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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Transformando Rio Preto num lugar ruim, para vender o “bom”

Luciano Alvarenga

O boom imobiliário que vive o interior de São Paulo e, grande parte de todo o país, deveria ser comemorado, mas na verdade traz grandes preocupações. Os empreendimentos imobiliários em instalação em cidades como Rio Preto, entre outras de porte médio como São José dos Campos, Ribeirão Preto e outras, ao invés de se darem a partir daquilo que significa uma cidade média do interior, reproduz por aqui um conceito de moradia e vida coletiva que fala mais de grandes centros como São Paulo do que com aquilo que de fato é uma cidade como Rio Preto.
Baseados num padrão de violência aqui inexistente; numa cultura de exclusivismo social ainda prematura e restrita a uma parcela muito pequena da população; numa geografia urbana gigantesca e que aqui se desconhece, tendo em vista nossa cidade ter uma espacialidade relativamente pequena e que, portanto, torna tudo quase perto; em padrões econômicos per capta sabidamente altos para a realidade local; num medo social criado artificialmente; enfim, baseados numa realidade completamente avessa e estranha a realidade de Rio Preto, é que incorporadoras, construtoras e imobiliárias estão transfigurando a face da cidade com empreendimentos na área de moradia, que deixará atrás de si um rastro de problemas e uma cultura de convivência social que é o oposto do que se tem desenvolvido e buscado em inúmeras cidades mundo afora.
Chamo a atenção para o fato de que o que se busca nestas cidades mundo afora é exatamente aquilo que cidades como Rio Preto sempre tiveram. Qualidade de vida, segurança, convivência social, relativo equilíbrio sócio econômico. Os projetos padrão classe média e alta à venda em Rio Preto hoje e, por todo o interior do Estado, são projetos velhos que foram vendidos em cidades como São Paulo duas ou três décadas atrás. Isso em função do fato de que hoje em São Paulo a pegada imobiliária vai em outra direção. O interior do Estado tem aquilo que São Paulo, como outras grandes cidades como Nova York, Paris tenta fazer; criar a partir da intervenção arquitetônica e projetos de urbanismo, sociabilidade, caminhabilidade, proximidade, sustentabilidade, cultura do e no local, transporte coletivo, ciclovia, culturas de tipo rural como hortaliças, frutigranjeiros, flores e ornamentais e por ai vai. Se Rio Preto não tem tudo isso, certamente está mais perto de ter do que uma cidade como São Paulo. Mas em que direção estamos indo?
A indústria da construção e imobiliária, ou o que eu gosto de chamar de esquartejadores de cidades, tentam vender e, estão conseguindo - inclusive com o apoio do poder público, incluído aqui prefeitos e vereadores que a soldo bem pagos, aprovam projetos que tornam a cidade aquilo que eles, poder público, deveria impedir que acontecesse – respostas e soluções para problemas que aqui inexistem, ou, existem em tamanho que pede outro tipo de intervenção que não a mudança dos padrões de convivência social de cidades como Rio Preto.
Vendem caríssimo, e completamente fora dos padrões locais, produtos desnecessários que só fazem sentido e sucesso a golpes fortíssimos de marketing e publicidade que, quanto mais sofisticados na forma, menos interessam no conteúdo. O que vemos depois disso são as pessoas tendo que lidar com problemas que elas não possuíam. Vide o caso das milhares de pessoas moradoras dos condomínios em torno de Rio Preto, que enfrentam diariamente um trânsito pesado pra irem ao trabalho ou levar seus filhos à escola, quando à duas ou três décadas moravam no centro da cidade e perto de tudo. Nos condomínios, comprar um pão e um leite significa uma maratona de horários, lugares e ruas que precisam ser previamente pensadas, dado o fato de que ninguém tem disposição de uma vez dentro de casa, sair para comprar um pão a quilômetros de distância. Por que saíram do centro? Por que o centro foi pouco a pouco abandonado pelo poder público, pelos políticos quero dizer, que incentivado$ pela iniciativa privada, rifaram as áreas rurais ao entorno da cidade para a construção do sonho da moradia segura, os condomínios.
Condomínios são lugares longínquos, distantes de tudo que interessa a vida da maioria das pessoas, padaria, farmácia, açougue, supermercado, barzinho, uma rua cheia de comércio e de gente indo e vindo, mas... O condomínio tem segurança. A segurança poderia ter sido conquistada de outras maneiras, caso a sociedade brasileira e o poder público quisesse, que não construindo feudos medievais.
A pergunta é: o que mais Rio Preto vai abrir mão, de tudo de bom que ela já tem, e que cidades mundo afora tentam reconstruir, para morar nestes empreendimentos imobiliários cheios de conceitos “novos”? Luciano Alvarenga

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