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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Em Julho de 2013 eu publicava este texto

A possibilidade de um rompimento institucional
Luciano Alvarenga

As manifestações estão ganhando novos contornos. Das marchas imensas e cheias com tudo e todos, agora estão diluindo em grupos. Sindicatos, centrais sindicais, corporações, movimentos sociais específicos, anarcopunks e ONGs passaram a desenvolver suas agendas de protestos, manifestos e greves, como é o caso da polícia civil de São Paulo que decide em assembleia hoje, 04.07.2013, se entra em greve.
Os manifestos sejam pelo tamanho, pela força e pela contundência e rapidez com que tudo se tornou nacional e urgente, criou um sentimento em amplas parcelas da população de que algo precisa ser feito e rápido. Esse sentimento expressa a realidade de um país onde as instituições fundamentais estão em colapso.
O congresso ilhado e envolvido apenas consigo mesmo, tornou-se um grande balcão de negócios. O executivo federal alimenta a maior base de apoio partidário do mundo democrático e com isso acabou com a oposição (vide o caso estarrecedor de que o vice-governador de São Paulo/PSDB é ministro do governo Federal do PT). O sistema educacional federal e estadual(is) está completamente sucateado, as escolas foram transformadas em grandes sistemas de encarceramento infanto-juvenil. O sistema prisional está dominado por facções criminosas que comandam todo o sistema dentro dos presídios e nas ruas, chegando ao absurdo de que até os governos estaduais precisam negociar com eles. A justiça está paralisada pela lentidão, pela burocracia, pela falta de pessoal, e pela casta de juízes, desembargadores e outros que ganham milhões para deixar tudo como está. A saúde pública é ruim, os médicos são mal formados e ganham insuficientemente e estão concentrados em áreas mais desenvolvidas, no mais o sistema está sendo rapidamente privatizado. O sistema de transporte público no país é dominado por meia dúzia de mega empresários que sangram os cofres públicos enquanto a população é transportada como gado pelas cidades brasileiras. O sistema tributário brasileiro pune o pobre fazendo dele o grande pagador de impostos da nação, enquanto os ricos e milionários pagam menos quanto mais ricos ficam. Citei apenas algumas e principais instituições e áreas da vida pública no Brasil, existem mais e em situação tão grave quanto. Esse é o pano de fundo de tudo o que esta acontecendo nas ruas hoje.
Enfim, as instituições no Brasil estão em colapso é falência múltipla de órgãos, para usar um jargão médico.
Ora, o que isso significa para além do óbvio. Significa que podemos caminhar dentro do contexto de rebeldia civil e democrática em andamento, para uma crise institucional. E por quê?
Depois de dez anos de paralisia dos movimentos sociais e sindicais, resultado da política de cooptação do governo petista, associado ao mega presidencialismo de coalizão que mais e mais desvitaliza o sistema democrático com a inanição forçada da oposição, o que temos agora é a violenta emergência de todas as demandas sociais reprimidas e que se esquentava no caldeirão da falência institucional do país. Rancores, ressentimentos, raivas e ódios cultivados ao longo de mais de vinte anos de uma política social e econômica no governo federal e Estadual, especialmente em São Paulo, de privatizações, precarização dos serviços públicos, criminalização de demandas sociais aliado a juros escorchantes e superávits primários obscenos resultaram no fato de que o que se quer é mudança e é agora.
Mas como mudar tudo o que se pede nas ruas se as instituições onde é possível que isso seja feito estão em colapso? Como mudar se as coisas estão como estão justamente por que é fruto de uma escolha política feita nestes últimos vinte anos pelo PSDB e pelo PT? As coisas não estão ruins por que nada foi feito, estão ruins por que foi decidido que assim seria. Atender as demandas das ruas é o mesmo que mudar a direção política tomada nestes últimos 20 anos. O colapso vivido no país é fruto de uma direção política que atende ao capital financeiro. Esse é o tipo de coisa que não se muda por que o povo foi pra rua, vide o caso da Europa.
Essa é a crise fundamental que pode desaguar num rompimento institucional.

Como mudar rápido e sem tempo aquilo que precisa ser mudado com cuidado e serenamente? O povo rompeu o silêncio, o poder foi desmascarado e o que temos é um impasse. Se as medidas tomadas pelo poder político não forem suficientes e não serão, o que fará o povo? E o que fará o poder?

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