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A capa do Diário de hoje é “Papai usa batina”



De antemão digo que este texto se refere à capa do jornal Diário da Região do dia 17.03.2013, e não à matéria das páginas 1b, 2b, 3b referentes à capa, do jornalista Allan de Abreu. Matéria que achei bem escrita e abordada de forma equilibrada, embora inoportuna que ganhasse a capa.
Qualquer aluno em primeiro ano de jornalismo aprende que a manchete num jornal é a expressão de algo importante, o mais importante, acontecimento do dia anterior ou daqueles dias. O acontecimento mais importante destes últimos dias foi a escolha do Papa. Isso significa manchetes que, certamente, estejam ligadas a ele e a qualquer coisa que a ele aconteça ou a ele se refira. A manchete do Estadão hoje é “Papa diz que natureza da Igreja é espiritual, não política”. O Globo “Novo Papa muda jogo do poder na América do Sul”. Correio Brasiliense “O anjo brasileiro do Papa Francisco”. A Folha abandonou o tema como manchete, mas trouxe o assunto da sucessão papal na parte superior da capa, “Papa deseja uma Igreja pobre e para os pobres”, evidenciando que o tema ainda é quente.
O grande fato religioso, caso qualquer jornal queira manter o tema na sua capa, é o Papa.
Entretanto, o Diário abandona o tema da sucessão papal e traz na capa um assunto absolutamente secundário entre os temas da semana, ainda que importante, e deixa o leitor sem entender por que filhos de padres é um assunto mais importante, por exemplo, do que a solidão de sacerdotes idosos, pedofilia ou má formação intelectual dos seminaristas. Ou, por que o assunto de padres que têm filhos superou em importância o tema papal?
O próprio autor da reportagem, Allan de Abreu, deixou clara a importância do assunto logo no terceiro parágrafo da 1b: “Casos de padres pais são raros...”, se são raros por que eles ganharam a capa do dia mais importante para o jornal, Domingo, numa semana em que o tema ainda em discussão, vide a capa dos principais jornais do país, foi o tema da eleição papal? Sem mencionar os programas de TV que abordaram o novo Papa ao longo do domingo.
Tenho duas sugestões.
Repito, minha questão é a Capa, a matéria em si poderia ter sido publicada em qualquer outro dia sem nenhum prejuízo ao leitor.
Primeiro, o jornalismo iconoclasta. Fazer jornalismo preocupado em abordar temas sensacionais envolvendo instituições, regras ou tradições e que expõe como falsa, fajuta ou hipócrita estas mesmas instituições, regras e tradições. A Capa num jornal ou revista, nesse sentido, é instrumento fundamental. Ou seja, mais importante que a escolha do Papa (e esta escolha tem sido aclamada por críticos, estudiosos e Teólogos como a mais importante das últimas eras da Igreja) é mostrar como é falsa, fajuta e hipócrita a Igreja Católica. Enquanto mostram o novo Papa lá em cima, os padres têm filhos aqui em baixo (“Papai usa batina”, como se eles os estivessem gerando às dúzias, e não estão como a própria matéria do jornal deixa claro). É o jornalismo da descrença, que vem fazendo escola nestas últimas décadas. É a cultura secular sepultando a cultura religiosa via o mito da imparcialidade jornalística.
Tendo em vista que o grande assunto da semana envolve os católicos e cristãos em geral, fica difícil não enxergar que a manchete do Diário tem o intuito deliberado de desbotar a comemoração regional do mais importante fato religioso do Ocidente com um destaque que não tem nenhuma justificativa jornalística para estar no ponto mais importante da capa do jornal, ainda mais e fundamentalmente, num domingo. Em resumo, é jornalismo iconoclasta e, portanto, não é jornalismo.
Segundo, a necessidade desesperada de vender a noticia sobrepujou a notícia em si. Nesse caso, o jornal optou pela perda permanente de credibilidade. Luciano Alvarenga




Comentários

Cremon disse…
Caríssimo Luciano, que bom encontrar seu blog! É uma oportunidade de ler seus artigos. Coisa que não faço (me perdoe!) há tempos.
Peço que compreenda que discordo de seu pensamento quanto à capa do Diário (Papai usa batina) de domingo. Achei, novamente, uma arte digna de elogios quanto ao teor jornalístico a que o veículo se propõe, mesmo que aponte para um pensamento acintoso ou, como você prefere, parcial.
Não se trata de algo comum, certo? Só por isso mereceu ser capa. Pelo contexto da ocorrência, no momento que o mundo reverencia o "espetáculo" da escolha do novo papa, ainda mais. Afinal, parcial é mostrar apenas um lado. E o que se vê, reforçadamente agora, é a exaltação de uma nova promessa de renovação da igreja.
Acho jornalístico sim mostrar esta banda podre da igreja, que insiste em tentar derrubar os conceitos que nortearam a difusão do evangelho. É preciso sim separar o joio do trigo, se é mesmo que eles ainda não se fundiram.
Por isso, discordo da crítica e aproveito para ressaltar que o Diário é o jornal com maior utilização da capa para valorização de seu conteúdo. Um abraço.

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