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O fim do jornalismo impresso

O fim do jornalismo impresso, na conversa com Ramonet

sex, 11/10/2013 - 16:46 - Atualizado em 11/10/2013 - 19:07

Luis Nassif
Antes de ontem à noite participei de um debate com Ignacio Ramonet, editor do histórico “Le Monde Diplomatique” e autor de alguns livros de repercussão mundial, sobre as mudanças na mídia com o advento da Internet.

Nos debates, foi-lhe perguntado se acreditava no fim do jornal impresso. Sua resposta foi, digamos, algo política. Crítico de arte, enveredou pela música clássica. Mostrou que o advento da música moderna não acabou com a ópera.

Na sua opinião, o papel continuará existindo, mas perdendo expressão. Com menos consumo de papel, haverá menos produção por parte das empresas. E, com menos produção, o custo ficará mais caro e inviabilizará mais jornais. Mas os jornais de papel continuarão existindo.

O fim do papel
Definitivamente, não continuarão.

O primeiro fator são os custos versus a audiência.

Não há termo de comparação de custos. O jornal impresso exige gráficas pesadas e estoques de papel como se fosse uma indústria; estrutura de distribuição como se fosse um atacadista, colocando os produtos diariamente em centenas de milhares de assinantes e em milhares de bancas.

O jornal digital acompanha o assinante em qualquer local que acesse a Internet. O conteúdo não  tem limitações de espaço. Tem o hiperlink para remeter a documentos, matérias maiores e outras referências. Pode exibir podcasts e vídeos. Tem a interatividade.

As novas gerações já aboliram o papel das suas leituras. E as que se formaram na era do papel gradativamente rumam para as plataformas digitais, imensamente superiores no plano tecnológico. É um espanto a variedade de pessoas de mais idade aderindo entusiasmadas às redes sociais.

É um ambiente em que se chega, primeiro, e se monta o cadastro. Nos dias seguintes, começam a aparecer parentes desaparecidos, amigos de infância, a primeira namorada, o colega de bar. Junto com ele, o novo mundo traz notícias, indicações de amigos, temas de interesse.  E, para os leitores mais qualificados, um universo de opiniões sem paralelo e sem a compartimentalização do papel impresso.

Por todos esses fatores, em prazo relativamente curto será impossível a sobrevivência do jornal impresso. Todos irão para o meio digital, no qual será muito mais difícil o controle do mercado de opiniões – como ocorre hoje em dia.

Um segundo ponto levantado no debate é sobre as mudanças no jornalismo tradicional.

As mudanças no jornalismo
Crítico de artes, mais do que jornalista, Ramonet explicou que o enfraquecimento das empresas jornalísticas está levando ao fim da reportagem geral e da reportagem investigativa. Segundo explicou, grassa guerra terrível na África e nenhum grande veículo enviou seu correspondente. Do mesmo modo, nenhum veíulo irá amarrar um repórter por semanas e semanas para uma reportagem investigativa.

Ousei discordar do mestre.

Hoje em dia há possibilidades muito maiores de grandes reportagens e de reportagens investigativas de fôlego. Há bancos de dados de todos os tipos, ferramentas permitindo cruzamento de nomes, de empresas, acesso a documentos perdidos aqui e no exterior. Em um dia, um bom repórter levantará mais dados relevantes do que em dois meses de investigação no modelo antigo.

É questão de tempo de aprendizado para o novo padrão se impor.

Os filtros
Uma das questões centrais foi sobre a falta de filtros na Internet. Quem pode assegurar a veracidade das notícias? Antigamente, os jornais cumpriam esse papel. Nos últimos 20 anos, com a mistura de ficção e jornalismo no eixo Rio-São Paulo, esse filtro deixou de existir.

O novo filtro não será exclusividade dos jornais. Para cada tema relevante, haverá um site, blog ou comunidade de especialistas opinando e se tornando a referência do tema.

No jornalismo tradicional, para tratar da infinidade de temas, sem ser especialista, o repórter definia “fontes” confiáveis, No vasto mundo da Internet, a confiabilidade será dada por associações, especialistas. Os novos veículos organizarão suas notícias e análises tendo esses referênciais como parâmetro.

Há implicações profundas na política econômica, nas políticas públicas de maneira geral, na influência sobre o Legislativo e o Judiciário.

O mercado de opiniões
Ponto central de discussão foi sobre as mudanças no jornalismo trazidos pela Internet. Ramonet não considerou significativas as formas de colaboração online, de leitores mandando fotos e reportagens pela web.

De fato, não são.

O que existe de significativo vai muito além dos instantâneos.

Um dos pontos significativos é que a Internet implode a hierarquia de opiniões sustentada pelos jornais – como bem lembrou o comentarista Assis Ribeiro em comentário publicado hoje.

O mercado das ideias têm estranhas hierarquias, mais ligadas ao marketing da notícia do que propriamente à profundidade das análises.

A palavra impressa confere um peso desproporcional ao seu ator. Antes, um artigo de colunistas fast-foods acaba tendo mais peso do que a opinião de um cientista social, um analista político, um professor de direito. A cada dia que passa, pesa menos.

A Internet possibilita um embate no qual os colunistas fast-foods são confrontados com os blogueiros mais aguerridos. E ambos estão no mesmo patamar hierárquico, discutindo de igual para igual. A blogosfera conseguiu tirar o colunismo de um falso pedestal e traze-lo para o embate diário dos blogs.


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