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1929 e 2008: reações à crise

Excelente Texto. LA

A forte intervenção do Estado no sistema financeiro deu efetividade à execução de uma política de provimento de liquidez e de direcionamento do crédito em beneficio da recuperação econômica

por Luiz Gonzaga Belluzzo — publicado 27/09/2013 03:21

O economista Alan Blinder, ex-vice-presidente do board do Federal Reserve, lembrou que, no domingo 15 de setembro, a quebra do Lehman Brother completou seu quinto aniversário. Em artigo publicado no Wall Street Journal, Blinder chamou a atenção dos leitores para o contraste entre a reação pronta e implacável do Executivo e do Congresso dos Estados Unidos na Grande Depressão dos anos 30 do século passado e a frouxidão da resposta do governo americano à crise de 2008.
A depressão dos anos 30 mobilizou as reservas democráticas do povo norte-americano. Nos momentos de crise econômica e social, os assim chamados movimentos “populistas” cuidavam de produzir os anticorpos para impedir a falência generalizada dos órgãos devastados pela ganância virulenta do establishment financeiro e corporativo. O sobrinho de Theodore Roosevelt, Franklin Delano, aquele que assumiu o governo do país quando a depressão de 1929 andava brava, tratou de salvar as grandes corporações e os bancos de seus próprios desvarios e preconceitos.
Os bancos relutaram em aceitar a forte intervenção do Estado no sistema financeiro. As medidas brecaram a corrida bancária e deram efetividade à execução de uma política de provimento de liquidez e de direcionamento do crédito em beneficio da recuperação econômica. O grand monde financeiro norte-americano jamais se conformou com a regulamentação imposta aos bancos e demais instituições não bancárias pelo Glass-Steagall Act, no início dos anos 30.
Franklin D. Roosevelt acreditava nos mercados administrados e no controle do capitalismo. O New Deal era visto, naturalmente, com horror por J.P. “Jack” Morgan, o júnior. Em 1935, a multidão de desempregados e empobrecidos vivia dos programas de obras públicas e de assistência social do Estado. Ao desembarcar de uma viagem à Europa, ainda a bordo do Queen Mary, o desastrado herdeiro de John Pierpont proclamou: “Todos os que ganham dinheiro nos Estados Unidos trabalham oito meses por ano para sustentar o governo”. A indignação popular quase incendiou o país.

O historiador Ron Chernow escreve em seu livro The House of Morgan que John Pierpont deixou de ser um indivíduo para tornar-se o símbolo político dos ricos e reacionários que se opunham à justiça social. Advogado formado em Harvard, o conselheiro legal de Roosevelt (mais tarde juiz da Suprema Corte), Felix Frankfurter, escreveu ao presidente: “Quando os homens mais proeminentes do mundo da finança escancaram atitudes moralmente obtusas e antissociais, chega-se à conclusão de que o verdadeiro inimigo do capital não é o comunismo, mas os capitalistas e sua coorte de escribas e advogados”.
A Era Progressiva e o New Deal foram momentos de rebelião democrática e ascensão econômica das massas. Não há como negar que os newdealers estenderam sua influência até os anos 50 e 60, o período da “era dourada” do capitalismo.
A arquitetura capitalista do pós-Guerra permitiu durante um bom tempo a convivência entre estabilidade monetária, crescimento rápido e ampliação do consumo dos assalariados e dos direitos sociais. As políticas favoráveis à manutenção do pleno emprego e ao desenvolvimento econômico estavam ancoradas em sistemas financeiros estritamente controlados pelos bancos centrais nacionais. Nos EUA, a separação entre bancos comerciais, bancos de investimento e seguradoras impediu que os bancos comerciais, responsáveis pela criação de moeda e pelo sistema de pagamentos, se envolvessem em atividades especulativas e arriscadas nos mercados de capitais. O Regulamento Q determinou a imposição de tetos para as taxas de juro. O presidente Roosevelt criou o seguro de depósito, para impedir corridas bancárias.
Na posteridade da crise de 2008, entre tantas loucuras, os apologetas da finança desbragada e seus ideólogos prosseguem em seu empenho de manter os governos sob controle. Tratam de convencer a populaça remediada de que só eles sabem das coisas, são os detentores do monopólio do saber econômico, aqueles capazes de impedir que os “populistas” cometam insanidades.
Como toda loucura, essa também tem método: os mandachuvas devem sempre simular que seu poder é fruto da inteligência. É preciso ocultar que só parecem inteligentes porque têm poder. Os sábios globais continuam a botar banca e a ameaçar os governos e seus povos com as “crises de confiança” que nada mais são do que a reafirmação pura e dura da ditadura de seus interesses ou dos interesses de sua ditadura.

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