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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Funk Ostentação deu a letra do Rolezinho

Luciano Alvarenga
Lembro-me que depois de 1994 e, a estabilidade da moeda brasileira construída em torno do Real, uma sensação muito clara de que nada mais acontecia. Apesar do fato extraordinário da estabilidade econômica, o Brasil estava inerte, parado, sacolejava ao balanço das privatizações sem que elas mesmas resultassem em algo maior.
Nada mais há de distinto daqueles anos de 1990 do que os dias de hoje. Não apenas pelas transformações, ainda incompletas e, prementes de que sejam completadas, mas fundamentalmente pela força, energia, calor e entusiasmo que percorre o país.
Dos Manifestos de Junho, em 2013, até agora, os Rolezinhos, o que temos é o novo e sua contundência emergindo, das periferias, das escolas públicas, dos bairros pobres e da invisibilidade. E isso nada tem com a esquerda, ação política; os rolês não são expressão de nenhuma ação política. Podem ser transformados e, já estão, em ação política, mas não foi assim que vieram à luz dos shoppings. Importante: junho de 2013 e rolezinho nada têm em comum.
Trata-se apenas de uma molecada interconectada nas redes sociais se apropriando da cidade e, de seus espaços simbólicos e, o shopping é o maior deles. Depois dos anos lulistas de consumo e cidadania via mercado, cantados, inclusive, nas letras do Funk ostentação, não ia demorar a esta gente toda mostrar sua cara.
A ação dos rolezinhos não é de esquerda e, a reação da boa gente frequentadora dos shoppings foi de enorme preconceito de classe. Os invisíveis apareceram, e apareceram como são, milhares. De repente os usuários comuns e cotidianos dos shoppings assistiram e, não gostaram, uma gente toda, molecada digital e amante das marcas, expondo seus desejos e vontades tais como são cantados pelo Funk Ostentação.
Foi a ostentação cantada por ídolos adolescentes do funk e mostrada de fato em clips maravilhosos, produzidos na periferia de São Paulo e que, ganharam o mundo muito antes de terem sido conhecidos no Brasil, que deu a letra do que está acontecendo agora nos roles que invadem shoppings e lojas.
Não foi a esquerda que colocou, seja lá quem for, nos shoppings. Foram as canções, as letras, os ídolos adolescentes e pobres e, quase pretos, enriquecidos rapidamente nos shows, onde dezenas de milhares de pessoas igualmente pobres se espremiam, e, aprendiam a querer o mundo de coisas, objetos, marcas e ostentação vendidos como ideologia nos anos do governo do PT, Lula, especialmente. Podendo ter, ainda que a granel, aquilo tudo que o governo possibilitava no varejo, foram os adolescentes todos onde tais coisas são vendidas – nos shoppings. Comprar e ostentar é sair da invisibilidade.
MC Daleste, MC Lon, MC Rodolfinho, MC Guimé, entre outros, são os principais artistas e ídolos destes milhares de adolescentes que invadiram os shoppings. Ganhando centenas de milhares de reais por show, com clips na internet batendo na casa de dezenas de milhões de visualizações, imaginar que isso seja coisa da esquerda ou movimento político, no sentido forte da palavra, é forçar a barra.
Se a classe artística de classe média-alta cantava as letras, quase hinos, que embalavam os jovens, nos anos 1960 e 1970, a fazerem política, é agora uma juventude pobre e de periferia que ensina os jovens a querer e consumir e ostentar sem que isso signifique nada, a não ser, acessar – o mercado. Funk ostentação não tem absolutamente nada de politizador.
O outro lado disso é o fato de que até o consumo no Brasil tem identidade de classe. Pobre não pode ter nada, nada comprar. Por que comprar é uma expressão de pertença e, pobre não pertence, é invisível e assim deve permanecer. Funk ostentação diz outra coisa e, convenceu... a comprar, não fazer política. Luciano Alvarenga

PS: pra variar os movimentos sociais e políticos vão copiar os rolezinhos, como as centrais sindicais tentaram copiar os manifestos de junho de 2013.

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