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terça-feira, 1 de outubro de 2013

As obras que ocupam o vazio da Fé

Luciano Alvarenga

Como disse em texto anterior Padre virou emprego, paróquia, empresa”, os padres no Brasil, pelo menos uma parcela expressiva deles, anda em descompasso com a sociedade e seus anseios e, com os caminhos sinalizados pelo novo Papa, Francisco.
A sociedade ocidental vive um momento de profunda crise, não apenas econômica, que já é grave, mas uma crise civilizacional; uma crise de destino, de sentido. De repente o que as pessoas sentem é uma enorme dificuldade de encontrar sentido na vida. Embalados que fomos, por duzentos anos, de um discurso do progresso cientifico, do bem estar e das curas de todos os problemas, e da razão dogmática como guia da vida, o que vemos agora é um mundo perdido de si, sem rumo e com a sensação que nada se sustenta por si mesmo.
As coisas esboroam, se fragmentam e se dividem. Na cidade, a impressão que impera é que é cada um por si e deus contra todos. Mais e mais as pessoas se aferram a verdades que não compreendem, compram sonhos de felicidade que se mostram em pouco tempo enormes ciladas, imaginam a vida como alguma coisa que precisa dar certo, entendendo certo como satisfação e aquisição de bens materiais de que não necessitam. Empurram seus familiares, filhos e amigos para escolhas que elas mesmas duvidam se deveriam fazer.
O que temos hoje é um cenário de pessoas infelizes, entristecidas, magoadas pelos erros, esquecidas daqueles que um dia elegeu como importantes, tomando remédios fortes, antidepressivos, drogas legalizadas de todos os tipos e convencidas de que ser feliz é a única coisa que importa, quando a única coisa que não é possível é ser feliz querendo e almejando o que almejam.
É na falta de rumo, na falta de sentido, mergulhado nas prescrições medicamentosas de remédios que mais viciam do que curam que deveria emergir a figura do padre, do líder religioso, da possibilidade espiritual, do encontro amoroso, da fraternidade e da comunhão. Mas o que fazem os padres, com as exceções de praxe, redobram o pedido de dízimo, as ofertas, as rifas, para que mais um prédio seja construído, mais uma reforma seja feita, mais uma vez o dinheiro vá onde as pessoas não querem mais ir. Dá a impressão que as obras estão ai para ocupar o vazio de fé das lideranças religiosas.
O mundo material e da felicidade nas coisas apenas sobrevive à custa de uma indústria do marketing e da publicidade poderosos, isto é, para que o drogado social em felicidade material continue acreditando nisso, mais e mais produtos “novos” precisam ser lançados e mais e mais e, diariamente e, em todos os lugares precisam ser reforçadas e sofisticadas as propagandas. A propaganda e a publicidade são a teologia do mercado, as lojas e os shoppings transformaram-se em templos para aquisição da satisfação e as bênçãos desse novo culto. Mas ao contrário de trazerem paz e satisfação como prometem, acumulam isso sim, mais angústia, mais vazio, mais insatisfação e culpa.
É no memento mesmo que as pessoas mais precisam que faltam os padres, falta à palavra, falta o gesto, o exemplo. Falta a liderança madura, a figura religiosa que se põe acima e no alto, e se transforma num sinal, num sentido, apontando outros caminhos, trazendo para perto o rebanho das multidões sedentas de fazerem parte, de construírem elas mesmas uma nova maneira de viver, de querer, de amar.
Os padres, inspirados no comportamento das celebridades deixaram de serem guias e passaram a se dedicar a ter seguidores. É por isso que as igrejas estão se esvaziando. Padres executivos, construindo paredes dispensáveis quando o que o povo quer é direção, sentido; um destino comum, vocare.
Os padres precisam pensar sua ação religiosa para além de administrarem financeiramente sua paróquia, dando a ela uma cara de prefeitura, quando o que ela precisa é ter a feição de uma caminhada em conjunto. As pessoas estão atrás de gestos vivificadores, de vidas que brilham e fazem brilhar. Festas que sejam pra animar, não arrecadar.  Luciano Alvarenga



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