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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Do ódio e das responsabilidades


Luciano Alvarenga

O ódio que a AP 470, o nome jurídico do mensalão, desperta ainda na maior parte da classe média brasileira é revelador dos valores que se espraiaram na sociedade brasileira, pelo menos desde os anos 1980, mas certamente aprofundados, nos anos neoliberais da década de 1990. Os famosos anos tucanos.
O neoliberalismo econômico (Estado mínimo e Mercado como dono da sociedade) foi acompanhado de uma forte cultura corporativa que elevou o individuo a suprassumo social e centro de tudo. A ideia de que o individuo precisava apenas de si mesmo e dos próprios esforços para encontrar e ocupar as melhores posições na sociedade onde estava inserido desenvolveu e, legitimou uma cultura individualista, narcísica e, na maior parte dos casos, sem nenhuma ética nem moral aceitável socialmente. Ou por outro lado, a ética corporativa; isto é, tudo é válido em nome dos lucros, das metas, dos ganhos e do sucesso.
O que tivemos foi a formação de uma geração inteira que entrava no mercado de trabalho naquele momento ou, que se firmava naqueles anos, numa cultura individualista, competitiva e agressiva como nunca se viu por aqui. Livros sobre a arte da guerra e todo um vocabulário militar ganharam as bancas de revistas, palestras e cursos preparatórios profissionais. De repente estávamos em guerra, e na guerra tudo é válido desde que você se mantenha vivo, ou melhor, destrua os outros. Ninguém era mais confiável, nenhuma amizade, nenhum laço, nenhum compromisso por mais honesto que fosse podia ser mantido, firmado ou confirmado se isso viesse a significar uma derrota profissional, um cargo em disputa ou mesmo a possibilidade ainda que remota de algum ganho, econômico.
Tudo era aceitável e legítimo caso fosse feito em nome da corporação e de si próprio. Quem poderia questionar uma amizade perdida quando o que estava em jogo era a conquista de um cargo? Quem se levantaria em casa ou na família contra pais e mães que davam o seu melhor, tempo, energia, dedicação e afeto num empreendimento empresarial que redundava no sucesso profissional individual?
Duas décadas depois desse tsunami neoliberal, o que temos? A mais completa e generalizada falta de escrúpulos, ética e senso de responsabilidade social dominando todos os quadrantes da sociedade. Vai do celular roubado de um colega de sala de aula, passando pelo técnico de ar condicionado que engana descaradamente, até empresas como as companhias telefônicas que roubam à luz do dia clientes de hoje e os de amanhã, além do fato de não sabemos mais o que é certo é errado. Aliás, sabemos; a questão é que estamos imersos na ideia de que seu não roubo outro rouba em meu lugar.
A questão é que quando o número dos espertos ou candidatos a isso supera o número daqueles que serão enganados e trapaceados, passamos de uma sociedade com problemas morais, para uma sociedade desmoralizada. O ódio aos mensaleiros, dedicado por não poucas pessoas no país, não é um ódio nascido do desejo de justiça, ao contrário, é ódio de pessoas cultivadas na cultura neoliberal dos anos 1990 - onde tudo é válido desde que você queira e possa realizar, ainda que isso signifique graves danos públicos e societários – e que percebem agora que o número de espertalhões é sempre menor do que aqueles que são vítimas.
A classe média que odeia, é a mesma que imaginava vinte anos atrás que iria se dar bem, muito obrigado, contra a massa do resto. A cultura neoliberal passou ao largo da massa, que estava aquém de poder usufruir dela. A classe média sim imaginou que tiraria todos os proveitos possíveis dos novos tempos, imigrando na primeira classe para o século que se abria, sorvendo apenas as benesses, enquanto o país em seu todo ficaria preso ao século XX. Duas décadas depois esta classe percebe que quem paira acima de tudo e todos é a elite econômica. Ela, classe média, amarga a dura vida de não apenas duvidar se está no século XXI, ou mesmo o que isso realmente significa, para remoer uma imensa, doída e com remorsos, as saudade dos tempos, lá no século XX, quando ainda podia se dar ao luxo de ter escolha.
O ódio aos mensaleiros é o ódio de quem está evidentemente ciente de que não embarcou no grande transatlântico das promessas neoliberais. O mensalão, que não é um, são muitos e, envolve todos os partidos, grandes ou pequenos, e pode ser mensalão ou Tucanoduto do metrô de SP, é o emblema de uma festa que a classe média permitiu que fizesse, lá nos anos 1990, compartilhou seus valores, repassou aos seus filhos como conhecimento de classe, ergueu brindes em seu nome e, onde ela perdeu quase tudo. Diploma universitário, carrão, saúde privada, moradia em condomínio, viagens internacionais, empregada doméstica (ama de leite) a baixo custo, empregos bem pagos, estabilidade, nada disso tem mais valor ou significado nem é garantido. Está tudo em oferta nas lojas do ramo pra todos os bolsos.
A classe média virou a geleia geral numa cultura em que tudo está à venda e nada é exclusivo. Aqui está fincada a raiz mais profunda do ódio contra os petistas do mensalão. Pois eles eram as vozes nos anos 1990 contra a farra neoliberal, e se tornaram, segundo entende a tal e referida classe, os ganhadores ou pelo menos os manipuladores do jogo em que a maior derrotada é a tal classe média. O mensalão e, todas as suas variantes em todos os partidos, é a vitória da cultura do sucesso individual a qualquer custo, que tanto encheu os olhos da classe média medíocre nos anos de 1990.
Como ela não pode odiar o PSDB, pai e autor maior da implantação da selvageria econômica dos anos 1990, tendo em vista que ela, classe média, é que convenceu, via grande imprensa, o povão a votar no seu ideário de classe, ela odeia o PT, aquele que foi contra, naquele momento, aos seus sonhos. Em poucas palavras, se não posso, não devo, não quero assumir as responsabilidades pelo sonho que tornei realidade e, do qual sofro todas as consequências, acuso quem se interpôs (PT), ainda que sem sucesso, a realização daquele projeto.
O ódio é a expressão mais evidente de que a classe média ainda não trouxe para a consciência, que ela sim é a grande responsável pela ordem de coisas que se instalou no país e que lhe trouxe tantos dissabores e prejuízos. A decadência dos partidos políticos, em que o PT é apenas uma expressão, é apenas um lado da decadência dos valores morais e éticos que tomou conta de todos os extratos e classes da sociedade brasileira.




Um comentário:

João Gabriel disse...

Da selvageria pregada pelo marketing econômico e político, durante a cinzenta década de 1990, hoje sobram ruínas. Se até o marketing, progenitor de grande parte da agenda cínica da mídia, hoje se volta para o espírito do indivíduo, para o consumidor como ser vivente e espiritual, já passa do tempo da tão batida classe média lançar um olhar de afeto ao redor e notar que nada mais pode seguir pautado pelo ódio ou pela revolta sem substância. Os novos valores éticos só poderão servir se a noção de globalidade se infiltrar também no cerne de cada ser humano, para que se saiba que não se conecta com o mundo quem não está ligado àqueles que lhe são próximos.