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As roupas de adulto que o Vergonha Rio Preto não veste



O presidente da Câmara de Rio Preto de acordo com os dispositivos que são de sua prerrogativa estabeleceu que pessoas vestidas de camiseta cavada, bermuda, chinelos ou não vestidas de acordo com decoro não podem entrar na Câmara. Tal atitude foi acompanhada de todo tipo de reação contrária acusando-se o presidente de preconceituoso, discriminatório e, mais sei lá quantas coisas. Não vou tecer comentários sobre a Câmara e seus vereadores, tendo em vista que já cansei o distinto público com tais análises.
O vergonha rio preto vem arquitetando a vinda do CQC à cidade para realizar um quadro do programa em que se denuncia os descalabros públicos e políticos país afora. A ideia é enfiar o CQC na Câmara legislativa expondo os vereadores a uma dose cavalar de constrangimento em rede nacional. Eu me pergunto: o que imaginam conseguir os rapazes e moças do movimento com tais coisas? Por que imaginam esse pessoal que têm o direito de entrar na Câmara como queiram?
Uma das tragédias, e não foram poucas, dos movimentos rebeldes dos anos 1960 foi plantar a ideia que agora se dissemina por aqui também, ainda que com 50 anos de atraso, de que tudo pode desde que se queira. Nada mais é sagrado, não há mais rituais, não há mais autoridade, e viva a voz das ruas. Como se a voz das ruas fosse ela sim o único sagrado e a única autoridade a que se deve respeitar. Vestir-se adequadamente para as mais diferentes situações e os diferentes rituais é uma conquista da civilização, o reconhecimento de que em determinados momentos a vestimenta é um acréscimo de informação que indica a importância daquilo que se está vivendo. Não é por outro motivo que num casamentos os noivos se vestem de tal maneira que sejam reconhecidos com tal; que numa formatura os alunos sejam vestidos por uma beca, indicando a nova situação profissional em que se encontram. É por esse motivo que juízes e promotores da mesma maneira se fazem notar em audiências e julgamentos.
Mas a rebeldia contra a atitude do presidente da Câmara é reveladora de algo mais importante e expõe o momento novo em que se encontra o vergonha rio preto. Não aceitar as novas regras impostas para participar das sessões na Câmara é em primeiro lugar infantilismo. Reagem como crianças mimadas que foram impedidas de brincar no parquinho por mau comportamento em aula. Esperam contar com a aquiescência da população, ou da imprensa, com sua atitude por imaginar que, uma vez que os vereadores estão no mais baixo nível de credibilidade, o vergonha rio preto está autorizado a fazer o que bem entende. Não está.
Brigar por conta das roupas que imagina o movimento usar qual queira é revelador do vazio programático e de ideias que atingiu o movimento. Tudo bem, o Occupy Wall Street vive a mesma crise. Depois de colocar milhares de jovens na praça em protesto contra o mundo financeiro americano, está voltando para casa pela mais profunda falta de proposta. O que o vergonha percebeu é que os protestos à la grêmio estudantil têm seu limite e o limite do vergonha chegou. É aqui que se entende a obsessão que se tornou a tentativa de trazer o CQC para Rio Preto.
Incapazes de mudar qualquer coisa que seja na Câmara, embora tenham conseguido a proeza maior, junto com a imprensa local, de forçarem a saída de 10 vereadores nestas últimas eleições, o que não é pouco, tentam agora manter-se no centro do palco atraindo um programa de humor com a promessa de audiência fácil dado o descalabro medonho do nosso Legislativo. O que o vergonha não entende, ou prefere não entender, é que a presença do CQC na cidade não muda nada sobre coisa alguma. Doutra maneira, a presença deste programa semanalmente em Brasília já teria produzido uma revolução. O que querem, na verdade, é expor ao ridículo, em rede nacional, aquilo que todos já conhecem em suas respectivas cidades em tons tão cinzas ou piores do que temos aqui.
O vergonha sabe que na ausência de uma agenda séria e concreta, que nos dias de hoje estão mais para acontecerem no campo das ideias do que da ação prática, ele só pode apelar para ações cada vez mais inusitadas. A bola da vez é o CQC. Já está claro que os novos vereadores, ainda que novos, atuam dentro dos parâmetros permitidos pelo jogo pesado e fétido da política municipal. Assim como todos eles, os vereadores, vão posar como o novo fazendo o novo, embora nada façam nesse sentido, o vergonha rio preto espera continuar na cena do protesto sem destino lançando mão de tempos em tempos de alguma jogada constrangedora que os mantenha como uma força política atuando fora da política.
O problema do vergonha rio preto é o fato de que vai se tornando cada vez mais um movimento autorreferente, em que o mais importante é continuar existindo e existindo de qualquer maneira, deixando para trás os motivos que o trouxeram à vida. É o velho cacoete de envelhecer sem amadurecer.
Luciano Alvarenga

Comentários

Josué Dias disse…
Excelente texto.
Pergunto-me, ao ler o texto, se os movimentos de protestos, hoje, protestam apenas para mostrarem que têm algo a fazer? Sinto um certo esvaziamento dos objetivos e a perda do foco de muitas ações. Parece-me um "contrariar a qualquer custo porque somos do contra."

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