Redes Sociais conectam ideias e visões de mundo

domingo, 13 de outubro de 2013

A verdade de Ruffato expõe também a pobreza da literatura brasileira

LucianoAlvarenga 


O discurso do escritor Luiz Ruffato na Feira do Livro de Frankfurt merece comentários, como, aliás, muitos estão fazendo, contra e a favor. Quem é contra vê em sua fala críticas aos poderosos de plantão e, ao não enxergar as melhorias dos últimos anos; quem foi favorável vê em seu discurso a denuncia de uma realidade atrasada, arcaica e desigual que não muda. 
O discurso de Ruffato é de uma verdade incontestável. E é a verdade do discurso que, inclusive, evidencia o estado secundário da literatura brasileira no plano internacional e o estado de crise da cultura nacional. O discurso do Ruffato não está à altura da Feira de Frankfurt nem à altura do que deveria ser o discurso de um escritor. Ruffato fala verdades, mas não as fala como escritor. Sendo escritor deveria ter dito o que disse em outro diapasão, de outra forma, mas não, seu texto parecia um editorial de jornalão. 
Ruffato ter dito o que disse da maneira como fez nos coloca em linha com o que está acontecendo no país em termos de cultura e de literatura. Há tempos que a literatura nacional não alcança o nível do que vem sendo produzindo no mundo. Jonathan Franzen, Javier Marías, Orhan Pamuk, Herta Müller, Philip Roth, Michel Houellebecq, Lionel Shriver, entre outros, não tem pares no Brasil. Chama a atenção a distancia destes autores e aquilo que se produz por aqui. Sim, a inexistência de público letrado e leitor, como Ruffato chama a atenção, explica muita coisa sobre o estado da literatura nacional. Mas o fato de os escritores brasileiros não suportarem o peso da solidão e da criação literária no país da felicidade, de se sentirem impelidos incuravelmente a serem aceitos na agremiação, também os torna muito menores do que poderiam ser e também contribui pra o estado paupérrimo da literatura por estas plagas. 
A cultura literária no Brasil ainda não se resolveu do fato de ser ostentação, inclusive entre os próprios escritores, verniz de distinção numa cultura de analfabetos funcionais. O discurso do Ruffato, que será esquecido antes mesmo de ter terminado a feira onde ele foi proferido, revela um país de ressentidos. Escritor ressentido não contribui pra alta literatura.
Ressentimento é aquilo que emerge como resultado da apatia, da incapacidade, da fraqueza em mudar uma dada realidade que nos sentimos afetados. É o discurso do Ruffato. Dizer no fim do discurso que é filho de pessoas pobres sendo ele filho dessa condição é tornar uma realidade, ela mesma material e plasma da literatura, naquilo que impede que a literatura aconteça. 
De repente, nos vemos no Brasil entre o pobre que melhora de vida e que, portanto, está redimido de tudo e passa a ser a medida de todas as coisas ou, de outro lado, uma parcela cínica e também desinformada, vendendo meritocracia como justiça quando as condições em que vivem uns e outros, mais uns que outros, são completamente desiguais. A literatura entre nós ou, é literatura de correção, ajuste social, o pobre redimido ou, autismo biográfico de escritores que pouco tem pra dizer. O problema da literatura brasileira não é língua, como disse Ruffato em certo momento do discurso, é o monolinguismo da nação e a incapacidade de produzir literatura que supere a barreira da língua e, isso só é possível com literatura de alta qualidade.
A literatura começou a se tornar proibitiva no Brasil a partir do momento em que ou, era (é) instrumento de mudança social ou, meio em que muitos escritores têm de se afastar da realidade iletrada da maioria e criar seu mundo próprio e autorreferenciado onde só entram os iguais. 
A realidade denunciada por Ruffato é verdadeira, mas o é na medida em que evidencia a pobreza da literatura nacional. É a pobreza da literatura nacional que empobrece a realidade de onde ela não consegue extrair literatura. 

Nenhum comentário: