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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Geração que não ouve não

Luciano Alvarenga
Antes de terminar o primário, a maioria dos alunos já terá participado de pelos menos umas três ou quatro formaturas. Formatura do berçário, do jardim 1, jardim 2, do prezinho 1, prezinho 2 e por ai vai. Quando eles chegam à faculdade estão com saco cheio de escola, grades curriculares, conteúdos, provas, testes e principalmente, acham formatura
uma babaquice. Pra isso basta ver como a formatura para alunos da faculdade nada significa. A formatura na faculdade deveria ser “O momento”, hoje é mais uma formatura sem mais nenhuma importância. Isto é, o momento que deveria ser o mais importante, um marco, uma celebração, uma conquista, é apenas mais um, o último.
Isso é parte da transformação de tudo em mercadoria; dá tentativa de encher de importância coisas que não tem importância alguma. Qual importância de uma formatura no pré-primário? Nenhuma. Na vida de uma criança nesta idade, tudo é uma grande descoberta e é importante em si mesmo, independente de uma formatura. Mas as escolas, os donos das escolinhas, e tutti quanti, precisam dar importância há algo que ninguém dá importância realmente, a escolinha. Aqui entra a formatura, a bequinha, o canudo, o diplominha, tudo pra dar ares nobres à nobreza que as pessoas não reconhecem sem a formatura.
Então vamos entender o que isso significa.
Chama a atenção nos alunos atualmente, os universitários, por exemplo, como eles têm uma enorme dificuldade de lidar com a reprovação, com o não, com o apontamento dos seus limites e dificuldades. Dizer a um aluno que o trabalho, prova ou, qualquer outro teste que ele fez está ruim, mal feito, não atende as exigências mínimas de qualidade acadêmica é quase sempre entrar num túnel sem previsão de saída, de discussões, debates, argumentos, cara feia, desculpas esfarrapadas, quando não termina na sala de coordenação, revisão de prova por uma banca de professores e uma chateação imensa.
Tem uma geração inteira de quase adultos que não aceitam ser reprovados. Não conseguem lidar com seus problemas, não assumem as próprias deficiências, e tem pavor de que os professores digam que eles não são os que as escolinhas disseram a eles que são, lindos, maravilhosos, inteligentes, e com um futuro brilhante. Eles foram chamados de maravilhosos e sumamente inteligentes antes de se tornarem, antes de lerem, de estudarem, de se dedicarem, de aprenderem, de ralarem, de trilharem o caminho muito difícil e complicado até serem de fato inteligentes e maravilhosos. Como se formaram, nas escolinhas, antes de terem acesso ao mundo do conhecimento, da razão e dos livros, agora pensam que são especiais. E como dão trabalho!
Professores perdem um tempo imenso em sala de aula, dando voltas e mais voltas com meias palavras, explicações, justificações pra dizer aquilo que deveria ser dito apenas: “isso está mal feito, refaça”; “você não tem competência pra ser formar”; “sua monografia é um plágio”; “você não sabe o que está dizendo, vá estudar”. Estas frases são impronunciáveis e, se forem, podem terminar em processo, abaixo assinado, intimidação e uns tapas na cara dependendo do tamanho do aluno.
É claro que quem mais perde com isso são os próprios alunos, que passam a vida na escola sem dimensão do tamanho de sua ignorância e, saem dela com diploma, achando que é, aquilo que o diploma diz que são.
Outro lado disso é o fato de que os professores deixam, com passar do tempo, de agirem como precisam e devem, formando, preparando, cobrando, lapidando. Como não é possível ser exigente e inflexível numa cultura do aplauso e do elogio, o que acaba é que o professor deixa de dizer ao aluno como ele de fato está e, o aluno esquece que ele mesmo não deixa que lhe digam sua real situação e, em pouco tempo passa a acreditar que é aquilo que ninguém disse que ele não é.
Isso redunda naquilo que alguns especialistas de mercado vêm apontando no Brasil como um fato concreto, apagão profissional. Em outros termos, suicídio geracional. Luciano Alvarenga



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