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domingo, 1 de dezembro de 2013

Contra a opinião pública especializada, Diário da Região apoia a retirada dos trilhos

Luciano Alvarenga

A matéria publicada hoje, 01.12.2013, pelo Diário da Região “Rio Preto precisa se livrar da ferrovia”, do meu estimado colega de magistério na Unirp, o jornalista Alan de Abreu, precisa de algumas observações, dada a importância do tema, sua extensão e significado; considerado ainda o trágico acidente que vitimou 8 pessoas nesta última semana, afetando a vida, por extensão, de dezenas de outras famílias.
Não é a primeira matéria do Diário que eu comento, quase sempre discordando ou, apontando outras direções possíveis, tenho observado que a maioria delas, nos últimos tempos, é da pena do meu colega de magistério Alan de Abreu (sempre encarando os temas espinhosos), que eu peço seja generoso comigo e contra argumente caso perceba ser necessário. Então vamos lá.
A matéria faz uma série de ilações possíveis de acidentes eminentes e, que teriam contornos trágicos caso viessem a ocorrer. É bom dizer que tais ilações são possíveis em qualquer área, local ou assunto. Por exemplo, qual o impacto no aumento da criminalidade e violência na cidade, tendo em vista todo o dinheiro, milhões anualmente, desviado pela corrupção no poder público? Estudantes que não estudam, escolas abandonadas, profissionais que não se formam, IDH que não sobe, aumento do alcoolismo, tudo isso poder ser considerado como consequência da corrupção.
Digo isso, por que no sétimo parágrafo, está escrito:
Essa análise, baseada em acidentes similares, é superficial, ressalta o engenheiro químico da Unesp José Eduardo de Oliveira, especialista em combustíveis. “Um estudo aprofundado levaria cerca de três meses para ficar pronto”, afirmou. “Rio Preto precisa se livrar da ferrovia”, Alan de Abreu, Diário da Região, 01.12.2013.
Se a comparação “é superficial”, não é possível se basear nela para discutir a questão. E todo argumento baseado na fragilidade de uma comparação superficial não pode ser levado em conta pra decisões dessa importância e magnitude.
Parece-me não haver nenhuma objeção sobre a retirada dos trens de carga do centro da cidade, pelo menos não há nenhuma figura pública que defenda isso abertamente. A questão em discussão são os trilhos, retirá-los ou não.
Aqui, não ficou claro na matéria do Diário o que se desejou com ela. A ideia é fornecer argumentos pra discussão no sentido de tirar o trem de carga, ou, para retirar os trilhos? Ou pra tudo isso junto?
A julgar pelo título da matéria, a ideia é retirar os trilhos. Mas a matéria em si não traz uma linha, clara, nesse sentido. Isso significa dizer que, o Diário não consegue assumir abertamente que apoia a retirada dos trilhos. Mas por que diante de todo o debate em torno do transporte público e sua fundamental importância pra este século, o Diário apoia a retirada dos trilhos, quando eles são fundamentais para se possibilitar outro modelo de transporte público em Rio Preto? Por que o Diário se coloca numa posição de claro anacronismo? Vejamos.
Ora, chamar a atenção pra todas as mortes e acidentes ambientais possíveis em função de um acidente com trens dentro da cidade, é avaliar metade do problema. Quantas pessoas morrem por ano na cidade em função de acidentes de trânsito? Quantas ficam inválidas, ou com graves problemas motores, afetando drasticamente suas vidas e de suas famílias? Lembremos que morrem mais gente em acidentes de trânsito no Brasil, anualmente, do que morreram de soldados na primeira guerra do Iraque.
Nunca vi nenhuma matéria, em veículos de mídia autorizada, afirmando que os acidentes de trem são uma das causas da tragédia ambiental global. Mas sobre os carros e que são o câncer das cidades e, grandes causadores do efeito estufa, vejo todo dia.
Chamo a atenção pra o fato de que o Diário trata um problema como se fossem dois. Primeiro problema, os trens de carga passando por dentro da cidade. Segundo, os trilhos. O primeiro é um problema e precisa ser resolvido urgentemente. O segundo não é problema, mas solução. Os trilhos estão ai, são investimentos públicos pagos pela sociedade, nossos antepassados, e que não podemos descartar como se fossem quinquilharias sem valor, não são. Mais, é um valor elevado a outra potência, tendo em vista que se tornou uma resposta pra um problema grave, trânsito. Desconsiderar isso é antirrepublicano, antidemocrático e um crime de lesa-cidade.
Uma última questão.
Os jornais impressos foram durante décadas os grandes formadores de opinião no país, a queda do Collor em 1992 é uma evidência inconteste da força da imprensa nesse sentido. Derrubar o Collor criou na imprensa o cacoete de imaginar que pode fazer quando quiser. Tentaram em 2005-2006 com o Mensalão, não conseguiram. É vaidade do poder.
Tenho a impressão que o Diário precisa saber se consegue convencer a opinião pública a respeito desse tema, “retirar os trilhos”. Uma espécie de diapasão para saber se ainda domina a arena do debate público. Luciano Alvarenga


Cidades


› Tragédia do Jardim Conceição


Rio Preto precisa se livrar da ferrovia



Allan de Abreu

Belisário/Editoria de Arte

Levantamento revela necessidade urgente de se fazer o contorno ferroviário

O acidente de trem que matou oito pessoas e feriu outras sete há uma semana no Jardim Conceição, em Rio Preto, poderia ter dimensões ainda mais trágicas caso as composições transportassem combustível em vez de milho. O que está longe de ser um delírio, já que pela linha passa diariamente ao menos um conjunto de vagões com gasolina, etanol e óleo diesel, segundo a ALL, concessionária da via.

Três pontos são especialmente sensíveis nos 16 quilômetros de estrada de ferro que rasgam o perímetro urbano: estação ferroviária, vizinha à rodoviária, o polo de combustíveis no Parque Industrial e a Represa. Com o auxílio de especialistas, Corpo de Bombeiros e Cetesb, o Diário fez a projeção do descarrilamento de uma composição com 60 vagões carregados de combustível (gasolina e etanol) nos moldes do que ocorreu no Conceição.

No terminal ferroviário, a explosão de 2 milhões de litros de combustível afetaria dois quilômetros quadrados no entorno. Quem estivesse na rodoviária, ao lado, dificilmente não sofreria alguma consequência. Não seriam poucos: circulam diariamente cerca de 8 mil pessoas pelo local.

A Vila Maceno, onde residem 14 mil rio-pretenses, também seria afetada, não pelo fogo, mas com a onda de choque, decorrente da pressão no ar causada pelas explosões, com milhares de feridos. A Praça Cívica e a estação seriam varridos do mapa. “Seria uma catástrofe inimaginável, sem precedentes no País”, disse o técnico em Defesa Civil José Carlos Sé.

A projeção baseia-se em acidente similar ocorrido no interior do Canadá em julho deste ano, quando uma composição com 72 vagões carregados com combustível descarrilou e explodiu. Sessenta pessoas morreram na hora, e 80 ficaram feridas em Lac-Mégantic, cidade de 5,9 mil habitantes.

Mas o suposto acidente próximo à rodoviária ainda seria pequeno se comparado a um descarrilamento seguido de explosão de um trem idêntico no polo de combustíveis do Parque Industrial. A explosão dos vagões e dos tanques, onde estão armazenados cerca de 10 milhões de litros de combustíveis, afetaria uma área de 12 quilômetros quadrados, onde residem 60 mil habitantes. Bairros populosos, como o Parque Industrial, a Boa Vista e parte do Eldorado poderiam ser atingidos.

Essa análise, baseada em acidentes similares, é superficial, ressalta o engenheiro químico da Unesp José Eduardo de Oliveira, especialista em combustíveis. “Um estudo aprofundado levaria cerca de três meses para ficar pronto”, afirmou.
Pierre Duarte
Apenas 84 metros separam a linha férrea da Represa no Soraya
Trem na Represa deixa a cidade exposta a colapso

Se o mesmo acidente que aconteceu no Jardim Conceição ocorresse nas proximidades da Represa Municipal, responsável por 26% do abastecimento de água da cidade, haveria um verdadeiro desastre ambiental caso os vagões estivessem carregados com combustível. É o que afirmam especialistas consultados pelo Diário.

Os vagões que passam por Rio Preto transportam principalmente três tipos de combustíveis, gasolina, diesel e etanol. Em caso de acidente no Jardim Soraya (84m entre a linha e a água) ou na Swift (62m), por exemplo, possível vazamento causaria suspensão na captação por pelo menos três meses. Cerca de 100 mil pessoas seriam diretamente atingidas. E toda a cidade sofreria com o racionamento de água. É o que afirma o biólogo Arif Cais, da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) de Rio Preto.

“Fora o desabastecimento de água, as espécies que vivem ao redor da Represa também seriam afetadas. Peixes morreriam, pássaros mudariam de habitat e as capivaras sofreriam com a falta de água potável”, explica o biólogo. Para o gerente regional interino da Companhia Ambiental do Estado (Cetesb), Daniel Mario Gomes Pinto, a gasolina seria a pior das hipóteses. “Esse combustível não é miscível (misturável) em água e é tóxico, demandaria uma série de ações para evitar ao máximo o escoamento na represa e a formação de barreiras para a retirada do produto”, explica o gerente.

Caso os vagões estivessem carregados com etanol haveria o dano ambiental, com a morte de peixes e desabastecimento, mas em menor tempo. “O álcool se dilui facilmente na água e não é tóxico”, explica Gomes Pinto. Para o especialista o diesel seria o combustível que causaria menos problemas, já que trata-se de um óleo que fica na superfície da água e pode ser retirado com bomba de sucção.

“Todas as alternativas são ruins para o meio ambiente e demandariam ações de emergência de vários órgãos. Para que isso não ocorra é preciso que as normas de segurança sejam respeitadas e que haja interação entre os agentes públicos e a empresa responsável”, afirma o gerente da Cetesb. Procurada, a ALL, responsável pela ferrovia, não quis comentar o assunto.

Dos 3 exemplos, um já aconteceu

Dos três exemplos usados nas projeções de riscos de acidentes feitas pelo Diário nesta edição - Parque Industrial, Centro e Represa -, comparando com o contexto da tragédia do Jardim Conceição, um efetivamente já aconteceu. Foi em 2008, no Parque Industrial, quando uma batida de dois trens causou incêndio de 12 horas. Diomar Ramos Trindade, 42 anos, lembra o acidente causou um incêndio que durou 12 horas para ser controlado.

“Estamos no meio de um barril de pólvora, não precisa muito para que esse tipo de acidente aconteça. Em 2008, eu escutei o barulho do vagão explodindo e fiquei sem reação. Achei que fosse morrer”, conta o rapaz. No acidente citado por Trindade 15 mil litros de diesel queimaram e outros 20 mil vazaram do tanque, contaminando o córrego Piedade e o rio Preto.

“Moro aqui faz 62 anos e morro de medo. Toda vez que o trem passa para abastecer os vagões com combustível eu fico apreensiva, tenho vontade de me mudar, mas eu tenho problemas no coração e cuido de dois filhos, doentes. O jeito é conviver com o medo”, afirma a aposentada Carmem Ramos Torres, 71 anos, que mora no Parque Industrial, na frente da base de combustíveis dos postos Ipiranga, na avenida Cenobelino de Barros Serra.

Soraya

No Jardim Soraya, onde o trem passa ao lado do lago 1 da Represa Municipal, moradores e mãe de alunos especiais que são atendidos pela Associação Renascer também sofrem com a proximidade da linha férrea. “O trem passa muitas vezes por aqui e quando vem, treme tudo. Enquanto meu filho está na associação eu não fico calma, a linha passa muito perto.

Com o acidente que aconteceu esses dias o medo só cresceu ainda mais”, afirma a dona de casa Kátia Joana Martins Garcia, 26 anos, sentada de costas para a linha férrea aguardando a filha que estava em atendimento na associação. Os trilhos em Rio Preto têm 16 quilômetros de extensão e colocam em risco pelo menos sete mil pessoas que moram nas proximidades.

Conserto na linha deve terminar neste domingo, 1º

Deve terminar neste domingo, 1º, a reforma da linha férrea no Jardim Conceição, em Rio Preto. No entanto, os trens só voltam a circular na via após autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o que deve ocorrer hoje ou amanhã. De acordo com a assessoria da ALL, no período de 72 horas a partir da liberação da ferrovia devem passar uma composição a cada 20 minutos, para dar fluxo nos cerca de 800 vagões que estão parados na região.

Os trabalhos de reparo na linha começaram na noite de sexta-feira, após a Polícia Federal periciar o local e a ALL firmar um termo de ajustamento de conduta com os moradores do bairro. No acordo, a concessionária prometeu uma série de melhorias para garantir a segurança do trecho próximo ao Jardim Conceição, onde a velocidade das composições deve ser de 25 quilômetros por hora, conforme estabelecido pela ANTT. Serão trocados ainda todos os dormentes na área de mil metros antes e mil metros depois da área.

Em Aracaju, a pior das tragédias

O acidente em ferrovia mais grave no País ocorreu no dia 7 de março de 1946 em Aracaju, Sergipe, quando 185 pessoas morreram no descarrilamento de uma composição em alta velocidade. Proporções incomparáveis com a batida de locomotivas incendiadas no Parque Induistrial, em 2008. No Estado de São Paulo, o mais trágico aconteceu em fevereiro de 1987 em Itaquera, zona leste da Capital, quando dois trens de passageiros se chocaram - um deles não respeitou a sinalização de pare. Morreram 58 no total.

No mundo, o pior acidente de trem da história ocorreu em dezembro de 2004 no Sri Lanka, Ásia. 1,7 mil morreram no descarrilamento de um trem, provocado por um terremoto. Antes, em junho de 1989, 575 morreram quando a explosão de um gasoduto atingiu dois trens na Transiberiana, a maior ferrovia do mundo, na Rússia. Em 2002, 383 morreram no incêndio de um trem no Egito.

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