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As razões da esquerda, por Marcelo Miterhof

Enviado por Luciano Alvarenga

Da Folha
Marcelo Miterhof
Assisti no final de 2013 a uma apresentação de um economista heterodoxo em um centro de estudos liberal, numa ocasião incomum de debate econômico plural. Não cito nomes porque o evento foi restrito.
Um competente professor ortodoxo destacou que o baixo desemprego atual não é novidade nem surpreende. Como o mercado de trabalho brasileiro é muito flexível, essa é a regra. A exceção foi a década de 1990, graças à conjugação da abertura comercial ampla (e abrupta, acrescento) com baixo crescimento.
O objetivo era destacar que nos últimos 11 anos não houve um grande feito. Involuntariamente, porém, o comentário ilustrou um dos motivos do sucesso eleitoral do PT: a comparação com os anos 1990, época que em termos de emprego foi pior até que os 1980, a "década perdida".
Vale explorar a ironia da situação.
O Brasil tem, sim, vivido algo novo. Não houve só queda do desemprego, mas distribuição de renda, elevação do salário mínimo e da formalização do trabalho. Ao contrário do que marcou a industrialização no século 20, a lógica foi distribuir para crescer, o que permitiu começar a eliminar o abismo social do país.
Contudo, deve-se dar certa razão ao referido professor. Além da desaceleração dos últimos três anos, tais mudanças ainda são limitadas. Por exemplo, o Bolsa Família, um dos símbolos do período, é uma iniciativa de origem liberal, que visava ser alternativa ao Estado de Bem-Estar Social: garanta uma renda mínima e deixe o mercado resolver o resto. O estrondoso sucesso do programa e a resistência que até hoje enfrenta em parte da elite brasileira são sintomas do atraso nacional.
Por isso, as colunas de 25/7 e 1º/8/2013 tentaram estabelecer diferenças e pontes entre crenças e pensamentos da esquerda e da direita. Hoje, o intuito é aprofundar as razões da esquerda, expor por que o avanço ocorrido é insuficiente.
O objetivo é ter uma sociedade mais igualitária. Os salários precisam crescer mais que os lucros e as rendas. Também precisa despencar o desnível de rendimentos entre trabalhadores braçais e com curso superior. Operários, prestadores de serviços, peões etc. precisam ganhar 40%, 50% ou 60% do que recebem médicos, engenheiros ou economistas, em vez dos atuais 5% ou 10%.
Se é desejável ter incentivos para quem produz conhecimentos ou traz inovações para a sociedade, também é certo que nada no mundo funcionaria não fosse a massa de trabalhadores da base da força produtiva. Assim, grande parte do PIB deve ser partilhada igualmente.
No capitalismo, o esforço igualitário foi feito por meio de instrumentos do Estado de Bem-Estar Social, que incluem a prestação de serviços públicos, como educação, saúde e mobilidade urbana, e uma rede de proteção social associada à previdência e a um robusto seguro-desemprego, além da renda mínima.
Há nisso poderosos efeitos expansivos e econômicos em geral: o consumo massivo induziu novos padrões produtivos e tecnológicos. Mas essa foi uma construção eminentemente política, baseada em ideais progressistas ou premida pelo temor de revoltas socialistas.
Há questões pertinentes quanto à sustentação do modelo. Por exemplo, Letícia Guedes, filha de um amigo diplomata que serviu em Estocolmo, disse que não sabia por que alguém estuda medicina na Suécia, se não vai ganhar muito mais que um atendente de loja. O pai respondeu que não se estuda só por dinheiro.
Claro que se pode discutir e calibrar aspectos do Estado de Bem-Estar Social. No entanto, numa avaliação geral, é certo que isso não tem atrapalhado a igualitária e rica Suécia, que com somente 10 milhões de habitantes criou várias empresas globais: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux etc. (evoé, Myrdal!).
No Brasil, nem de longe se verificam desincentivos ao trabalho. Inibiu-se, sim, a exploração, como a de empregados domésticos, que passaram a poder deixar de aceitar remunerações irrisórias porque precisam obter minimamente a subsistência. Uma sociedade menos desigual favorece as liberdades individuais.
Para dar um novo salto, o país precisa que a distribuição de renda ocorra pelo trabalho. Não bastam desemprego baixo e um bem-sucedido programa de renda mínima. É preciso que se reforcem mutuamente a prioridade política à igualdade e um crescimento robusto, que torne a mão de obra relativamente mais escassa, favorecendo seu poder de barganha.

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