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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A creche chegou à faculdade

Luciano Alvarenga
Depois de pelo menos duas décadas, as crianças que cresceram nas creches chegaram à faculdade. É a geração creche. Formados a distancia do aconchego do lar, ou de qualquer coisa que receba este nome, foram educados e socializados nestas instituições, certamente tão cheia de problemas como qualquer outra. Socialização primária, isto é, aquilo que antes era feito em casa com pais, irmãos e tios e avós, agora é feito na creche. A escola era a socialização secundária, agora é a primária, a secundária e todas as outras.
Creche é o espaço onde a sociedade coloca seus filhos que dificilmente podem ficar em outro lugar. Creche é o primeiro nome de uma vida cheia de afazeres, agendas, atividades, opções, horários, escolhas, programas (pedagógicos, mas depois técnicos, políticos, ecológicos, econômicos, funcionais, metas, serviços, obrigações, registros, autorizações, documentos, liberações, tributos, impostos, repetição), institucionalização. Tenho a impressão que as creches mais que preparar para qualquer coisa que seja, é a escola fazendo mais cedo o que antes fazia tarde, aos sete anos, ou seja, adocicar, amansar, amestrar, dar tudo pra gentes que não saberão o que fazer com tanto.
Tudo é aquilo que o marketing de profissional disse nos anos 1990 que você poderia fazer desde que quisesse. O que se vê agora é que entre ter tudo e escolher apenas o que é possível, muita gente continua olhando a vitrine sem saber o que escolher. As creches foram as primeiras a dizer e a mostrar que a vida é um mar de escolhas possíveis. A escola primária vem em seguida, enchendo as bocas e as cabeças de ritalina dizendo que o possível não é uma opção. Depois o ginásio, ou seja lá que nome tenham dado agora, adestrando em conhecimentos inúteis e sobre coisas que nem mesmo os professores compreendem bem.
Antes mesmo que sejam jovens, a molecada já está suficientemente cheia de vontades, desejos, ânsias de todos os tipos, meio milhão de escolhas, ou escolha nenhuma, mas completamente paralisada diante delas. Quem tem muita escolha quase não tem nenhuma. E a melhor maneira de sempre poder continuar escolhendo é nunca fazer nenhuma escolha. Quem escolhe sai da fase de decidir e passa a ação. As escolas ensinam muitas coisas, menos a agir. Ao contrário, a escola é uma máquina de produzir apáticos, desinteressados, gente que nada quer.
Hoje temos gerações inteiras correndo, trabalhando muito, fazendo dezenas de coisas e não conseguindo se decidir por nenhuma delas. Começam algo tão empolgados, interessados e, vivos e em pouco tempo se atormentam com tudo aquilo que estão perdendo por não estarem fazendo outra coisa, e param. E param e estão parados, felizes com todas as escolhas que podem fazer e angustiados por não conseguirem fazer nenhuma ou em dúvida (mortal) em relação a que fizeram.
As creches encheram as crianças de possibilidades, mas não lhes ensinaram nada sobre nenhuma delas. As creches são o mundo de coisas possíveis a crianças que do mundo nada sabem. Em casa, antigamente chamado lar, era comum o mundo ser apresentado à criança filtrado pela família e como ela via e se relacionava com ele. Agora, o mundo da casa e da vida de quem é da casa, logo é entendido pelas crianças como ruim e, para isso basta elas verem como os adultos que a cercam lidam com ele. Entre o mundo ruim que eu vejo em casa e as possibilidades sem fim da creche... Não é por outro motivo que as crianças saem da infância e da creche querendo tudo, e tão logo entram na adolescência, passam a não querer mais nada.
É por isso que a faculdade perdeu um pouco do seu sentido e força; sendo ela momento de aprofundamento de decisões já tomadas, passou a ser lócus de mais e mais indecisões. Da adolescência pra frente é o mundo das decisões, e a geração creche, sobre isso, nada entende, ou entende pouco, ou não entende exatamente o que fazer com o que está entendendo. 

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