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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Da estupidez de um país que não sabe o que é público e o que é privado. A inanição da Democracia .

Abaporu sai de cena
Depois de ser procurado por herdeiros de Tarsila do Amaral, Stagium paga e retira obra de espetáculo modernista
23 de outubro de 2013 | 2h 18
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Julio Maria - O Estado de S.Paulo
Um espetáculo de dança do Ballet Stagium, feito para homenagear os maiores artistas modernistas do País, não fará mais nenhuma referência às obras da pintora paulista Tarsila do Amaral (1886-1973). A decisão foi tomada pela coreógrafa Marika Gidali, responsável pelo Stagium, depois que um representante dos herdeiros de Tarsila pediu que o espetáculo pagasse pelo uso da obra Abaporu, de 1928, que aparecia em forma de um grande boneco por cerca de um minuto e trinta segundos no início da montagem, batizada por Marika de A Semana noventa@vinteedois.

As partes começaram uma negociação que levou algumas semanas. De uma proposta financeira considerada alta pelo espetáculo (acima de R$ 50 mil no total, segundo fontes) o valor foi baixando até que se fechasse um acordo (ninguém quis revelar a quantia exata). Marika pagou pelo uso da figura do Abaporu calculado desde a estreia da montagem, em meados do ano passado, até a reestreia deste ano. E resolveu retirá-lo de cena. "Pagamos pelo tempo de uso e vamos retirar, é uma pena", disse a coreógrafa.

Raquel Lemos, advogada de Marika, diz que, depois de negociar valores para a liberação da obra, não houve mais clima para o uso da imagem. "Sentimos um mal estar grande, mesmo depois de pagarmos por ela. Estamos chateados." Ela diz ainda que havia argumentos legais para a permanência da imagem, já que o espetáculo não era sobre Tarsila nem sobre o Abaporu. "Em um espetáculo de quase duas horas, ele aparecia por pouco mais de um minuto."

O representante dos herdeiros de Tarsila, Paulo Ferreira, não quis falar com a reportagem do Estado sobre o assunto. Antes que o repórter fizesse a pergunta, por telefone, ele interrompeu: "Eu não vou falar sobre isso com você, me desculpe. Esse era um caso que não gostaríamos de tratar na imprensa, foi algum linguarudo que deve ter contado a você. Respeito o Ballet Stagium e não vou comentar, não vou ganhar nada com isso."

Sobrinha-neta de Tarsila, sua homônima Tarsilinha do Amaral diz que lamenta a decisão de Marika. "Sempre queremos chegar a um acordo. Nunca queremos barrar um espetáculo, sobretudo um espetáculo de dança tão bonito." Sobre valores, ela afirma que eles são sempre negociáveis. "Chegamos a autorizar muitas coisas de graça."

Exposições e uso de imagem de obras de arte no País criam muitas vezes pontos de colisão entre herdeiros e curadores. Quando há poder de negociação entre as partes, os finais podem ser felizes. Quando não, o público sai perdendo. "São problemas, muitas vezes, por pura picuinha familiar", diz Renata Junqueira, diretora do Mube, o Museu Brasileiro da Escultura. Ela conta que por pelo menos duas vezes sofreu com desentendimentos que inviabilizaram exposições na casa. "Gostaríamos muito de ter feito uma exposição da escultora Felícia Leiner (1904-1996)." Mas, segundo Renata, não houve entendimento sobre a mostra entre seus filhos (os também escultores Nelson e Giselda Leiner). "Seria muito importante colocá-la (Felícia) em evidência, mas não foi dessa vez." Renata diz que, muitas vezes, é mais fácil produzir uma exposição com artistas internacionais do que com brasileiros. "Consigo facilidades financeiras com entidades e órgãos de relações exteriores desses países que acabam pagando muitas despesas."

O historiador e curador Ivo Mesquita, diretor-técnico da Pinacoteca do Estado de São Paulo, diz que o problema está mais no uso de imagens do que na realização de exposições. "Não há nenhuma regulamentação para isso. Podemos pagar um preço X ou duas vezes mais esse preço para a liberação de alguma imagem que precisamos para fazer os folders de uma exposição, por exemplo." As agências internacionais que cuidam das imagens de autores como Picasso e Matisse, diz Ivo, seriam exemplos de como é que as coisas deveriam ser no Brasil. "É tudo especificado, existe um padrão. Há preços para filmes, livros, folders. Existe um padrão."

Tadeu Chiarelli, diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP, o MAC, chegou a ter problemas com familiares de Emiliano Di Cavalcanti e Alfredo Volpi. Depois de negociar com todos, conseguiu bons desfechos. Os primeiros, herdeiros de Di, começaram com preços para ele impraticáveis quando a exposição Di Humanista começou a ser erguida para colocar 67 obras do pintor em cena. "Mas eles acabaram compreendendo as particularidades do museu, que não cobra ingresso, não tem caráter comercial. Foi tudo resolvido e tivemos as obras expostas." A segunda experiência foi com os herdeiros de Volpi para uma mostra recente. "Começamos com propostas altas, mas todo o material foi liberado no bojo da negociação de quatro obras que estavam com um dos herdeiros do pintor. As obras e o uso das imagens foram concedidos."

Não é sempre assim. Isa Grinspum Ferraz, cineasta, curadora e idealizadora do Museu da Língua Portuguesa, dentre outros espaços para mostras contemporâneas, não dá nomes para evitar represálias, mas diz que a situação é difícil para quem trabalha em seu meio. "Tenho enfrentado essa questão nas exposições e nos museus em que tenho trabalhado, e também nos meus filmes. Está cada vez mais difícil acessar e pagar certos arquivos. Muitas vezes, a pesquisa é dificultada e os valores são impeditivos. É um erro. Essas obras foram criadas por seus autores para estarem no mundo, democraticamente, e não apenas para serem usufruídas por uma elite letrada em suas casas ou em bibliotecas acadêmicas. Ou para ficarem aprisionadas em arquivos particulares. Essa política só fará com que, cada vez mais, o povo brasileiro fique privado de obras fundamentais para o conhecimento do Brasil."

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