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Escritora diz que Rússia vive ditadura com apoio da maioria

Luciano Alvarenga

Sugerido por Gunter Zibell - SP
Do O Globo
 
GRAÇA MAGALHÃES-RUETHER
ENVIADA ESPECIAL
 
FRANKFURT - O caso das prisões do ex-empresário Mikhail Khodorkovski, do grupo de rock Pussy Riot e da militante brasileira do Greenpeace Ana Paula Maciel são parte de um fenômeno perigoso que acontece na Rússia (e na vizinha ex-república soviética da Bielorrússia): a ditadura apoiada pela maioria, onde 70% estariam dispostos a votar no ditador soviético Josef Stalin se fosse possível, diz a escritora bielorrussa Svetlana Alexievich.
 
Pouco antes de receber o prêmio da paz da Feira do Livro de Frankfurt, o que acontecerá hoje, a dissidente de 65 anos disse em entrevista ao GLOBO, realizada na sexta-feira no estande da sua editora alemã, a Hanser Verlag, que há nos dois países uma mistura de regime autoritário digno dos tempos de comunismo com capitalismo selvagem.
 
- Assim mesmo há uma profunda nostalgia de Stalin - afirma a escritora.
 
Em livros como “A guerra não tem uma face feminina“ ou “O seu tempo acabou”, a escritora desfaz o mito do heroísmo dos militares difundido na era soviética e com isso tornou-se uma inimiga do regime.
 
É verdade que a maioria dos russos e bielorrussos apoia as medidas draconianas que são tomadas por banalidades como o caso do grupo Pussy Riot ou a ação da Greenpeace?
 
Svetlana Alexievich - No caso do Pussy Riot, trata-se de um sintoma de que a sociedade russa procura neutralizar todos os problemas procurando um forte enfoque religioso. Há alguns protestos contra a prisão, mas a maioria dos russos defende uma penalidade maior. Uma vez estava em um táxi em Moscou e o motorista perguntou se eu era ortodoxa. Se não, eu deveria deixar o veículo. Como em um pais fundamentalista, não existe a separação entre igreja e estado. Com a aprovação de uma nova lei de proteção à crença, a igreja começa a fazer parte da estrutura do poder. Mas os três casos têm muito em comum porque mostram um fenômeno perigoso que acontece na Rússia e na Bielorrússia, a ditadura apoiada pela maioria. Um pequeno grupo tentar protestar e defender os direitos desses perseguidos, mas a maioria é a favor de penalidades ainda mais duras contra os que desafiam o regime.
 
A oposição não procura protestar contra essas medidas arbitrárias?
 
Alexievich - A oposição está dividida e é muito fraca. Há uma minoria que pensa de forma progressiva mas as massas estao passivas porque tem medo de prejuízo individual e por isso evitam criticas ao regime. As pessoas que ainda se lembram da era comunista ou as que viveram em Gulags sao inteiramente fieis ao regime porque aprenderam a ter medo. Se Stalin ou um seu sucessor voltasse para se candidatar, teria os votos de 70% da população. No ocidente, as manifestações dessa minoria são interpretadas como se todo o povo pensasse assim. Mas esse não é o caso e por isso Vladimir Putin é sempre reeleito na Russia e Alexander Lukaschenko na Bielorrússia. É verdade que o regime de Minsk costuma manipular, fazer de 50% 90%, mas ele teve mesmo o voto da maioria.
 
A senhora costuma falar em mistura de regime autoritário e capitalismo selvagem. Por quê?
 
Alexievich - Em termos de autoritarismo, o regime lembra a era comunista, com a diferença que temos hoje a liberdade para viajar. Mas a pobreza que existe fora dos grandes centros como Moscou e São Petersburgo é típica do capitalismo selvagem, onde os pobres são entregues ao seu próprio destino. As antigas centrais de produção de armamentos são como ruínas do império soviético. Os kolchoses foram diluídos, não ha mais nada. A situação é sombria.
 
E na Bielorrússia?
 
Alexievich - Um problema grave foi a desvalorização dramática da moeda. Cem euros valem 1,2 milhões de rublos. Isto indica como sofremos de uma inflação terrível. Um medico ganha apenas 200 euros por mês mas apesar disso, tudo é caro. Aqui no ocidente costumam comparar com a Polonia, que conseguiu melhorar e até ingressar na União Europeia. Mas o domínio soviético na Bielorrússia começou muito mais cedo. Os efeitos dos bolcheviques no nosso pais podem ser vistos até hoje. Como a elite foi extinta e as pessoas pobres eram pouco cultas, houve uma defasagem no idioma bielorrusso, que não mais se desenvolveu. O idioma ficou limitado demais para servir de expressão na literatura. Eu só escrevo em russo.
 
Como é o seu relacionamento com o regime de Minsk?
 
Alexeievich - É como eu disse, eu posso viajar para Frankfurt mas não posso publicar meus livros. Se uma editora publica uma obra minha, é punida pelo regime. Mas eu nao me curvo. Recentemente, distribui volumes de obras minhas publicadas fora do pais no lugar perto de Chernobyl, que fica na Ucrânia perto da fronteira com o meu pais e onde o governo quer construir uma nova central de energia atômica. Eu acho que a situação na Bielorrússia só vai mudar quando a geração que nasceu depois do fim do comunismo atingir a idade para assumir as lideranças. Sera um processo lento. Mas eu não espero algo como aconteceu no mundo árabe, uma revolução.

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