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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

É proibido proibir, menos biografias

Luciano Alvarenga

A discussão e polêmica em torno do direito de se biografar alguém, ainda que sem autorização do biografado, tomou conta do país e, juntou gentes as mais diferentes, Caetano, Chico com o deputado Bolsonaro e, separou as iguais; Ney Matogrosso.
Essa questão nada mais é que a renovação de um dos traços mais mal resolvidos da cultura brasileira, a ideia de público e privado. Como imortalizou em Raízes do Brasil o espaço público no país é uma extensão do espaço doméstico, da casa. Questão, aliás, que o próprio Gilberto Freire também trata por outros caminhos.
Aqui, o espaço público está infestado e dominado pelos interesses privados, quase sempre dos grupos dominantes, que lhe corrompem o sentido e transfigura seus significados e papel social. Ao mesmo tempo em que o público não é público suficientemente, o privado também passa a ser corrompido pela maneira como interfere e transforma o espaço público.
Assim é que figuras da cultura nacional como Caetano, Chico e Milton Nascimento, entre outros, que transformaram, a partir de sua ação no espaço público, a cultura e a vida nacional nos anos 1960 e 1970 e, fazendo isso inventaram a si mesmos como figuras públicas, pela posição que assumem, hoje, favoráveis a censura de biografias não autorizadas renovam e aprofundam a mal entendida relação entre o que é público e privado no Brasil.
A questão que se coloca é se Caetano, Chico e Milton, e também Djavan e outros, são donos de suas biografias. Não é a biografia de qualquer um que está em questão, até mesmo porque não parece que a biografia de qualquer um esteja sendo motivo dessa peleja. Estes cantores se construíram e construíram uma cultura em que foram protagonistas, mas que se forjou no espaço público da vida nacional. Caetano não seria quem é sem seu papel público; foi o público que reverberou Caetano dando a ele consciência e substância como ser público.
O que se quer dizer é que estes personagens da cultura nacional não são donos de suas biografias, não podem simplesmente agora, a posteriori, tentar esconder da sociedade aquilo que foi construído e criado publicamente dentro dela. Se estes personagens não são hoje o que foram no passado, suas memórias são. A questão aqui é sobre seu passado, sua trajetória e como ela se imbrica com a cultura nacional e os descaminhos do país.
Não é possível contar a história do Brasil nesse período sem apontar a participação interferente destes personagens. Se assim é, proibir suas biografias é proibir de se conhecer a própria história do país em sua inteireza.
É importante dizer que o que está em questão é que não sendo mais personagens contemporâneos da cena nacional, pelo menos como foram no passado, tais figuras querem agora, como é próprio de todos aqueles que têm poder para tanto, impedir que sua história seja contada de alguma maneira que macule aquilo que eles querem, a posteriori, manter como ideal. Coisa, aliás, bastante típica entre ditadores, coronéis e mandatários autoritários.
Assim como a Anistia preservou o julgamento e condenação dos agentes e personagens da ditadura, mantendo tudo em silêncio e obscuro, querem nossos ícones da música e da cultura nacional impedir que sua história seja contada para além daquilo que podem controlar. Querem controlar o que acontecerá com suas histórias depois que morrerem, desconsiderando que suas histórias estão feitas.

A luta do Procure Saber, grupo formado pelos ícones da cultura nacional interessados em censurar biografias, é mais uma evidência do quanto público e privado no Brasil é algo estranhado e, quase sempre determinado pela força que alguns setores da sociedade brasileira têm de fazer público interesses privados e, tornar privado coisas que são públicas.  Luciano Alvarenga

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