Redes Sociais conectam ideias e visões de mundo

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O “Madson Residence” * e o novo conceito de moradia em Rio Preto

Luciano Alvarenga
Rio Preto está vivendo um boom imobiliário, aliás, grande parte do interior do país e de São Paulo, especialmente. De repente, condomínios, prédios e todo tipo de arranjo e “conceitos”, como os vendedores dizem, estão sendo incorporados nestes empreendimentos como a última quintessência da vida e de moradia de que se pode ter notícia.
Em primeiro lugar, e não por que seja importante, apenas para me ver livre disso logo, os nomes são sempre americanos “Madson”, Manhattan, Brooklin e outros, diferentes daqueles nomes duas ou três décadas atrás como Piazza dei Fiore. Aqui, o eterno jequismo arraigado que precisa se disfarçar com nomes outros para dizer que vende o diferente, o melhor; a dificuldade psicanalítica de se entender com a própria cultura e sua importância, significado e força. Tal dificuldade não é prerrogativa de Rio Preto, mas de todas as importantes cidades do interior de São Paulo. Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Sorocaba, todas. Todas caipiras, ainda que não aceitem. E quanto menos aceita mais são.
Nas duas últimas décadas Rio Preto viu seu tamanho se estender atrás dos condomínios horizontais, que passaram a se esparramar pelas franjas ao sul da cidade, principalmente, condomínios de alto padrão ou, de classe média; o fato é que trouxe custos altíssimos à cidade em termos de infraestrutura urbana que sempre se faz acompanhar este tipo de empreendimento. Condomínios que obedecem à lógica das empresas da construção e incorporação e não o plano diretor da cidade. Eram necessários? Provavelmente não, precisavam ter sido feitos onde foram, muito menos (em alguns casos com graves problemas ambientais, como os Damhas).
Longe do centro, por razões míticas como insegurança, coisa que em Rio Preto é de fazer rir, uma vez que isso nunca foi um drama na cidade, e ainda não é, ainda que possa vir a ser, o fato é que a moda era morar longe do centro e deslocar de carro até ele, vindo dos fins do mundo do condomínio. Condomínio – com muro, cerca elétrica, guardas, cachorros assassinos, guaritas fortificadas - foi o nome dado aqui para os projetos arquitetônicos suburbanos desenvolvidos nos Estados Unidos a partir da Segunda Guerra, absolutamente diferente do seu irmão brasileiro.
Aqui a questão é simples. A classe média alta da nossa caipira cidade comprou o modelo do medo, que movimenta uma indústria da proteção e segurança gigantesca e bilionária em São Paulo. Jornalismo fanático - Datena e assemelhados - arquitetura medieval para segurança, modelo automotor de transporte individual, desmonte da estrutura de segurança pública, desinvestimento em cultura, esportes e convivência social nas periferias e bairros pobres, a transformação de shoppings em espaços únicos de lazer e encontro (70% dos paulistanos vão ao shopping), a segregação das populações de baixa renda pra cada vez mais longe do centro e de sua infraestrutura, mais uma lista sem fim de problemas arranjados, mantidos ou financiados pelo Estado e pela iniciativa privada, compõe a lista principal de produtos arquitetados, desenhados e articulados entre si para produzir o pânico social, o medo constante, a insegurança permanente, a cidade hostil, o individuo estranho e perigoso e; tudo isso foi comprado pelos pacatos cidadãos de Rio Preto como uma realidade nossa que deveria receber o mesmo tratamento. Mais ou menos assim, o pessoal por aqui assiste o Datena imaginando que é de Rio Preto que ele esteja falando. Aliás, nós já temos os nossos datenas do interior.
A classe média alta vive em Rio Preto, mas tem a sensação social de morar em São Paulo, isso se chama esquizofrenia social.
Depois que Rio Preto passou pelo menos duas décadas esticando-se atrás dos condomínios e pagando altíssimo preço social e urbano por isso, agora vive a paranoia em outra direção. “Madson, um novo conceito de moradia”, me disseram esta semana o pessoal da Rodobens. A ideia agora é morar bem próximo do centro; naqueles espaços vazios da cidade que estão parados, socialmente inúteis, que a lei impede que assim seja, mas que nenhum vereador ou político tem peito suficiente para fazer valer, nem quer. Amplos terrenos urbanos, décadas esperando pela valorização imobiliária, pela especulação que agora, enfim, está entre nós. Valorizados e no ponto para o abate, quer dizer para vender, a indústria do designer, da arquitetura medieval, da convivência isolada, fragmentada e segregada transforma o que antes era insegurança num novo conceito. “Madson é você próximo de tudo, sem precisar sair para nada”. O condomínio tem tudo, até sala de reunião para quem queira parecer importante.
Se tem tudo, por que perto do centro? Ora, por que estes terrenos que ficaram na engorda durante décadas, trazendo enormes prejuízos sociais e urbanos, agora já podem desovar. Para isso, precisa dizer a classe média e alta que compram qualquer coisa que esteja à venda, especialmente uma vida melhor e feliz, que isso é bom para ter e ostentar como símbolo de outra coisa que não os caipiras de Rio Preto.
O “Madson Residence” é o Piazza dei Fire de ontem. Na próxima década veremos todo o centro de Rio Preto ser completamente destruído, aliás já está sendo (observem o quanto de garagem nascem por ano no centro) para se transformar no novo idílio da vida feliz, pacata e segura. Luciano Alvarenga

*Empreendimento imobiliário da Rodobens

2 comentários:

João Gabriel disse...

Como morador do centro de Rio Preto e cidadão que pensa as possibilidades sociais, narrativas e estéticas da cidade, só lamento o boom imobiliário desenfreado pelo qual o centro urbano passa. Se antes os condomínios prometiam a praticidade aliada à segurança, hoje percebo que o que eles realmente entregaram à cidade foram pontos de mortandade citadina e artificialidade urbanística que beira o ridículo. Recentemente, descobri que há uma área lacustre, arborizada e gramada, nos fundos de um entroncamento de condomínios nos fundos da Unip. Uma área que até transpira um ar de solução urbana inteligente, não fosse a localização estúpida - é praticamente escondido - e a sensação de "elemento de lazer privado" que a dificuldade de acesso confere ao local. Se o centro das cidades tendem a entrar num processo de decadência urbana (ainda que vivo e respirante), prefiro-a mil vezes à artificialidade de uma vida em condomínio fechado, ausente de qualquer experiência de natureza verdadeiramente urbana. O boom segue guiado pela estupidez dos escritórios de arquitetura, que parecem se esquecer de que ela é uma arte, e fundam com brado e clamor mais edifícios sem valor, caixas de vidro e concreto que agem como buracos negros na paisagem; e o cidadão, por mais romântico que seja, é obrigado olhar para o desafortunado landscape sem vida, enquanto se apega às pequenas porções da cidade que mantém alguma vida, alguma aura de verdade.

Anônimo disse...

Corrigindo, não é Madson, sim MADISON, Fica na Zona Sul próximo ao WalMart não no Centro!