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sábado, 23 de novembro de 2013

A Escola Pública na Faculdade

Luciano Alvarenga
Os alunos das escolas públicas brasileiras chegaram ao ensino superior privado, e nestas, eles são algo em torno de 90%, pouco mais ou menos dependendo da região e faculdade. Há duas décadas estudar numa IES particular era quase impeditivo dado os preços e a impossibilidade econômica dos alunos das escolas públicas. Hoje como sabemos, e em função de tudo o que vem acontecendo no país, o fato é que eles estão saindo com seus canudos na mão.
Isso significa dizer que uma parte significativa da realidade da escola pública, mais propriamente seus problemas, se transferiu junto com os alunos às IES particulares. Precária formação, falta de disciplina para o estudo, falta de hábitos ligados a leitura, dificuldade em abstrair, traumas relativos às dificuldades em sua vida escolar pregressa, etc. Os professores e as instituições particulares sabem que seu aluno mudou nestes 20 anos, não é mais o filho classe média alta tradicional, mas agora o aluno classe média baixa, filhos de pais que na maioria das vezes não possuem escolaridade superior, nem a cultura a ela atrelada.
A questão é: como lidar com esse fato. Em primeiro lugar é aceitar como dado da realidade a precariedade da situação. O caminho da Educação no Brasil em todos os níveis é esse, e ele é precário. Estes novos alunos são o Brasil atual da dobradinha FHC/Lula. Evidentemente que a política de todos no ensino superior significará em uma década e meia um mercado de trabalho abarrotado, desvalorizado, com dificuldades crescentes, do lado dos formados, para ingressar de maneira estável numa vida profissional. Isso é um dado da realidade enquanto a política do governo Federal continuar sendo essa.
A grande questão no dia a dia de sala de aula é como se adaptar a essa realidade. Em primeiro lugar fugindo da ideia de que seja possível corrigir em 4 ou 5 anos todo um histórico de deficiência escolar que não foi resolvido nos níveis anteriores. O que está ruim não pode ficar bom num nível de ensino em que o que ocorre é a especialização do conhecimento. Eles deverão ser reprovados? Não, por que isso contraria duas verdades: não se pode reprová-lo por algo que ele não aprendeu no passado e que o impede de aprender melhor o que é dado agora. Em segundo lugar, é o fato de que a estruturação do ensino num modelo privado massificado como o nosso, reprovação é simplesmente punir alguns por uma política de ensino governamental que visa formar e não preparar.
O que está acontecendo no Brasil agora é a mesma coisa que aconteceu na Europa do pós-guerra. O desenvolvimento econômico levou todos à faculdade, para depois dos anos 1980 até agora, estas mesmas pessoas serem subempregados num mercado de trabalho que não absorve todo mundo. O desenvolvimento tecnológico, a globalização da economia e da cultura da modernidade vem provocando, por movimentos que lhe são internos, a crise das profissões liberais. Nesse sentido, todas as profissões que demandavam um conhecimento específico e teórico qualificado como medicina, odontologia, psicologia, jornalismo, docência, fisioterapia, advocacia, enfermagem, administração, economia, tradução, arquitetura, e todas as outras entraram em crise.  A crise, diga-se, é apenas a de desvalorização e perda de status, não de desaparecimento, que está se dando apenas em um ou outro caso. Assim como muito poucos eram os que se formavam no ensino superior antes e, portanto, gozavam de prestígio e valor monetário, convivendo com uma mão de obra desqualificada e numerosa que não tinha prestigio e era baixamente remunerada; o que temos agora é uma mão de obra qualificada se tornando numerosa, e por consequência perdendo valor monetário e subjetivo, ao lado da mão de obra desqualificada (aquela da mão na massa) que vem recebendo grandes incrementos de ganho salarial e de valor subjetivo em função de que são poucos e cada vez menos, num mercado precisado de profissionais que sabem como fazer as coisas.  
O ensino no Brasil no seu nível superior está apenas se adaptando a entrada em massa de uma juventude ansiosa por formação universitária. Ensino universitário que se não garante nada nem nenhum sucesso a ninguém, por outro lado, sua ausência é garantia certa de fracasso profissional e biográfico. O que os professores e profissionais que lidam com educação precisam ter entendimento é que o movimento de massificação do ensino superior é uma onda que prescinde da qualidade teórica específica à cada área.

Este fenômeno em andamento no Brasil já aconteceu na Europa pós-guerra e no EUA com suas especificidades. Isso para termos claro que não é apenas a Copa que está vindo para o Brasil. Luciano Alvarenga

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