Pular para o conteúdo principal

A creche chegou à faculdade

Luciano Alvarenga
Depois de pelo menos duas décadas, as crianças que cresceram nas creches chegaram à faculdade. É a geração creche. Formados a distancia do aconchego do lar, ou de qualquer coisa que receba este nome, foram educados e socializados nestas instituições, certamente tão cheia de problemas como qualquer outra. Socialização primária, isto é, aquilo que antes era feito em casa com pais, irmãos e tios e avós, agora é feito na creche. A escola era a socialização secundária, agora é a primária, a secundária e todas as outras.
Creche é o espaço onde a sociedade coloca seus filhos que dificilmente podem ficar em outro lugar. Creche é o primeiro nome de uma vida cheia de afazeres, agendas, atividades, opções, horários, escolhas, programas (pedagógicos, mas depois técnicos, políticos, ecológicos, econômicos, funcionais, metas, serviços, obrigações, registros, autorizações, documentos, liberações, tributos, impostos, repetição), institucionalização. Tenho a impressão que as creches mais que preparar para qualquer coisa que seja, é a escola fazendo mais cedo o que antes fazia tarde, aos sete anos, ou seja, adocicar, amansar, amestrar, dar tudo pra gentes que não saberão o que fazer com tanto.
Tudo é aquilo que o marketing de profissional disse nos anos 1990 que você poderia fazer desde que quisesse. O que se vê agora é que entre ter tudo e escolher apenas o que é possível, muita gente continua olhando a vitrine sem saber o que escolher. As creches foram as primeiras a dizer e a mostrar que a vida é um mar de escolhas possíveis. A escola primária vem em seguida, enchendo as bocas e as cabeças de ritalina dizendo que o possível não é uma opção. Depois o ginásio, ou seja lá que nome tenham dado agora, adestrando em conhecimentos inúteis e sobre coisas que nem mesmo os professores compreendem bem.
Antes mesmo que sejam jovens, a molecada já está suficientemente cheia de vontades, desejos, ânsias de todos os tipos, meio milhão de escolhas, ou escolha nenhuma, mas completamente paralisada diante delas. Quem tem muita escolha quase não tem nenhuma. E a melhor maneira de sempre poder continuar escolhendo é nunca fazer nenhuma escolha. Quem escolhe sai da fase de decidir e passa a ação. As escolas ensinam muitas coisas, menos a agir. Ao contrário, a escola é uma máquina de produzir apáticos, desinteressados, gente que nada quer.
Hoje temos gerações inteiras correndo, trabalhando muito, fazendo dezenas de coisas e não conseguindo se decidir por nenhuma delas. Começam algo tão empolgados, interessados e, vivos e em pouco tempo se atormentam com tudo aquilo que estão perdendo por não estarem fazendo outra coisa, e param. E param e estão parados, felizes com todas as escolhas que podem fazer e angustiados por não conseguirem fazer nenhuma ou em dúvida (mortal) em relação a que fizeram.
As creches encheram as crianças de possibilidades, mas não lhes ensinaram nada sobre nenhuma delas. As creches são o mundo de coisas possíveis a crianças que do mundo nada sabem. Em casa, antigamente chamado lar, era comum o mundo ser apresentado à criança filtrado pela família e como ela via e se relacionava com ele. Agora, o mundo da casa e da vida de quem é da casa, logo é entendido pelas crianças como ruim e, para isso basta elas verem como os adultos que a cercam lidam com ele. Entre o mundo ruim que eu vejo em casa e as possibilidades sem fim da creche... Não é por outro motivo que as crianças saem da infância e da creche querendo tudo, e tão logo entram na adolescência, passam a não querer mais nada.
É por isso que a faculdade perdeu um pouco do seu sentido e força; sendo ela momento de aprofundamento de decisões já tomadas, passou a ser lócus de mais e mais indecisões. Da adolescência pra frente é o mundo das decisões, e a geração creche, sobre isso, nada entende, ou entende pouco, ou não entende exatamente o que fazer com o que está entendendo. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se o mundo tivesse 100 pessoas LEGENDADO (premio Cannes)

Ter pinto é crime

Luciano Alvarenga
Uma coisa é o movimento feminista, outra, são as mulheres. Feministas gostam de política, ou pelo menos de terem contra o que levantar suas bandeiras de ódio; mulheres gostam de homens e de uma vida alem da política. O movimento feminista foi desde o princípio, pelo menos aquilo que se pode chamar assim, nos anos 1950, não em direção as mulheres, mas contra os homens. O homem sempre foi o alvo do movimento; não se trata de libertar a mulher seja do que for que se imagine ela precise ser liberta, mas de constranger o masculino de tal forma que o movimento feminista, não as mulheres, tenha mais e mais poder. Aliás, o movimento feminista não está nem ai com as mulheres, basta ver o absoluto silêncio desse movimento em relação à presença de um jogador de vôlei masculino (há quem acredite que lhe terem amputado o pênis e convertê-lo numa vagina, o tornou mulher, kkkkk) num time feminino, sem que isso cause o menor constrangimento político no movimento feminista (aqui é mais…

Sem chão nem utopia

Luciano Alvarenga A grande promessa da modernidade foi oferecer liberdade contra tudo e qualquer coisa que pudesse impedir os indivíduos de fruírem a vida sem amarras. Podemos dizer que, tal liberdade foi conquistada plenamente, e ainda que alguns resquícios de passado, com suas imposições e limites ainda resistam, derretem rapidamente nesse momento; não deixando atrás de si nada que possa servir como estandarte pra novas rebeliões. Não há contra o quê se rebelar. Todos os sólidos do passado, seja moral ou secular, estão liquefeitos; ao indivíduo resta apenas o destino de se guiar, tendo a si mesmo como referência. Ao mesmo tempo em que goza de todas as liberdades, vividas ou sonhadas, realizadas ou posta como possibilidade, o que se desenha nas pegadas daquele indivíduo é o medo, o receio, a insegurança, a incerteza em relação a si mesmo e aos seus destinos possíveis. A própria ideia de destino nada mais é que uma imagem, uma ilusão de quem ainda pensa que se guia de acordo com alguma r…