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Protestos no Rio e em São Paulo

Minha análise:

1) A violência já foi incorporada como elemento constitutivo das manifestações públicas desde julho deste ano;
2) A ausência de diálogo ou negociação consistente das autoridades públicas (incluindo parlamentares) com manifestantes de junho legitimou o discurso que sustenta que nosso sistema político ignora os cidadãos e não representa ninguém. Nas redes sociais a legitimação de atos de confrontação e violência foi se multiplicando;
3) O apoio do SEPE ao Black Bloc é apenas o primeiro sinal público do que já ocorria nos bastidores. Está em curso um processo de aliança de militantes da ação direta e segmentos da esquerda tradicional;
4) Black Bloc não é uma organização, mas uma tática internacional que envolve anarquistas denominados de "especificistas", ou seja, inseridos em movimentos sociais e em militância política;
5) O ideário anarquista emergiu de junho para cá. São muitas vertentes, desde anarcopunks e harcore, veganos e especifistas. Intervenções públicas - ocupação de espaços vazios (como prédios e viadutos), shows espontâneos, troca de objetos e piqueniques - se multiplicam pelos centros urbanos envolvendo jovens de classe média e periferia. O conflito aberto e a autogestão de espaços públicos são elementos centrais desta prática juvenil que parece ter atraído parte da juventude filiada até mesmo em partidos de esquerda de tradição leninista ou trotskista, mesmo revelando um contrasenso;
6) Nos atos de depredação há diferenças entre as ações anarquistas e aquelas não anarquistas (alguns espontâneas, de jovens da periferia revoltados com o tratamento da PM e dos órgãos públicos, outros, nem tanto). A grande imprensa não consegue informar corretamente e joga o bebe com a água do banho. Desta maneira, não se percebe que a solução para parte deste conflito aberto em meio à persistente escalada de manifestações e protestos urbanos não é exatamente a policial;
7) O despreparo dos políticos profissionais parece evidente. A maioria se cala. Não fazem seu papel, que seria de mediação. Os anarquistas não são clandestinos, embora assinem manifestos com pseudônimos que remetem a um personagem coletivo, como é o caso de Luther Bisset. Mas eles possuem locais de encontro e organizam eventos públicos. Não dialogar é o mesmo que negar o papel das instituições políticas.

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