas e, o discurso de que tais coisas eram realidades indiscutíveis e, que deveriam ser aceitas pelas pessoas indistintamente e, independentemente de sua origem, credo, costume ou padrão moral que, minou completamente o clima político no país.
As lideranças dos movimentos sociais, especialmente aqueles que conseguiram maior vocalização, gay e negro, deixaram de expressar os sentimentos de todos os milhões de pessoas que representavam e, passaram a representar a si mesmos, uma pequena elite dirigente. Como elite dirigente se insurgiu contra o todo da população, impondo suas verdades particulares que deveriam ser, simplesmente, aceitas por todos.
A violência que difusamente se espalha pelo país também tem sua origem naqueles movimentos e, em sua retórica belicista desta última década.[4] Luciano Alvarenga

Artigo publicado no dia 15.03 no Jornal Diário da Região.




[1] Ortega y Gasset, José. A rebelião das massas. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
[2] Para saber mais sobre este assunto. Fry, Peter.; Maggie, Yvone; Maio, Marcos Chor; Monteiro, Simone; Santos, Ricardo Ventura. (orgs.). Divisões Perigosas. Políticas Raciais no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Civilização Brasileira, 2007.
[3] http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/so+metade+dos+jovens+de+18+a+24+anos+conclui+o+ensino+medio/n1237778307974.html
[4] Para entender mais sobre o desenvolvimento dos movimentos sociais e sua relação com a democracia, ver: Solzhenitsyn, Aleksander. “Reflexões às vésperas do século XXI”. In: No final do século. Reflexões dos maiores pensadores do nosso tempo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. 

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