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Djavan, Chico e Caetano: as razões para os incômodos de certos intelectuais




Durante a ditadura militar, uma série de intelectuais, artistas e pessoas da universidade se mobilizaram para combater a repressão e defender a democracia e as liberdades. Foi uma geração forjada nos ambientes universitários dos anos 1960, momento em que floresceram ideias inovadoras no campo cultural, como o nacional-popular, as vanguardas artísticas, entre outros. A esquerda era protagonizada, principalmente, por um segmento intelectual progressista, tanto é que o movimento estudantil foi um dos principais na formação dos militantes que resistiram bravamente, inclusive na luta armada, contra a repressão. Muitos outros foram exilados.

Esta geração de intelectuais foi a responsável pela consolidação de uma cultura progressista de qualidade expressa na música, no cinema, no teatro, na literatura. O professor Vladimir Safatle fala da existência de uma hegemonia progressista na cultura mesmo nos anos autoritários.

O que vem acontecendo recentemente, com a consolidação da democracia liberal, é a emergência e a consolidação de novos agentes sociais no cenário político. A grande maioria vinda das classes subalternas. Segmentos sociais que, diante do clima de liberdades democráticas, querem se representar e não ser representados pela intelectualidade progressista. Parafraseando a reedição do filme Cinco Vezes Favela, agora é “por eles mesmos”.

O pensador argentino Nestor García Canclini fala que a medida que as sociedades latino-americanas se democratizam, segmentos historicamente oprimidos, como operários, negros, indígenas começam a ter visibilidade no espaço público. E tais segmentos, a medida que começam a se expressar per si, apresentam também eventuais valores ideológicos conservadores, principalmente em relação aos costumes cotidianos, as quais são submetidos. Entretanto, aspiram também a igualdade e políticas públicas.

É neste cenário que temos que entender os incômodos que acometem parte desta geração de intelectuais. Tivemos a desastrada gestão no Ministério da Cultura de Ana de Holanda, irmã de Chico Buarque, em que as políticas culturais foram redirecionadas para atender os interesses do “mundinho da cultura”. Agora, mais recentemente, a grita de ícones como o próprio Chico, Djava, Caetano Veloso e outros defendendo que as biografias só possam ser publicadas com autorização dos biografados. Caso esta medida fosse implementada, jamais teríamos, por exemplo, a reportagem sobre a vida de Sérgio Fleury, figura misteriosa e sinistra da ditadura militar, feita pelo jornalista Percival de Souza (“Autópsia do Medo”).

Estes incômodos deste segmento que foi deslocado pela auto-representação das classes subalternas também geram esta falsa impressão de um vazio cultural. Se não temos movimentos com o charme intelectual como a Bossa Nova, a Tropicália, o Cinema Novo, o Teatro do Oprimido, florescem os saraus literários e teatros de periferia, o samba, o hip-hop. O cenário não é o mais o barzinho e a paisagem belíssima da praia de Ipanema, mas os botecos do bairro da Piraporinha e os barracos amontoados. Falar em movimento estudantil hoje não é só limitar-se à USP e a UFRJ mas as Unianhangueras e Uniestácios da vida. Enfim, o cenário mudou e outros atores entram em cena, desta vez representados por si mesmos.  Desculpem-me Chico, Djavan, Caetano, admiro e sou fã do trabalho de vocês, mas nesta estão equivocados e cuidem-se para não perder o trem da história, como acontece com muito intelectual que foi progressista nos anos 1970 e agora está virando um tremendo conservador ao ver que o povo não é exatamente aquilo que era cantado ou proclamado.

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